25 de Abril de 2010
Querido irmão mais velho,
Não me recordo com exactidão o primeiro dia em que entrei em tua casa. Sei que ia vestido de azul, tinha um malmequer branco no peito e ainda não tinha opinião. Nessa altura foram os meus pais que me levaram a tua casa.
Sei porque vi as fotos. Nesse dia foi uma grande alegria. E de alguma forma passei a pertencer a uma comunidade da qual os meus pais e tu fazem parte. E eu passei a fazer.
A partir dessa altura passei a ir visitar-te quase todas as semanas, umas vezes com a minha mãe, quase sempre, outras sozinho, com a minha avó, ou até com amigos.
Com o passar do tempo fui te conhecendo melhor, fui aprendendo mais sobre ti, e tu foste-me ensinando mais sobre mim. Tens aquela sabedoria sem tempo, e incrivelmente tinhas sempre tempo para mim.
Fui caminhando contigo. Eu e os meus amigos, que eram sempre tão bem recebidos na tua casa. Aliás sempre admirei a facilidade com que recebias toda a gente em tua casa.
Ensinaste-me muita coisa, e de uma forma muito profunda, acabaste por te tornar para mim um guia, uma referência. Disseste-me para amar, disseste-me para oferecer a outra face, para ser generoso, para fazer o bem, para respeitar o próximo e acima de tudo a mim mesmo. Ensinaste-me a não mentir e a ser melhor.
Por tua causa conheci pessoas fantásticas e criei muitos laços de amor com muitas pessoas.
Quando vim para Lisboa deixei de te ir ver tanto. Por tantas razões fiquei perdido no meu caminho e nas minhas prioridades. Não tinha vontade de ir a tua casa, e a celebração que toda a gente fazia lá cansava-me.
Durante muitos anos isso foi fonte de tristeza da minha mãe, afinal a mãe gosta sempre de ver os irmãos juntos.
Mas com o passar do tempo descobri uma das coisas mais fantásticas do mundo. Que afinal a tua casa podia ser o meu ser, e que podia levar-te comigo sempre para onde fosse.
Desde essa altura, apesar dos protestos dos que me disseram que não era a mesma coisa, levei-te comigo sempre. Continuámos a falar, a partilhar segredos, a olhar com a atenção para o mundo e continuaste a ensinar-me muita coisa.
Desde que cheguei a Angola já pensei muitas vezes em ti, inclusivé apeteceu-me ir a tua casa. E passei por lá, mas a porta estava sempre fechada. A minha mãe claro ficou toda contente e disse-me para insistir. Mas não sou já de insistir. A empregada lá de casa também me disse para ir. Que também era nossa irmã e que te conhecia bem. Mas não sabia a que horas estarias em casa. Acabou por não acontecer.
Hoje, aqui no Lubango, decidi caminhar, caminhar sem sentido, sem tempo… Estava triste e cansado. Hoje acordei às 4 da manhã com gritos na rua. Deviam estar a lutar à séria com os gritos todos. E senti-me cansado. Apeteceu-me voltar para casa, para Portugal. Há dias assim. Mas decidi ir caminhar. Primeiro a um “centro comercial” às escuras e com grilos. Mas depois na rua mesmo, a ver as pessoas e os edifícios e tudo. E caminhei por muito tempo. Uma hora ou talvez mais. E ao longe vi a tua casa. Ao princípio nem liguei muito, mas depois senti que se calhar era mesmo o que estava a precisar e fui até lá. Curiosamente estava aberta e tu convidaste-me a entrar.![25042010192[1]](http://www.bernardoramirez.com/wp-content/uploads/2010/04/250420101921-300x225.jpg)
Estava lá um dos nossos irmãos a falar. E eu ouvi. Disse-me que temos em nós a alegria de saber que temos um pastor, e que nada nos faltará se confiarmos nele. E que com alegria temos de partilhar a tua palavra. Afinal tu és o mais velho. Ouvi e lembrei-me que já faço isso, que tento fazer isso todos os dias. Ele também me disse que não importa se são 100 ou 1 os que nos ouvem, que a tua palavra tem valor por ela e não pela quantidade de pessoas que a ouve. E eu concordei no coração.
Sou um dos teus irmãos, mas não esqueço o sacrifício que fizeste por nós e a lição que tens em ti e que nos ofereces todos os dias. Não sou um grande fã de celebrações organizadas ou de compromissos rígidos. Mas tu és o meu irmão mais velho. E levo-te sempre no coração, a ti e à tua palavra.
Alegria e amor, alegria e amor, alegria e amor… Simples este mistério da vida…
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