Paternidade e igualdade

A questão da igualdade de género é profunda e polémica. Quando olhamos para a sociedade actual e vemos a forma como ainda, em tantos sítios, as mulheres continuam a ser tratadas com injustiça, com desigualdade e com preconceito não consigo deixar de sentir uma profunda tristeza.

Não sou radical na questão da igualdade. Aliás acredito que, tanto os homens como as mulheres, têm características e papéis distintos. O que não os faz ter maior ou menor valor. Além disso, hoje em dia, mais que em qualquer outro tempo ou lugar, os papéis podem inverter-se e mudar sem que isso signifique um desmérito para nenhum dos géneros.

Sempre fui dos que se imaginou como pai, mas mais que isso como dono de casa. Vejo com facilidade e com um sorriso a possibilidade de trabalhar desde casa, de cuidar dos filhos, de passear com os animais de estimação e de cozinhar para a família, de cuidar do jardim, das plantas e das pessoas.

Agora que sou pai ainda me é mais difícil vir trabalhar e perceber que estou longe durante tantas horas do ser que mais me importa. E a fazer coisas às quais encontro só uma importância relativa.

O que não sabia, nem tinha noção, é do quanto a paternidade e a maternidade são desiguais, mas no sentido do favorecimento do papel da mãe.

Quero deixar claro que tenho perfeita noção da importância da mãe para qualquer criança e bebé. E que, por muito que um homem sonhe, não poderá substituir, principalmente nos primeiros anos de vida, o papel fundador e fundamental da mãe.

Mas ao mesmo tempo fico de coração partido pela forma como mundo gere a paternidade.

Não consigo entender como há pais que convivem com tranquilidade à distância dos seus filhos, como aceitam que uma mãe tenha seis meses de licença de maternidade e o pai tenha um. “Porque o pai não faz assim tanta falta.”, já ouvi dizer. Ou aceitar que a mãe tome decisões sobre o filho de forma unilateral.

É triste e ridículo aceitar que o pai não participe, não se envolva, não se comprometa. Ou que, mesmo quando tenha essa intenção, vontade e desejo não lhe seja permitido o espaço,  o tempo e as condições para o fazer.

Isto acontece até com os tribunais. Na grande maioria dos casos, até há uns anos atrás, a tutela dos filhos era dada à mãe, sem preocupação ou cuidado sobre a capacidade, desejo, vontade ou direito de cada um dos pares.

O nosso filho

O nascimento do nosso filho foi precipitado em três semanas  com todas as ansiedades e nervos que isso acarreta. E chegados ao hospital ficou claro que o pai não tem importância quase nenhuma no processo do nascimento e do cuidado pós-parto.

O quarto onde estava a minha mulher a preparar-se para dar à luz tinha uma casa de banho que era de uso exclusivo para ela. E se durante todos estes dias que vive no hospital quiser tomar banho? Não pode. E onde pode o pai ir fazer as suas necessidades biológicas? Há uma do outro lado do hospital para visitas.

Ok. Enquanto fui à casa de banho o meu filho nasceu de cesariana de urgência.

E quando cheguei ao quarto, da longa viagem para a casa de banho, não estava nem a minha mulher, nem o meu filho, nem médicos, nem enfermeiros, nem parteira, nem ninguém. E a conversa seguinte é real e aconteceu:

“Onde está a minha mulher e o meu filho?” Pergunto eu na recepção que ficava de frente para o quarto.

“Quem é a sua mulher e o seu filho?” pergunta-me uma enfermeira super bruta.

“Como quem é??? A que estava ainda aqui e agora neste quarto.” Digo já a ficar bastante enervado.

“Mas afinal quem é você???” Pergunta-me a enfermeira  enquanto eu sentia que tinha entrado na Quinta Dimensão.

“Como quem sou eu? Eu sou o pai e o marido da mulher que estava neste quarto. Está  a gozar comigo??!?!?”

“Mas ninguém falou com você???”

E pronto, depois lá perceberam que ninguém me tinha dito nada. Que tinha de ir para a zona das cesarianas. Que o meu filho ia nascer em minutos. E não me explicaram mais nada.

A estúpida da enfermeira estava a dizer-me o que fazer. Mas eu estava doido. Tentei entrar na sala para onde ela apontava. Gritou comigo. Disse que tinha de ficar ali a apontar para um azulejo. E o que a sala não era para eu entrar Eu comecei a andar de um lado para o outro super nervoso. E ela ainda voltou para trás a dizer que não podia andar naquele corredor e que tinha de ficar ali, naquele sítio, naquele azulejo.

Enfim. Tudo correu bem e o bebé e a mãe apareceram bem. Foram só minutos de muita angústia e de falta de cuidado pelo pai.

Além disso, nas quatro noites que estive no hospital dormi sempre numa cadeira que funcionava como espreguiçadeira. Zero conforto. Sempre convidado a sair quando se tinha de fazer algo à minha mulher ou a outra mulher que estivesse no quarto. E se estivesse a dormir às cinco da manhã que importa?!?!? Acorde e saia já lhe disse.

Prioridades

Não consigo perceber bem. Mas é assim. O homem é facultativo e pouco importante. Pela tradição, pela cultura e pela norma.

Mas eu não quero ser assim. Na nossa casa é o nosso filho. Decidimos a meias. E fazemos tudo a meias. Não há tarefas de um e tarefas de outro. Mas neste caso, já que a mãe está presa a dar de mamar o dia inteiro eu tento fazer tudo o resto para proporcionar o máximo bem-estar.

Eu troco fraldas, eu faço comida, eu limpo a casa, eu lavo a roupa, eu passeio os cães. E isso é normal e bom.

É deste preconceito que falo. Tal como é injusto que um homem ganhe mais na mesma posição de uma mulher, é injusto assumir que um homem faz menos ou é menos em relação aos filhos.

Num mundo onde queremos promover o desenvolvimento e a igualdade temos de ser cuidadosos com os preconceitos e os estereótipos.

Eu sou pai. É um direito adquirido a partir do momento em que nasceu o meu filho. E essa parte da paternidade é 50 por cento. Como a da mãe é outro 50. E só do respeito por esse equilíbrio se pode esperar um desenvolvimento saudável das crianças.

Das NOSSAS crianças.

Fui ali morrer, mas já voltei

“Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia.”

Hamlet

Voltei, fui ali morrer, mas já voltei.

Estava bem. E de repente deixei de estar. Num momento estava a caminhar pelo parque, com a E. e com o Pong. E no outro estava entubado e deitado numa maca meio inconsciente e a sentir-me terrivel.

E agora estou bem. E pronto para viver mais e melhor. Assim é a vida, cheia de mudança.

A morte é assim. Assombra-nos, mas transforma-nos, se a deixarmos.

Descobrimos a fragilidade da vida. E a nossa insignificância. E a nossa giganteza.

É só deixar essa morte, que transforma, transformar-nos. E aceitar que o que vem é melhor do que o que foi. É sempre assim. Enquanto há caminho, temos de o caminhar.

Estava vivo. Mas agora estou mais!

Foram preciso muitas lágrimas. Medo. Temor. Solidão.

E descobrir que tudo podia acabar. Chorar por perceber que ainda queria viver tanto e fazer tanto e que podia não chegar lá.

E aceitar isso.

E muito amor de todos os que me rodeiam. E em especial da E. e da Cecília, ao vivo e a cores. E da minha mãe, do meu pai, e de todos os que estavam longe e perto ao mesmo tempo.

Morri. E renasci. Tenho sorte.

E com a minha morte descobri um pouco mais sobre mim. Sobre a minha fé. Sobre o que importa. Sobre o quanto amo as pessoas da minha vida, e em especial a Cecília.

E o quanto ainda tenho para fazer. E o tanto que quero mudar e levar-vos comigo nessa viagem.

A morte não é o fim. É um convite a uma mudança que é inevitável.

Tudo muda. E se queremos o melhor temos de aprender a dançar. Porque a vida é uma canção. E todos podemos escolher. Ficar sentados; bater o pé; ou dançar alegremente.

PS: Há muito tempo disseram-me que para ser um bom terapeuta era necessário olhar de frente para a nossa própria morte. Talvez este seja mais um passo importante nesse processo.

Descoberta da expressão da vontade

Durante muitos anos na minha vida acreditei seriamente que era falta de educação e abuso expressar a minha vontade. Quando me perguntavam o que queria, se preferia isto ou aquilo, se gostava ou não, tinha sempre a tendência para dizer: “tanto faz”, ou “o que acharem melhor”, etc.

E ainda mais, recusava sempre os presentes que me tentavam dar. A minha avó tinha-me ensinado que era falta de educação e que devíamos sempre recusar o que nos oferecem por humildade e modéstia.Continue Reading

Caro Whatsapp

Caro Whatsapp,

Em primeiro lugar queria agradecer-te. Graças a ti mantenho o contacto regular com tantas pessoas que são importantes para mim. Claro que também com alguns pouco importantes.

Sim, já houve outros como tu, que pretendiam o mesmo, e que serviram o mesmo propósito. Mas tu, com a tua cor verde, com a tua estrutura simples, consegues alegrar a vida de tanta gente, e a minha também.Continue Reading

Senhor do meu destino

Uma das grandes perguntas que sempre me tenho feito ao longo da minha vida é: sou eu o dono e senhor da minha vida? Isto quer dizer que sempre me preocupo com a possibilidade do destino e do livre arbítrio.

Durante muito tempo me perguntei se o que me acontecia era fruto de alguns factores aleatórios ou se era algo predestinado. E, mais ainda, se o meu comportamento e reacção já se encontravam predestinados.Continue Reading

Dor que não se vê

escrito a 7 de Abril de 2015

Que dor é esta que desperta em mim? Teimo em não a conhecer.

Não porque não saiba quem é, ou o que é, mas porque prefiro não saber.

Esta dor doí muito. É daquelas dores miúdas. Moínhas danadas. Desconforto permanente. Aquelas que teimamos em ignorar e por ignorar doí mais.

Mas como se esgota ela? Como se acaba com isto?

Não são lágrimas. Que essas despendi já a minha quota parte. Já chorei de pé, deitado. Já chorei a cantar e a andar. Chorei por tudo e por nada. Sozinho e acompanhado. Mas a torrente não dilui a dor.

Nem estupefacientes, que esses só adormecem a ilusão de que a cura está cá fora. E esforcei-me para que resultassem.

Escondi-me nas óbvias e nas ocultas. Já tentei tudo.

Já tentei estar ocupado. Rodear-me de som, de pessoas, de cidade, de TV, do mundo que gira, das guerras e das notícias. Só porque o barulho abafa. E ao abafar parece conter. Mas é tapar o sol com a peneira.

Esta dor teima em reinar. Teima em liderar.

Já tentei o silêncio. Esvaziar esta mente barulhenta de tudo. Encontrar o equilíbrio. Fazer yoga psíquica. Meditar sobre o vazio absoluto. Fazer curas e consultas variadas.

Mas ela teima em insistir em sentir e mostrar que está aqui.

Merda.

Já tentei aspirina, ben-u-ron, gotas e agulhas. Já tentei energias cósmicas, energias místicas (ou míticas). Já tentei massagens, choques, fricções. Já tomei xaropes, já tomei suplementos, já tomei produtos, derivados e coisas.

Mas nada feito.

Comi e recomi. Talvez fosse pela gula. Experimentei bifes, chocolates, algas, peixes cozidos e grelhados, frutas e saladas. Pães de todas as formas e feitios. E se encher o bucho? Pensei convencido. Mas nada. Cheio ou vazio ela continuava lá.

Teremos sido feitos para ser assim? Para ter esta fratura? Esta fratura exposta e virulenta?Seremos nós cheios de tudo e de nada?

Que dor esta teimosa, irritante, puta, vadia. Como um fio contínuo. Um fio que não se corta, nem se descontinua. Um fio permanente, feito de um qualquer material indestrutível. Esse fio pendurado no poço do meu ser guarda um qualquer segredo. Na sua ponta está algo para ser visto. E eu que insisto em não ver.

Acho que é a cegueira que me doí.

por Bernardo Ramirez

O segredo da festa

Sou apaixonado pelas pessoas, por olhar para elas, percebê-las, participar da sua vida, conhecê-las.

Sou enamorado da magia das relações humanas. E talvez por isso adore o meu aniversário. Porque nesse momento junto a oportunidade do convívio, com o amor que recebo de todas as pessoas que me rodeiam. Durante muito tempo o meu dia de anos foi um stress, mas acho que descobri o segredo da festaContinue Reading

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