Dor que não se vê

Dor que não se vê

escrito a 7 de Abril de 2015

Que dor é esta que desperta em mim? Teimo em não a conhecer.

Não porque não saiba quem é, ou o que é, mas porque prefiro não saber.

Esta dor doí muito. É daquelas dores miúdas. Moínhas danadas. Desconforto permanente. Aquelas que teimamos em ignorar e por ignorar doí mais.

Mas como se esgota ela? Como se acaba com isto?

Não são lágrimas. Que essas despendi já a minha quota parte. Já chorei de pé, deitado. Já chorei a cantar e a andar. Chorei por tudo e por nada. Sozinho e acompanhado. Mas a torrente não dilui a dor.

Nem estupefacientes, que esses só adormecem a ilusão de que a cura está cá fora. E esforcei-me para que resultassem.

Escondi-me nas óbvias e nas ocultas. Já tentei tudo.

Já tentei estar ocupado. Rodear-me de som, de pessoas, de cidade, de TV, do mundo que gira, das guerras e das notícias. Só porque o barulho abafa. E ao abafar parece conter. Mas é tapar o sol com a peneira.

Esta dor teima em reinar. Teima em liderar.

Já tentei o silêncio. Esvaziar esta mente barulhenta de tudo. Encontrar o equilíbrio. Fazer yoga psíquica. Meditar sobre o vazio absoluto. Fazer curas e consultas variadas.

Mas ela teima em insistir em sentir e mostrar que está aqui.

Merda.

Já tentei aspirina, ben-u-ron, gotas e agulhas. Já tentei energias cósmicas, energias místicas (ou míticas). Já tentei massagens, choques, fricções. Já tomei xaropes, já tomei suplementos, já tomei produtos, derivados e coisas.

Mas nada feito.

Comi e recomi. Talvez fosse pela gula. Experimentei bifes, chocolates, algas, peixes cozidos e grelhados, frutas e saladas. Pães de todas as formas e feitios. E se encher o bucho? Pensei convencido. Mas nada. Cheio ou vazio ela continuava lá.

Teremos sido feitos para ser assim? Para ter esta fratura? Esta fratura exposta e virulenta?Seremos nós cheios de tudo e de nada?

Que dor esta teimosa, irritante, puta, vadia. Como um fio contínuo. Um fio que não se corta, nem se descontinua. Um fio permanente, feito de um qualquer material indestrutível. Esse fio pendurado no poço do meu ser guarda um qualquer segredo. Na sua ponta está algo para ser visto. E eu que insisto em não ver.

Acho que é a cegueira que me doí.

por Bernardo Ramirez

Comentários

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2 Comments

  • Elvina Maria Reis Rosa

    7 Abril, 2016 at 15:53 Responder

    Que belo texto de desabafo, meu filho. Como te entendo. Porquê? Porque , ao longo da vida, essa dor também me tem atormentado e moído de vez em quando. Às vezes sem eu saber porque aparece. Mas,tanto quanto sei, até os grandes santos a sentem. Chama-se-lhe a ” noite escura”.A Madre Teresa de Calcutá foi um deles.Talvez seja a saudade do também chamado “paraíso perdido”. Não sei. Uma vez , numa fase particularmente difícil, um especialista aconselhou-me a ir gritar na praia. Nunca fui capaz de ir. A minha vontade era atirar com um prato contra uma parede. Também não fui capaz. Esforcei-me por me liberta dessa dor/raiva por outros meios e sempre consegui. Tu também vais conseguir. Porque és um lutador.E um sonhador. E, não estás sozinho. Julgo saber a causa dessa dor agora. Aceita-a como natural. Exactamente porque é natural. ” Aconteceu-me outra vez? Merda! Merda! Merda! Tu, estúpida dor,não me vais vencer! Vai tu à merda! Porque eu quero e vou viver sossegado e em paz comigo. E vou libertar-me de ti!”. Ponto final, parágrafo!

    • Bernardo Ramirez

      7 Abril, 2016 at 15:57 Responder

      Obrigado pela inspiração, mas este texto é antigo e não me sinto assim. Pelo menos hoje

O que tenho a dizer:

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