Perder a Virgindade

Perder a Virgindade

Presumo que, de todos os momentos na vida de uma pessoa, um dos mais inesquecíveis será perder a virgindade. Seja uma experiência boa ou má, na adolescência ou na vida adulta, a perda da virgindade é um momento de transição marcante na vida de cada um. Onde sentimos que terminamos algo e começamos algo completamente novo. Lembro-me bem da minha.

Foi a primeira relação que tive, e foi também a primeira relação séria que tive. Porque era um rapaz sério. Não sério no sentido aborrecido (porque sempre fui muito divertido, e modesto), mas sério no sentido formal, oficial, de uma relação à séria, cheia de regras e normas que ambos achávamos fundamentais.

Era uma relação tão séria que ambos usávamos aliança de namoro (ou noivado, ou outra coisa qualquer). E era sério porque andávamos de mão dada. E porque ela usava colares de pérolas. E porque eu me vestia de camisa e pullover. Enfim, tudo o que se espera de uma relação destinada ao casamento, a filhos e a tudo o mais de tradicional e clássico.

O desafio da nossa primeira vez não era o catolicismo (apesar de nos termos apaixonado num grupo de jovens), o pudor ou a moral (que conhecíamos bem, mas preferíamos ignorar). O desafio era a inexperiência de ambos nas artes do amor sexual. Nunca mais perdi a virgindade (e acho que nunca mais a vou perder) por isso não posso garantir, mas parece-me que se um de nós tivesse conhecimento adicional (experiência técnica ou vivencial) teria sido mais fácil o acto inicial.

Mas enfim, nenhum de nós dominava essa elaborada arte de fazer amor e por isso era tudo por tentativa e erro. Muitas tentativas, e muitos erros. O que isso significou foi que muitas vezes chegámos ao “põe, põe, põe”, mas que sempre terminavam no “tira, tira, tira”. Que muitas vezes eu não conseguia encontrar o lugar. Para mim aquilo era tudo muito misterioso e obscuro. Algo desconhecido e misterioso. E não era muito bom em fazer coisas sem conseguir ver o que estava a fazer.

E andámos nesta dança por algum tempo. A tentar e a falhar. Ou a querer e depois não querer. Bem, em prol da verdade, não era eu que hesitava, mas também sabia que não seria a mim que aconteceria o desconforto (que se ouvia dizer) que acontecia nessas situações. Porque eu estava pronto! Pronto desde sempre… Hoje? Hoje? Hoje?????? Mas não… Não estava a funcionar.

E assim decidiu-se: no dia tal e tal. A minha mãe estaria fora, e  a casa seria toda nossa. Estava decidido. Celebraríamos o nosso amor com a perda da virgindade. E fizemos tudo como deve de ser. Saímos, bebemos o suficiente para descontrair, mas não demais. Socializámos um pouco para disfarçar e não dar demasiada importância ao momento. Preparei a cama e a casa e o ambiente e a música e os refrescos e os petiscos o melhor que pude. E lá fomos nós para casa para consumar o acto.

Lembro-me da seriedade do acto, do planeamento, da expectativa, de tudo o que levou a esse momento. Lembro-me da música que estava a tocar, num rádio com leitor de cassetes, que passava uma música dos Cure (Friday I’m in Love). Lembro-me do sofá velho dos meus avós (verde e amarelo descolorado), que se transformava em sofá-cama onde o fizemos.

E acima de tudo lembro-me da rapidez com que tudo começou e tudo acabou. E pronto. Já não éramos virgens. Já estava. Agora éramos adultos e mulher e homem maduros. E do sem saborismo da primeira vez repetimos vezes e vezes sem conta para melhorar a prática e a eficiência e a competência.

Hoje olho com alegria e uma certa vergonha para esse momento. Tão desajeitado, tão estranho e tão breve. Mas felizmente como a esperança é a última a morrer e como a prática é a mãe da habilidade, isto agora corre melhor.

por Bernardo Ramirez

Comentários

comentários

2 Comments

  • […] Venham descobrir tudo em Perder a Virgindade […]

  • Elvina Maria Reis Rosa

    10 Março, 2016 at 13:08 Responder

    Bernardo, acordaste outra vez inspirado ! Espero que os teus avós, onde quer que estejam nessa outra dimensão de vida que nós desconhecemos mas em que eu acredito, tenham sorrido.Sim, porque o sofá era deles! Adorei.

O que tenho a dizer:

%d bloggers like this: