Ainda

Enquanto tranquilamente espero que me venham resolver um problema técnico, predispus-me a partilhar mais uma reflexão sobre a vida aqui em Luanda convosco.

Uma das curiosidades deste povo é que são poupados no não. Quando ainda estão a terminar de fazer algo, e se lhes perguntamos se já está, respondem tranquilamente: Ainda. Em Portugal, antes de vir, ri-me muito com este preceito e acabadinho de chegar perguntei à J. e ao A. o porquê de dizerem apenas Ainda e não ainda não. A resposta deles foi simples: gostamos de abreviar.

Olhando de fora não sei se essa é a resposta mais completa. Há nesta gente uma magia do presente, de vai se fazer, do de certeza que se vai resolver. Quando dizem Ainda é mais Ainda se está a fazer, um está tudo bem. Aqui não há fatalismo, ao contrário da nossa mui nobre terra lusa. Esta gente é do presente, é do agora. Aceitam o momento e estão nele.

Claro que para nós ocidentais, cheios de ontems e amanhãs dá-se um choque tremendo. Um desajuste temporal que tantas vezes se transforma em raiva, preconceito, revolta ou arrogância. No meu caso é duro de aceitar este ritmo e este Ainda. Daí pedem-me que não me torne angolano, mas confesso que não sei se há outra forma de se viver e sobreviver aqui. Em Angola sê angolano?

Ontem, no meio dos meus ataques de cansaço de estar sempre em cima de tudo o que se passa pensava: se não os podes vencer, junta-te a eles.

Então e porque é que ainda o não fiz? Ainda…

PS: uma hora depois resolveram o meu problema, afinal a palavra-chave era simplesmente 123

7 Responses to Ainda
  1. joana
    Setembro 15, 2009 | 12:51

    em angola, definitivamente, sê angolano.
    só quem não viu é que diz o contrário…

  2. Gonçalo
    Setembro 15, 2009 | 15:09

    É tão simples como a palavra chave ser 123, sê e pensa angolano, porque é aceitar serenamente que o ritmo da solução das coisas da vida, por vezes não é o nosso mas sim um outro.
    Deixa a vida te levar.
    Um Abraço

  3. angeloflight21
    Setembro 15, 2009 | 17:40

    Priminho, volto a repetir que o melhor é deixar fluir… Já deu para ver que o presente aí é vivido como uma dádiva, um verdadeiro “presente” … sem pressas, sem “Aindas”… Quem sabe não terás muito a aprender com essa cultura e maneira de estar na vida bem diferente daquela que estás habituado? Para que é que serve vivermos no ontem? Não adianta, já passou. E para que é que serve vivermos no futuro? Ainda nos sai tudo furado, se pensamos demasiado nele, além de passarmos a viver numa expectativa constante… Eu acredito que sim, que terás muito a (re)aprender nessa terra, senão não estavas aí Agora!

    Beijinhos de Amor e Luz,
    Ritinha

  4. Moralez
    Setembro 15, 2009 | 18:02

    Enquanto tu teclavas no Blog directamente no cliente.
    Nós aqui estavamos a resolver o teu “problema” do 123.
    E agora no final de mais um dia de trabalho, estamos-nos a deliciar com as tuas crónicas Angolanas.

    Continuação de boas férias…

    Para a semana seremos 3 de férias em Angola…

  5. sambinha
    Setembro 17, 2009 | 0:39

    @Moralez hehehe fia-te na virgem e não corras não!
    Boa sorte, é o que vos desejo.

  6. Cintia
    Setembro 18, 2009 | 9:57

    …Exactamente o que senti nas minhas férias em Marrakech e no Deserto no contacto com as pessoas…viver o hoje e o agora porque o amanhã é depois.

  7. Helder Rosa
    Setembro 18, 2009 | 18:28

    Caro Ramirez

    Excelente a tua descrição do modo de pensar das gentes do sul. Imagino que algures um Islandês deslocado em Lisboa numa missão idêntica de sacrificio profissional esteja a escrever no seu blog que este povo português é muito engraçado…

    Começa a trabalhar às 10:30 porque esteve a tratar de assuntos pessoais e quando chega a primeira coisa que vai ver é o mail para despachar as anedotas.
    Pelo meio-dia coloca um ar atarefado até às 13:00, hora em que sai para almoçar. Só volta às 14:30, naturalmente, e a primeira coisa que faz é ver as respostas aos mails que enviou de manhã e claro responder devidamente a tudo.
    Pelas 16:00 trabalha mais um bocadito, com pausas para café, cigarrinho (este sócrates é um fascista que nos obriga a fumar na rua) e claro lanchar, que o cozido à portuguesa do almoço já foi demoído.
    Ás 18:00 rodeia-se de papelada e quando o chefe está a sair, comenta “Isto tá mau, ainda não consegui fazer aquilo…” e depois do chefe sair, inicia a ronda de comentários “inteligentes” às noticias do dia no Record, A Bola e toda a espécie de Blogs de amigos, conhecidos e amigos de amigos de conhecidos, dizendo mal do governo, dos emigrantes, do país, do chefe, da sogra e do treinador do clube.

Leave a Reply

Wanting to leave an <em>phasis on your comment?

Trackback URL http://www.bernardoramirez.com/comunicacao/ainda/trackback/