Canto até …
21 de Outubro de 2009 | por Bernardo Ramirez |Canto bem alto para que a voz não me doa. Nunca foi o som que me incomodou. Foram os silêncios, os enormes, imutáveis, misteriosos e constrangedores silêncios.
Canto enquanto caminho, canto enquanto penso, canto até em sítios mais tradicionais com o o chuveiro ou no carro.
Canto tão alto quanto posso e quanto me deixam. Canto até ficar sem poder cantar, ou até alguém me dizer qualquer comentário que me magoa.
Sonho em cantar e em ser cantor. Em estar num qualquer restaurante brasileiro de guitarra em punho a soltar Chicos ou Reginas ou Seu Jorges ou Pexinguinhas aos clientes que teimam em me ignorar.
Na realidade se tivesse um palco em casa, e soubesse tocar algum instrumento que me valha, já seria o melhor. Cantar para mim. Até podia colocar umas fotos numas cadeiras de mim próprio a sorrir de alegria de me ouvir cantar.
Julgo que possa ser um bicho que apanhei na infância, ou alguma praga secreta para a qual não há cura visível. Aliás, se calhar mãe és tu a culpada, todas aquelas viajens de carro ao som de super êxitos como Grândola Vila Morena, ou Burro Deu Um Coice no Telhado.
Canto por que sim, porque quem canta seus males espanta, porque quem canta por gosto não cansa, e porque mais vale cantar na mão do que estar em silêncio a voar (por acaso esta última não sei se é bem verdade).
Canto tudo. Canto tanto. Canto o que sei. Tudo para mim tem um som, uma música, um conjunto indefinido e confuso de sons e palavras, e que tantas vezes, teimam em insistir comigo, nada tem que ver com o original (mas afinal o que é isso do original?).
Canto tanto que por vezes ouço músicas novas que juro já ter ouvido ou cantado. Mas no meio desta loucura musical nem procuro entender a razão. Canto tanto que posso ouvir mil vezes a mesma canção no repeat só porque me diz algo, e no dia seguinte cantá-la louco com letras por mim inventadas, ou acordes, ou desacordes, que nunca estiverem lá´.
Não, não sou musicólogo ou fonólogo ou melómano ou outra coisa qualquer complicada. Não sei nomes de músicas, nem de cantores, nem de albuns, nem de que década é a música, nem quem era o marido ou a mulher a quem escreveram isto ou aquilo.
Canto, sou profissionalmente um cantor amador. E amo cantar como posso e sei. Canto até que a voz me doa.


2 Comentários a “Canto até …”
Por Margarida a 22 de Out, 2009 | Responder
“Quem canta seus males espanta.,
“Cantar..Cantar ..Cantar, sorrir que a vida é Bela!!…” Os nossos pensamentos péssimistas e de escassez, é que dão cabo dela!
“Canta, canta amigo canta, vem cantar a nossa canção, tu sózinho não és nada, juntos temos o MUNDO na mão”…Já que me chamas amigo prova-me lá que o és, vem para a ceifa comigo, na terra sujar os pés!…” Parabéns pelo teu CANTO e Obrigada por isso. Assim, não me sinto tão tontinha.:)
Por elvina rosa a 23 de Out, 2009 | Responder
Belos tempos, Bernardo. Realmente cantar era uma alegria. O reportório, esse, era o que se podia arranjar…