É tão bom saber que sentem a falta do que escrevo. Como sinto a falta de escrever. Mas nas últimas duas semanas ando a sofrer de um dilema que não é novo para mim. Entre as trinta tarefas que tenho para fazer, e o estado de espírito oscilante, sinto que há coisas sobre as quais não posso escrever, mesmo quando são essas mesmas coisas que me consomem o espírito.
Já muitas vezes me questionaram sobre a falta de intimidade do que escrevo. A natureza pública e por vezes até demasiado transparente. Mas quem me conhece também conhece a minha natureza transparente. Boa ou má é assim mesmo que sou.Falo de tudo, ou de quase tudo. Tantas vezes com excessiva inocência ou com um olhar demasiado romântico.
Na realidade o limite da minha escrita é muitas vezes definido mais pelo que sinto tocar nos outros e na sua intimidade do que por mim mesmo. Ao longo do tempo já me defrontei com o desagrado de quem se vê retratado ou envolvido. E tenho de respeitar esses limites.
Lembro-me muitas vezes do livro “Amor Feliz” do David Mourão Ferreira, que já falei aqui http://bomtemponocanal.blogspot.com/2006/04/um-amor-feliz-no-tem-histria.html. Para mim aquele livro é quase uma biografia semi ficcionada. Uma forma de espiar os proprios sentimentos, as dores, os fracassos, tantos anos depois, até com um olhar mais generoso.
“Só nos arrependemos do que não fazemos”. “Ou mais vale pedir desculpa, do que pedir permissão.” Tenho vivido a vida assim. Mas confesso que não consigo escrever para saber que um dia muito mais tarde poderei publicar. Gosto do imediato. De sentir, pensar, escrever, publicar e ver o mundo reagir ao que digo e escrevo.
A minha estadia aqui, nas duas últimas semanas foi com dois colegas de Portugal, que apesar de não ficarem aqui nas nossas instalações, foram uma excelente companhia e um suporte valioso.
Realmente a emigrabilidade faz-nos carentes de coisas portuguesas e de Portugal: comida, música, palavras, pessoas, tudo o que nos traga de volta a casa, mesmo que por instantes. Recordo ás vezes, a maldade do meu humor, orientado para os “emigras”, para o seu desejo de voltar, pelas suas características tão únicas. Mas o que vou descobrindo é que realmente, este mundo é só e exclusivamente problemas de comunicação, ou melhor talvez de comunicação e expressão.
Aqui, neste país tão diferente, o que digo e o que ouço, e o que quero dize e o que entendo são coisas completamente diferentes. Claro que em Portugal as coisas não eram assim tão diferentes. Nunca sabemos como nos percebem e entendem. Aliás há muito que defini um limite ao me fazer entender. Porque ás vezes não é mesmo possível. Mas aqui é mais. Mais de tudo. Mais difícil perceber. E tantas vezes ser percebido. Falamos a mesma língua, usamos as mesmas partes do corpo, mas tantas vezes não consigo entender o que me dizem e sei que não me entendem.
Aliás os mais corajosos ainda dizem: “Não entendi.” Mas tantos outros, presumo eu, ficam no caminho sem nos comunicarmos. Há fronteiras invisíveis nas palavras, há fronteiras invisíveis que nos distinguem, que nos afastam e aproximam. Aqui há tanta coisa banal que aí não faria sentido, e o inverso também.
E por isso é doloroso para mim, homem de palavra, homem de comunicação, homem do toque, homem do sentimento e da emoção não conseguir entender, e não ser entendido. É uma licção lenta a da descoberta do outro e por vezes falta-me a paciência.
All good things come to those who wait…
Também eu já provei, em tempos, esse fruto amargo da condição “emigra” e como sei o quão difícil é.
Coragem
CR
Que prazer voltar a ler-te! Obrigada.Ainda bem que “escolheste” escrever.Tudo de bom nos caminhos por onde andas. mãe
Continua a escrever que estamos deste lado à escuta
Partilho do mesmo sentimento da Sr. D. Elvina Rosa, muito provavelmente uma mãe orgulhosa do que o filho escreve e muitas vezes sedenta de novidades. Fico muito feliz que esta ida para Angola, tenha trazido aos teus “seguidores” de novo a escrita maravilhosa e única de Bernardo Ramirez. Hoje, tirei algum tempo para estar contigo. Tenho saudades, amigo.
Beijocas