Esta cidade que vos mostro

15 de Outubro de 2009 | por Bernardo Ramirez |

Hoje acordei cedo, aliás aqui acordo sempre cedo, mas gosto dessa sensação. De me encontrar comigo logo pela manhã. Olhar pela janela. ver o sol, ou o céu, ou a chuva e saber que ainda há um dia para viver. Sempre fui uma pessoa das manhãs.

O meu quarto é simples, é quase uma mini casa metida numa divisão. Tenho a minha cama. É um beliche que apenas tive de partilhar durante os meus primeiros dias por cá. Depois ficou todo para mim. Até pude escolher o colchão mais duro, mesmo como eu gosto. Deixei o mole de molas para a sala da TV. Que lindinho, já consegui arrumar tudo por aqui por nomes e lugares.
De volta ao quarto, a minha cama tem sempre os mesmos lençois e três almofadas. Isso porque também é o meu sofá, e porque o calor aqui garante que se lavarmos a roupa cedo, de tarde já a temos limpa para usar de novo. Atrás da cama um espaço vazio e depois, encostado à parede dois móveis: um armário onde tenho a minha roupa. Por cima as malas vazias. E ao lado uma cómoda que divide os meus bens pessoais com alguns bens alimentares. Não temos dispensa nem armário para arrumar essas coisas e a parte de cima do frigorífico não é suficiente.
Ao lado dos móveis há um pequeno espaço que tem uma mini-cozinha. Um fogão a gás, que nunca quis ligar, um lavalouças. O essencial para se viver tranquilo. Depois uma casa de banho, pequena, lavatório, sanita, bidé e chuveiro. Tudo em construção chinesa com limitações. Isso significa: paredes mal pintadas, acabamentos fracos, tampas de lavatório que não vedam, espelho instável e mal montado. Por cima do lavatório um esquentador eléctrico que serve a minha casa de banho e da casa ao lado.
Dentro do chuveiro, as paredes de vidro não encostam, e o chão tem algo de manchas que nunca sairam e que não sei definir.
Mas nesta simplicidade, meio tosca, é o meu espaço, e quem me conhece sabe como amo o meu espaço. Seja ele qual for. É o meu refúgio, a minha caverna, o meu santuário, o meu altar, a minha nave cósmica que me leva onde quero. Preciso muito do meu espaço e do meu tempo.
Mas hoje acordei para vos mostrar a minha cidade, ou a minha cidade emprestada e por isso visto-me e saiu pela porta. Quero que vejam onde vivo.
Quando abro o meu portão tenho uma estrada. Na realidade é uma rua. Terra batida, pedras e buracos. A areia é laranja, mas aqui o laranja parece ser a cor dominante da terra. Do lado direito consigo ver o fim da rua. Cruza com outra pavimentada.É uma rua larga e de cimento. Com separador central. Nas esquinas milhares de mulheres vendedoras de todas as cores e tamanhos, como a sua roupa. Chamam-lhes Zungueiras, ou Zungueiros porque também há homens a vender. Roupas, plásticos, comida de tantos cheiros e formatos, equipamento eléctrico, móveis, joías, livros, canetas, tudo o que possam imaginar. Sentadas, de pé, andam sempre numa dança com a polícia. Ela vem para aqui, elas vão para ali, ela vai para ali, elas vêm para aqui.
Quase na esquina a estrada da minha rua transformasse num misto de buracos com esgoto e água suja. Eles caminham por ela como se nada fosse, a mim ainda me faz confusão. Numa parede vazia há um lixo ao ar livre. Juntam ali toda a porcaria que sobra. E depois, de quando em quando, aparecem uns senhores para limpar e fica tudo vazio de novo, até voltar a encher.
No meio da confusão de vendedoras e de clientes uma confusão de carros e motas. São um mar…
Do outro lado do meu portão só se vê a rua. Os tampos dos esgotos abertos. Dizem que quando chove vem tudo ao de cima. Carros estacionados por todo o lado e casas, e becos, e pequenas lojas. Aqui os carros são todos grandes: jipes, todo-o-terreno, e milhares de Toyotas. Julgo que grande parte dos Toyotas do mundo estão aqui. E não deve ser sem razão. O carro que usamos também é um Toyota.
Se fosse noite escura não sairia por aí, mas como é dia claro não há problema. Até hoje nunca me senti ameaçado.
Caminho tranquilo. Ao meu lado passam novos e velhos. Bem arranjados e pessoas quase sem nada. E muitas crianças, muitas. Sem pais, sem irmãos. Pequenas. Seis anos, cinco, quatro, três. No nosso país isto já não se vê. É estranho, há muita coisa estranha por aqui, aos meus olhos estranha.
Vou caminhando pela rua. As casas variam muito. De edifícios com aspecto bem construido acabado e limpo, até casebres semi destruídos, tristes e com ar pobre. Mas todos com portões e muros altos. Mas o que absolutamente distingue as casas? São os seguranças. De tantas em tantas casas há um segurança. Porque têm mais dinheiro, ou porque têm mais medo.
Aqui nesta cidade, uma das coisas que muda em nós é que não podemos andar distraídos. Buracos, carros, motas e pessoas. É quase como um sexto sentido, ou sentido aranha. Temos de andar sempre alerta. Semper Fi.
Mas vou caminhando. Nas esquinas há sempre algumas zungueiras, a vender coisas que desconheço ou que vou conhecendo. Ou querendo trocar dólares, ou a vender saldos para o telemóvel.
Do outro lado da rua uma escola primária. As crianças a brincar no pátio sem ninguém as vigiar. Nas janelas nada de vidros. Se andam na rua para que precisam que as vigiem no recreio? E para quê vidros nas janelas, perguntava-me o meu motorista. Faz muito calor cá. (È tão fácil medir os outros com a nossa régua não é?)
Alguns vendedores ainda te chamam. Metem conversa. Não podes parar o olhar no que estão a vender. Depois já não te largam. Só 50, vá só 40, só 30. Tome lá de borla… (Isto já sou eu a exagerar).
Mas é assim. Modo atento distraído.
Prédios altos, velhos, alguns novos. Muitos deles sem verem pintura desde que nasceram. Muitas grades e muitos portões também nos apartamentos. Pensava que era por segurança. Mas alguém me disse que é para os idosos não fugirem ou saltarem das varandas (?!?!?!)
E assim vou caminhando. Pessoas novas, pessoas velhas. Carros novos, carros velhos. Prédio novos, prédios velhos. Tudo a mudar. É um país e uma gente a crescer…
Que sorte a oportunidade de os conhecer assim…
Esta é a minha cidade de hoje, esta é a cidade que vos ofereço. Simplesmente a minha. Para vocês.
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  1. 2 Comentários a “Esta cidade que vos mostro”

  2. Por Ana Filipa Oliveira a 16 de Out, 2009 | Responder

    Obrigada pela partilha. Tenho uma “invejinha boa” da tua escrita. Descreves os sentimentos, as pessoas, os espaços, as atitudes… de uma maneira sublime e cativante. Continua, amigo. Eu vou treinando (esse poder de descrição… lololl)

  3. Por Ana a 12 de Fev, 2010 | Responder

    Subscrevo o que foi dito acima. Bravo!

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