Falar Muito

Ontem, num dos intervalos da formação que ando a dar numa das faculdades aqui em Luanda, uma senhora dizia-me que falava imenso, aliás ela disse: O Bernardo fala imenso, isso é óptimo. É tão bom quando as pessoas falam imenso. Ri-me por fora, mas também me ri por dentro.

Há uns tempos atrás, alguém de quem gosto imenso disse-me o mesmo de forma diferente. Que falava imenso. Que falava muito, ou outra expressão qualquer que queria dizer o mesmo.

Verdade tenho 35 anos e que tenha idade para me conhecer melhor, mas a verdade é que nunca tinha pensado nisso, que falava imenso. Não tinha ainda reparado na minha vontade e forma constante de expressar tudo e mais alguma coisa. Na altura, até pensei que fosse engano, que ela estivesse a ver mal. Afinal, tinha passado dois anos com uma pessoa que falava tanto, que me ocupava tanto espaço, que tinha acabado por escolher o silêncio.

Nesse momento, fui percebendo que se calhar falar imenso era a minha forma de me libertar e expurgar os dois anos de silêncio. Que o que tinha acumulado em mim, de silêncios e palavras por dizer, saí agora feito cascata de sons. Ou então, apenas ia descobrindo que sempre fora assim.

Mas agora falo imenso, quando me deixam claro. O meu motorista é especialista nisso, como gosta mais de estar calado do que de falar (sensato o rapaz) acabo por ocupar grande parte do som do carro, tanto e tanto que por vezes até fico cansado de tanto falar. Bolas, onde raio vou eu buscar tanto para dizer?

No meio deste “barulho” meu tenho apreciado muito a companhia dos meus alunos, companheiros e colegas. É um prazer ir descobrindo e ir aprendendo a relacionar-me com eles. Chamam-me de tudo: professor, engenheiro, Bernardo, Bê e até outras coisas que nem sei bem escrever mas que a que mais me delicia é MaBernas (ou algo assim), que simplesmente e carinhosamente é a versão resumida de meu irmão Bernardo. Aqui somos mesmo todos família.

Falo muito sim, falo porque tenho o que dizer, ou apenas porque sou assim. Falo porque gosto, porque preciso e porque me apetece. É se calhar uma febre secreta qualquer.

Há muitos anos atrás, a minha mãe dizia-me: Sabes como sabia quando a tua febre estava muito alta? Quando começavas a falar sem parar. Aí sabia sempre que estavas com uma febre altíssima.

Se calhar é assim que me sinto. Febril….

2 Responses to Falar Muito
  1. angeloflight21
    Outubro 11, 2009 | 9:28

    E que a tua escrita por aqui seja proporcional à tua fala… =), porque, não podendo ouvir-te, leio-te.
    Espero que tenhas recebido os nossos beijinhos via alguém que te é especial…
    Bom domingo primo e óptimo início de semana.
    Beijinhos de Amor e Luz,
    Ritinha

  2. Ana Filipa Oliveira
    Outubro 13, 2009 | 11:49

    Adoro as tuas crónicas, Mangolê. Continua. E é mesmo verdade: falas pelos cotovelos. Eu acho que sofro de mal semelhante, quando me sinto à-vontade com as pessoas. Na Primária, a professora chamava-me Gralha e eu pensava “O que é que eu falar muito tem a ver com aquilo onde a minha mãe grelha o peixe!?”, mas já descobri que Gralha e Grelha não é a mesma coisa. E continuo a falhar como uma Gralha… não se vê pela extensão do que era suposto ser apenas e só um comentário?!

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