Querido irmão mais velho,
Não me recordo com exactidão o primeiro dia em que entrei em tua casa. Sei que ia vestido de azul, tinha um malmequer branco no peito e ainda não tinha opinião. Nessa altura foram os meus pais que me levaram a tua casa.
Sei porque vi as fotos. Nesse dia foi uma grande alegria. E de alguma forma passei a pertencer a uma comunidade da qual os meus pais e tu fazem parte. E eu passei a fazer.
A partir dessa altura passei a ir visitar-te quase todas as semanas, umas vezes com a minha mãe, quase sempre, outras sozinho, com a minha avó, ou até com amigos.
Com o passar do tempo fui te conhecendo melhor, fui aprendendo mais sobre ti, e tu foste-me ensinando mais sobre mim. Tens aquela sabedoria sem tempo, e incrivelmente tinhas sempre tempo para mim.
Fui caminhando contigo. Eu e os meus amigos, que eram sempre tão bem recebidos na tua casa. Aliás sempre admirei a facilidade com que recebias toda a gente em tua casa.
Ensinaste-me muita coisa, e de uma forma muito profunda, acabaste por te tornar para mim um guia, uma referência. Disseste-me para amar, disseste-me para oferecer a outra face, para ser generoso, para fazer o bem, para respeitar o próximo e acima de tudo a mim mesmo. Ensinaste-me a não mentir e a ser melhor.
Por tua causa conheci pessoas fantásticas e criei muitos laços de amor com muitas pessoas.
Quando vim para Lisboa deixei de te ir ver tanto. Por tantas razões fiquei perdido no meu caminho e nas minhas prioridades. Não tinha vontade de ir a tua casa, e a celebração que toda a gente fazia lá cansava-me.
Durante muitos anos isso foi fonte de tristeza da minha mãe, afinal a mãe gosta sempre de ver os irmãos juntos.
Mas com o passar do tempo descobri uma das coisas mais fantásticas do mundo. Que afinal a tua casa podia ser o meu ser, e que podia levar-te comigo sempre para onde fosse.
Desde essa altura, apesar dos protestos dos que me disseram que não era a mesma coisa, levei-te comigo sempre. Continuámos a falar, a partilhar segredos, a olhar com a atenção para o mundo e continuaste a ensinar-me muita coisa.
Desde que cheguei a Angola já pensei muitas vezes em ti, inclusivé apeteceu-me ir a tua casa. E passei por lá, mas a porta estava sempre fechada. A minha mãe claro ficou toda contente e disse-me para insistir. Mas não sou já de insistir. A empregada lá de casa também me disse para ir. Que também era nossa irmã e que te conhecia bem. Mas não sabia a que horas estarias em casa. Acabou por não acontecer.
Hoje, aqui no Lubango, decidi caminhar, caminhar sem sentido, sem tempo… Estava triste e cansado. Hoje acordei às 4 da manhã com gritos na rua. Deviam estar a lutar à séria com os gritos todos. E senti-me cansado. Apeteceu-me voltar para casa, para Portugal. Há dias assim. Mas decidi ir caminhar. Primeiro a um “centro comercial” às escuras e com grilos. Mas depois na rua mesmo, a ver as pessoas e os edifícios e tudo. E caminhei por muito tempo. Uma hora ou talvez mais. E ao longe vi a tua casa. Ao princípio nem liguei muito, mas depois senti que se calhar era mesmo o que estava a precisar e fui até lá. Curiosamente estava aberta e tu convidaste-me a entrar.![25042010192[1]](http://www.bernardoramirez.com/wp-content/uploads/2010/04/250420101921-300x225.jpg)
Estava lá um dos nossos irmãos a falar. E eu ouvi. Disse-me que temos em nós a alegria de saber que temos um pastor, e que nada nos faltará se confiarmos nele. E que com alegria temos de partilhar a tua palavra. Afinal tu és o mais velho. Ouvi e lembrei-me que já faço isso, que tento fazer isso todos os dias. Ele também me disse que não importa se são 100 ou 1 os que nos ouvem, que a tua palavra tem valor por ela e não pela quantidade de pessoas que a ouve. E eu concordei no coração.
Sou um dos teus irmãos, mas não esqueço o sacrifício que fizeste por nós e a lição que tens em ti e que nos ofereces todos os dias. Não sou um grande fã de celebrações organizadas ou de compromissos rígidos. Mas tu és o meu irmão mais velho. E levo-te sempre no coração, a ti e à tua palavra.
Alegria e amor, alegria e amor, alegria e amor… Simples este mistério da vida…
Obrigada, Bernardo!
Estou muito de acordo contigo! E há tantas maneiras de visitar o nosso irmão!…
Cada pessoa tem em Si mesmo um Santuário.
Há um momento certo e perfeito para cada coisa!
Cada vez que “te” leio, tens o dom de mexer sempre com qualquer coisa que exsite cá dentro, também eu hoje visitei este nosso irmão mais velho…
Sempre que me sinto um pouco perdida dentro de mim própria…procuro aconchego, respostas às minhas perguntas é talvez nesse ponto que nos cruzamos, nesta eterna busca por respostas!
Obrigado Bernardo,
Bjinhos
Rita
Obrigado pelas palavras Rita, é bom saber acima de tudo que a minha escrita mexe contigo. E que te dá prazer.
Olá BR
Fé Esperança Humildade Caridade
Adorei
Aquele Abraço de LUZ
Meu filho,obrigada por esta extraordinária partiha! Chorei. Mas foi de alegria que chorei. E tu sabes porquê. E o teu irmão mais velho, como Lhe chamaste,talvez tenha ficado com os olhos mais brilhantes ao ver que O foste visitar depois de tanto tempo. Que enorme abraço te deve ter dado!
Chamaste-lhe irmão mais velho e ele deve ter gostado imenso. Eu interpelo-o de outra forma e nunca deixo de lhe fazer sentir que lhe estou imensamente grata pela sua presença constante.
Benvindo ao clube.
Fica bem.
Filho querido. Só agora posso conectar-me contigo por esta via, daí o atraso.Li as tuas crónicas e apreciei a tua escrita sobre a velhinha e as duas crianças. Uns no princ´pio da linha da vida e outra está no fim. Tu estás no meio, o que te permite olhar para uns com saudade, e para a outra com respeito pela vida já vivida. Quanto a esta visita ao teu irmão mais velho, tocou-me profundamente. Sinto o mesmo que tu no convívio com esse irmão.
Beijo grande.
Lindo!
Faz-me lembrar, de alguma maneira, O Neal Donald Walsch, na sua trilogia de “Conversas com Deus”…Foi mais ou menos assim que tudo começou.
Por vezes quando parece que já não há mais chão e que tudo está perdido e no fim da linha…Há uma voz que vem do nosso centro e grita:”Chega de lamentações! Sai do buraco escuro e voa! Aqui ´há sol, água, ar e espaço para respirares e seres TU PRÓPRIO, com toda a tua verdade, o teu sentir, as tuas emoções! Este lugar é teu,não pode ser de mais ninguém; merece-lo!”. Para mim essa, é a voz do Pai/Mãe Maiores, os primeiros, da minha ancestralidade; donde eu venho e para onde me dirijo: o meu coração espiritual (o meu centro, a minha casa) manifestado no coração físico. O melhor de mim: o AMOR. Nada mais existe para além do Amor. Mesmo aquilo a que chamamos negativo, são expressões do mesmo Amor; é mais do mesmo. São as sombras da luz do amor.
Um abraço, querido Bernardo e obrigada!
Margarida.