Partida – Chegada

Acabadinho de chegar

Acabadinho de chegar

Não sei por onde começar. Mas os caminhos são mesmo assim…

Desde que saí de Lisboa que a experiência do que me tem acontecido é inexplicável, incomensurável e incompreensível. Tudo o que aqui possa mencionar, explicar ou descrever é limitado comparado com a realidade que tenho vindo a descobrir em Angola. Mas como todas as boas histórias não há melhor que começar pelo princípio.

Dia 6 de Agosto fomos pedir os vistos ao Consulado de Angola em Lisboa (já parece ter sido há uma vida atrás). Fomos informados que demoraria uma semana, o que dava à justa para a nossa partida dia 16 de Agosto. Uma semana depois nem o visto, nem prazo para o receber. Adiamos a viagem três vezes. Claro que cada vez tivemos de pagar à companhia aérea uma sobretaxa por bilhete. E éramos três a viajar.

A viagem acabou por ficar marcada para dia 20 de Agosto. Na véspera fui ao Consulado buscar o meu visto e o da minha colega. O do meu chefe tinha já chegado via super especial. O meu estava pronto, o da minha colega não. E o voo era no dia seguinte ás 12:30 da manhã.

A minha colega vinha do Porto nessa madrugada ainda sem saber se poderia ou não embarcar rumo a Luanda. Fui para o Consulado na manhã do voo às 9 da manhã. Pus em marcha todas as possíveis forças de influência no Consulado. Choradinhos, reclamações, cunhas, gasosas e tudo o mais. Às 10:45 tinha o visto da minha colega em minha posse. Fui a voar baixinho para o aeroporto. Tinha feito o check-in online e dirigimos-nos logo para deixar as malas.

Mas quando lá chegámos já não podiam aceitar malas para o voo para Luanda. Nós podíamos ir mas as malas não. Obrigado, mas não obrigado. Mudámos pela quarta vez o voo para a noite e fomos fazer tempo. Sem saber já estávamos a movermos-nos ao ritmo de Luanda.

Nessa noite embarcámos no voo ás 22:10 como marcado, com malas e tudo pronto. O avião era do século passado, mas alguém dizia: este avião ainda está em uso porque tem 32 lugares de primeira classe, contra os 25 dos mais modernos. E os voos para Luanda e Maputo vão sempre cheios na primeira classe. Em contrapartida o banco da minha colega estava desmontado e ela ia escorregando para a frente.

Tínhamos jantado tranquilamente no aeroporto. Mas depois de uma hora de viagem, e de já estar a dormir ferrado (na noite anterior não tinha dormido nada), decidi aceitar a ceia que me ofereciam. E que erro! Em dez minutos comecei a sentir-me muito mal. Muito mal mesmo.

Resumo para poupar os mais sensíveis: Estive cerca de 3 horas a vomitar de 15 em 15 minutos. Quase desmaiei. Dores horríveis. Não podia estar sentado. Estava em estado quase de choque. E a caminho de Luanda!!!

Passadas essas horas de agonia o meu corpo começou a acalmar. Sem nada para deitar fora comecei a conseguir estar sentado e dormir um pouco. Eram quase quatro da manhã.

Às cinco serviam o pequeno almoço. Não lhe toquei. Aterrámos e tudo correu mais ou menos normalmente. Ou seja, muito melhor do que o que me tinham feito acreditar que acontecia no aeroporto.

(Hoje acho que as experiências de cada um são realmente fenómenos isolados e únicos, ouvir conselhos e considerações de outros não nos ajuda a construir nem a preparar a realidade. Apenas a criar um quadro de expectativas e de referências.)

Fomos calmamente a caminho da nossa casa. Eram seis e pouco da manhã. Já sabia que ia ficar a viver no Bairro de São Paulo, mas não sabia o que isso queria dizer. E acho que ainda não sei.

Não vos consigo explicar o que senti quando cheguei à casa. Já tinha visto imagens e fotos. Mas a realidade não é comparável. Além disso para cúmulo de tudo não havia água, nem luz e os nossos quartos estavam sujos e desabitados. (para os mais tecnicistas há água a balde, que vem de um depósito que todas as casas têm e que não consigo perceber porque não é sobre elevado para se poder ter águas, mesmo quando não há luz)

É quase como se as palavras tivessem valor e significado diferente cá. Como explicar isto com rigor? Dizer: casa, segurança, supermercado, loja ou rua corresponde a uma realidade que de imediato construímos na nossa cabeça. Mas aqui ou para aqui essas palavras têm um valor muito diferente, uma dimensão que é incomparável.

Não vos quero cansar em demasiado com as minhas reflexões. Não vos contei um décimo. Mas deixo-vos com o que melhor consigo resumir da experiência humana da minha estadia.

Tudo são expectativas. Tudo o que são expectativas são imagens. Vais viver na miséria; não podes andar na rua; eles insultam-te; é tudo caro… são exemplos de expectativas que ganham forma em nós. Se transformam em imagens. Quando chegas à realidade do que criaste expectativas existe um desajuste, para melhor ou para pior. Neste caso um desajuste para outro quadro de referência. E esse outro quadro de referências exige de ti uma ginástica mental e emocional gigante. Tens de destruir tudo, desmontar tudo e aceitar começar do zero. Procurar no vazio algo de bom, de útil e de real para te manteres vivo e presente no aqui. Mas é duro, é difícil. E por isso: “90% dos portugueses que vieram para a minha empresa – dizia-me um angolano – vão se embora na primeira semana. Ou por falta de água, ou de luz ou por saudades.” Para mim é tudo pelas expectativas.

Nota 1: Desde que cheguei estive sem água canalizada e sem luz até Domingo às 21 horas.

Nota 2: Um dia, numa formação de Constelações, perguntei a um professor: Porque escolho sempre o difícil. Ao que ele respondeu: Porque para ti o difícil é fácil. (In your face Bernardo!)

One Response to Partida – Chegada
  1. Raquel
    Agosto 25, 2009 | 18:30

    Acho que eu também “sofro” disso, o difícil pra mim é fácil! Não tem como mudar isso, não?

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