Desde que voltei não tenho andado com muita vontade e disponibilidade para escrever. Os que me conhecem melhor já sabem que a minha escrita, apaixonada e sincera, é como eu, de ondas. E por isso o silêncio, que faz parte dos meus ritmos, surge como o som. Hoje, no entanto, quis escrever-vos sobre a Gripe A e a Portugalidade. E por isso aqui vai para pensar um pouco sobre o que se é e o que não se é.
De quinta a domingo estive, com o meu amor, em Barcelona. Cidade que já tinha tido a oportunidade de conhecer, há uns anos atrás. Cheia de encantos, metropolitana, viva, dinâmica e brilhante. É uma cidade que vive, que ferve, onde há sempre pessoas, milhares de pessoas por todo o lado. E motas, e lojas e bicicletas, e arte, e cultura, e arquitectura e gente e gente e vida.
Mas nas nossas caminhadas, o que mais me surpreendeu na cidade foi o que não vi. No meio dos 7 milhões, pelo menos os que vi, não vi menção nenhuma à Gripe A. Nem um cartaz, nem um anúncio, mas mais ainda, nem um produto de limpeza, nem um gel mata micróbios assassinos e psicopatas. Aqui em Portugal, faz-se de tudo sobre a Gripe A. Vendem-se máscaras, e gel, e Tamiflu, e fica toda a gente em casa. E não se pode espirrar e cartazes por todo o lado e até livros para crianças sobre a Gripe A.
Mas, numa das cidades mais cosmopolitas da Europa ocidental não se fala, não se vê, não se vive a Gripe A.
E porquê a diferença? Será que os espanhóis são pouco conscientes, preocupados ou higiénicos? Comecei a reflectir sobre essa questão, sobre a forma como aqui em Portugal levamos tudo ao extremo. E principalmente como queremos tanto ser um povo civilizado. Iguais ao que achamos ser a Inglaterra, os EUA ou outro qualquer país que achamos importante.
Mas o mais cómico deste desejo ardente, que anda sempre de par em passo com a nostalgia de algo que achamos que não somos e devíamos ser, é que na realidade não sabemos bem o que é ser desenvolvido ou civilizado. Nem queremos saber. Vivemos um sonho do que isso deverá ser e por isso fazemos o que achamos todos os países desenvolvidos fazem. E depois aparece o ridículo, por estarmos tão longe do real.
De num país com características tão bonitas, passarmos tanto tempo a tentar ser o que não somos. “Nós não queremos ser um povo desenvolvido, queremos ser como achamos que é um povo desenvolvido.”
E esse é o nosso limite, e a nossa prisão, não queremos a realidade, nem nossa, nem a de outro qualquer referente. Queremos ser o que sonhamos ser a realidade dos outros…
Curioso esta nossa portugalidade. Aliás se calhar a portugalidade é que está com gripe A.