Pular a cerca

Hoje tive uma conversa muito curiosa com a minha querida amiga JC. Como sempre é maravilhoso falar com pessoas que, de fora, conseguem nos ajudar a perceber bem o que se passa por dentro. Na nossa conversa estávamos a falar das minhas dificuldades de relacionamento aqui em Angola e a tentar perceber o porquê.

Claramente o primeiro problema é uma questão de limites, que parece ser algo recorrente em mim. Em Portugal, e em quase tudo na minha vida, só consigo estar de duas formas, ou completamente, ou nem um bocadinho, Ainda me recordo de certa vez, enquanto fazia um curso de meditação no Estados Unidos, uma professora me ter dito que uma das minhas maiores qualidades é mergulhar inteiramente nas coisas, nas relações, nas aventuras e de me dar por inteiro.

Aqui em Angola o inteiro não funciona. É fundamental conhecer e respeitar as fronteiras. E sempre que necessário impô-las. Sou péssimo nisso. Quando dou por mim ou estou a ser frio de mais ou as pessoas já me estão a passar a ferro. Aqui fico sempre com a sensação que há uma agenda secreta, que há um qualquer interesse e isso impede-me de estar disponível e inteiro.

A minha amiga JC diz-me a certa altura que tenho de ser mais como eles, que tenho de me adaptar. Isso trouxe-me à memória algo muito forte do meu tempo de ensino secundário. Nessa altura vivia marginal ao mundo escolar. Não pertencia a grupo nenhum e sofria muito com isso. A minha mãe dizia-me muitas vezes que se eu me queria integrar com um grupo então o melhor era tentar ser como eles e fazer o que fosse possível para me adaptar.

Isso irritava-me muito. Especialmente porque sempre acreditei que temos de nos dar independentemente de como somos, e acima de tudo, não devemos nos adaptar aos outros para pertencer. Obviamente isto é uma impossibilidade prática, não somos herméticos ao que nos rodeia, mas algures nessa sopa tem de haver um meio termo.

Claro que temos de nos adaptar, claro que mudamos. Aliás quem me conhece e acompanha o meu processo, e até a minha escrita, percebe que as mudanças ocorrem e que estar aqui provoca mudanças. Mas essas mudanças têm de ocorrer pela razão certa, pela descoberta que proporcionam, ou pelo nosso auto-conhecimento, e não porque queremos pertencer, ser aceites ou amados.

Mas este movimento é tão forte tão forte que há pessoas que passam vidas a tentar-se libertar dele e muitas vezes é só isso que se trabalha em constelações familiares.

Para mim a grande diferença entre a infância e a vida adulta é que enquanto crianças escolhermos o percurso e as opções porque os outros querem, nos dizem, nos explicam. Ser adulto é assumir essas escolhas, e assumir a responsabilidade e poder dizer: eu vim por aqui porque decidi.

Ainda não encontrei o meu equilíbrio aqui em Angola, ás vezes pergunto-me se o irei encontrar, tantas vezes anseio pelo meu conforto de casa, da C., de tudo o que me é familiar e cómodo. Mas sei que escolhi o meu caminho e sei qual é a razão que me orienta. E essa é só minha.
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