Realidades paralelas ou perpendiculares

Aqui em Luanda todas as coisas têm um peso diferente, e também para as famílias. Para aqueles que se interessam em especial pelas questões das famílias, como eu com as Constelações Familiares, descobrem que o peso da família é diferente para eles. Normalmente é tudo em grandes quantidades: irmãos, filhos, primos, etc.

A primeira surpresa que tive foi quando perguntei à A. quantos filhos ela tinha. Disse-me prontamente e com um brilho nos olhos: tenho 4, os primeiros 3 são trigémeos e depois tive mais um. Esteves alguns minutos a contar-me os nomes deles e tudo o mais. E só passado mais de 10 minutos me disse: mas um dos trigémeos já morreu, tinha 4 anos de Pneumonia. O que a história tem de triste, tem também de amoroso. Nas Constelações Familiares aprendemos sempre que uma mãe ou um pai tem tantos filhos quantos as gravidezes da mãe. Quer eles tenham nascido ou não, quer já tenham morrido ou não. Para a A. era evidente que tinha 4 filhos, e não 3. Este sentimento de unidade fortalece sempre a família.

Depois perguntei-lhe se era casada, ao que ela me respondeu que era “mantida”. Que palavra bizarra. Confesso que não tive coragem de procurar entender ou saber mais, mas parece-me que por cá se chamaria de amante. E que em Portugal ao se perguntar à mulher se ela era casada, ela responderia: não sou.

Mantida também cria um vínculo e na realidade é em grande parte o que ela e os filhos dela são: mantidos.

Há uma simplicidade e sinceridade fantástica na forma como falam. Aqui não há cerimónias nem meias palavras, diz-se o que se quer e o que não se quer. Uma coisa que gostarei de aprender e que me será muito útil. A A. dizia-me assim: o que não gostar que eu faça diga-me que é a conversar que a gente se entende.

Mais, tem uma tatuagem manual num dos braços que diz: eu e tu. E perguntei-lhe quem era o eu: o eu sou eu claro, disse ela. Então e o tu: o tu é ele. E pronto… Para quê mais perguntas.

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Desde ontem trabalho com uma colega Angolana, a J., muito simpática e inteligente. E no meio da conversa toda disse-me também que tinha muitos irmãos. Mas que uma tinha morrido envenenada. Uma amante do marido tinha aproveitado quando ele estava fora para a envenenar. Era a mistura de tristeza com aceitação serena. Ainda tentei perceber se tinham apanhado a mulher ou algo parecido e nada. Parece que não é assim tão incomum.

É realmente este o mundo das realidades diferentes. Dos pesos diferentes. Dos valores diferentes. E eu tanto para aprender com eles. Que bom…
Só ainda me fica a dúvida se são realidades paralelas ou perpendiculares.

De Angola com Amor,

Guadiana Ramirez

PS: Hoje reuni os dois seguranças e a senhora da limpeza para ter uma super conversa. Expliquei-lhes as regras: Não mentirem nem nos enganarem. Chegarem a horas. Não tirarem o que é nosso sem pedir. Não presumirem que vamos lhes resolver as coisas. Que ninguém pode entrar aqui na casa. Nem podem fazer negócios com o que é nosso. E que só são recompensados quando fazem um bom trabalho. E que se não. RUA!!!

5 Responses to Realidades paralelas ou perpendiculares
  1. Cecília
    Setembro 2, 2009 | 10:57

    :) Giras as histórias familiares e a forma como falam e expressam o que pensam e sentem.
    É bom ir acompanhando as tuas aventuras.

    Espero que a conversa com os três resulte. :)
    Beijinhos!

  2. angeloflight21
    Setembro 2, 2009 | 13:39

    Vamos lá ver se consigo finalmente comentar… Já estou a dar em doida! Até já tenho a Ceci a ajudar-me. Ora cá vai.

    Olha, já nei sei o que disse há pouco. Gostei imenso do post e estou a adorar saber as tuas vivências e sentires em terra de Angola. Enviei-te o comentário via chat no gmail. Espero que tenhas lido. Tinha-me saído tão bem…

    Por agora é tudo. Vamos ver se, finalmente, o comentário fica “preso” ao site… …plim, plim… Já ando nisto desde que estás aí.

    Beijinhos de Amor e Luz,
    Ritinha

  3. Marta Ferreira
    Setembro 2, 2009 | 14:09

    ahahah
    Muito boa esta parte final. Resta saber se perceberam bem tudo o que tentaste transmitir!!!

  4. Cristina Rafael
    Setembro 3, 2009 | 1:05

    Bernardo,

    Tenho sido fiel seguidora das tuas aventuras “áfricánas” mas sempre que te leio, fico sempre com o sentimento de ter começado a ler o livro já a meio…

    Preciso saber: porque foste para aí, fazer o quê? Já casaste e partiste nesta aventura com a tua mulher, ou foste orgulhosamente só?

    Essas coisas que as “miúdas” gostam sempre de saber.

    Hang in there, kiddo!

  5. Luisa
    Setembro 4, 2009 | 16:44

    E não acham estranho as nossas famílias serem pequenas? Aqui no “Novo” Continente, sempre que dizia que era filha única perguntavam sempre porquê?!? Como se eu tivesse voto na matéria ;)

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