Muita gente me pergunta se me sinto seguro aqui. Como é o ambiente. Se dá para andar, se é assustados, se há muitos assaltos ou até mesmo mortes.
A resposta é: não sei.
Ao princípio parecia-me tudo perigoso. Tanta gente na rua, sentada sem fazer nada. Tantas vendedeiras com alguidares rodeadas de rapazes de todas as idades e tamanhos. Passeios sujos e cheios de buracos.
O motorista sempre a trancar a porta e a dizer para não irmos aqui ou ali.
Passado 10 dias olho com uma certa serenidade para isso e tiro duas conclusões. A primeira, quando mudamos de quadro de referência tudo nos parece diferente e assustador. Até objectos voadores que parecem pássaros, mas não são e que depois descubro são Gafanhotos. (A praga dos gafanhotos seria bem mais bíblica e séria aqui do que aí. Isso vos posso garantir). Assim sendo diferente não sabemos o que podemos fazer, o que podemos nos sentir confortáveis a fazer e seguros.
O motorista diz-nos para andar com pouco dinheiro na carteira, mas depois diz-nos que podemos ir para o meio do mercado da Ilha de Luanda que tem um ar muito “popular”. E por isso não percebo.
Sim andam atrás de ti na rua e olham para ti com curiosidade. Ontem um miudo para aí de cinco anos, depois do deixar atravessar na passadeira, mostrou-me o dedo do meio com um ar feroz. Claro que nos rimos imenso, mas foi a coisa mais agressiva de que fui alvo.
Ontem fomos almoçar na ilha e andamos um pouco no areal. Quanto mais nos aproximávamos da zona mais angolana os meus sentidos iam ficando mais alerta, ainda por cima com a P. (branquinha) toda a gente olhava para nós. (Algumas meninas até lhe disseram que ela é muito bonita).
Por isso isto é vivido para mim com um misto de insegurança, curiosidade, surpresa e desejo de aprender. E acima de tudo com respeito e gratidão. Esta terra recebeu-me e recebe-me todos os dias, e apesar das desobediências, pilantrices e pedinchices só recebo sorrisos e alegria.
De Angola com Amor
Guadiana Ramirez
Beijinhos
ahahahah Guadiana Ramirez, muito bom (Lol), como bom é poder ler estas tuas crónicas quase diárias e saber que te vais sentindo cada vez mais integrado, dentro da integração possível. Se precisares de alguma coisa avisa, que tento por-te em contacto com o meu amigo Nuno Cruz, que já domina a área, apesar dos sustos que vai apanhando. Beijo. Marta
Fiquei a pensar que teria feito o rapazito se não o tivesses deixado passar na passadeira…