Sou um chato
2 de Março de 2010 | por Bernardo Ramirez |
Hoje na minha prisão favorita chego à conclusão que sou um chato. Não no sentido de ser um tipo aborrecido, mas no sentido de que gosto de coisas normais (em quase tudo).
Quando saí do restaurante ao almoço olhava para uma revista, e mais precisamente para a sua capa (que colocarei online um dia destes) e pensei: eu não pertenço a este mundo (sei que já o disse algumas vezes). Mas realmente não pertenço. E não é de agora.
Não gosto de sair à noite, gosto de acordar cedo, não gosto de discotecas e de confusão, gosto de me sentar na mesa com amigos e rir e comer coisas boas. E gosto depois de me poder deitar e adormecer. (Há trinta mil anos que sou sempre o primeiro a ir para casa). E além disso já sou especialista em dormir nos sofás das casas dos meus amigos.
Sou um chato, Não ligo nenhuma à moda, e à grande maioria das coisas novas e boas e importantes para tanta gente (pronto podemos tirar desta lista a tecnologia que gosto sempre da mais recente e mais moderna). Não gosto de padrões sejam eles o do belo ou do feio. Lembro-me de pensar nos meus colegas de liceu e achar que mesmo nos que não gostavam de ser desportistas ou estar na moda, também tinham algo de igual a todos os outros.
Sou um chato. Não uso óculos escuros, não visto roupa de marca, não me preocupo quase nada com o que pensam e acham de mim. Claro que gosto de me sentir bem, mas não é preciso muito. E chega a ser um exagero. Faço cerimónia a menos e não a mais, para grande incómodo da minha mãe e de amigos…
Sou um chato. Gosto do Stevie Wonder, do Sinatra, do Chico Buarque. E não gosto de Tecno, e de Transe e de todas essas músicas que não são melódicas. Faço colecções intermináveis de clássicos. Gosto dos clássicos. Gosto até de quase tudo. Mas preciso de melodia e de sentimento.
E por isso sou um chato. No país onde a moda e a aparência e o corpo são tão importantes fico sempre com a sensação que estou um pouco a margem. Hoje o meu ex-motorista e agora só e exclusivamente amigo L. passou cá por casa e entre tantas conversas diz-me assim. Queria que conhecesses uma amiga minha, porque eu falo-lhe de ti mas ela não acredita.
Juro que não percebi o que ele queria dizer, mas sei que sou uma ave rara. Um chato…
Tags: Angola, Chato, Comunicação, Crónicas, Ser


3 Comentários a “Sou um chato”
Por Raquel a 2 de Mar, 2010 | Responder
Pode até não ser chato, mas com certeza é old fashion… Lembrei da piado do Stevie Wonder: O amor é cego, Stevie Wonder é cego, Deus é amor, logo Stevie Wonder é Deus. bjos
Por Ana Paula a 3 de Mar, 2010 | Responder
Se isso fosse verdade (que és um chato) serias o chato mais querido do mundo… Podes ser old fashion por fora, mas lá dentro é só ar limpo e puro, tudo muito arejado… Sem modas é verdade, mas sempre genuíno…
Além disso, que piada tem ser igual aos outros??? Eu sou diferente, e sabes?? ADORO!!
Beijos grandes
Por Margarida a 3 de Mar, 2010 | Responder
Somos quase todos uns chatos! Seres únicos na sua “chatice”. E quem não é chato, é “desmiolado”
. Todos temos direito às nossas “manias”, desde que isso não prejudique ninguém. O que dá sabor e colorido à vida, é sermos chatos, com diferentes nuances. Vivam todos os chatos deste mundo! Eles são genuínos!