Terra Vermelha

Antes de partir de Lisboa para cá, uma amiga pediu-me que lhe levasse daqui, se fosse possível, terra vermelha. Um bocado da terra vermelha deste país. Na altura não percebi o que isso significava, mas hoje percebo mais um pouco.

No primeiro fim de semana que cá estive fomos almoçar a casa de um amigo do meu patrão e, a caminho de lá, passámos numa zona onde de um lado existia um bairro enorme e com um ar muito pobre e do outro um vasto descampado cheio de montes de areia, todos aproximadamente do mesmo tamanho, e todos de cores diferentes. Uns com terra amarela, outros com terra mais cinzenta, outros com terra vermelha.

Claro que aqui para o provocador apeteceu-me logo rir. Na cidade do caos (quem me dera que me lesses L.) estas pessoas organizaram-se para fazer montes de terra com cores diferentes. Um enorme campo de montes de terra coloridos.

Mas mais, aqui há terra em todo o lado. Nas ruas, nos passeios, nas casas, na roupa, nos carros, é uma constante. E para mim, mais incrível ainda, há muitos funcionários, que julgo que funcionem para o estado, ou para uma câmara, que passam o dia a varrer a areia. Um trabalho assustador, pois vivem numa camada de pó infindável, e que temo também seja inútil.

Eles varrem, que tenha visto, em duas modalidades, uma é juntarem tudo em sacos de plástico, que depois são recolhidos com essa terra e levados para parte incerta. Outra é que são varridos para os passeios, ou para onde é possível. Mas a verdade é que depois esse pó varrido sobe para o ar, e ao subir suja tudo: casas, carros, pessoas, etc. Claro que se limpam as casas, os carros e as pessoas, e lá volta o pó de novo para o chão em forma de água que seca rapidamente, e que as pessoas ao caminharem e os carros ao saírem e entrarem dos estacionamentos voltam a colocar no ar e na estrada só para depois voltar a ser varrido.

Imagino que muitos de vocês estejam a sorrir e a pensar que isto é uma grande palermice. Mas hoje queria falar de outra coisa. Aliás duas.

Aqui as pessoas precisam de comer, e precisam de trabalhar para ganhar dinheiro para comer. Não é de todo impensável que estes empregos acabem muitas vezes por surgir como forma de empregar pessoas e assim lhes garantir uma forma de subsistência.

A outra coisa é a arrogância e a prepotência ocidental e “colonialista”. É muito fácil, do nosso sofá, das nossas férias em ilhas tropicais ou em países exóticos, do nosso ecrã criticar e questionar a vida desta gente, os seus hábitos, a sua forma de vida. Mas a história ensina-nos que só os tolos o fazem. Porque quem somos nós para medir o universo com a nossa régua e dizer o que tá direito e o que está torto. Mesmo as vidas mais simples e fantásticas (achamos nós) têm sempre os seus desafios e dificuldades.

Certamente que eles têm os seus defeitos: são lentos, desorganizados, etc., mas este é um povo fantástico, cheio de esperança, determinação, sorrisos e criatividade. De uma verdadeira família onde todos tiram algo uns aos outros, mas todos dão também.

E, por isso, convido-nos a não sermos tão rápidos a julgar. Andamos todos no mundo a aprender as mesmas coisas.

One Response to Terra Vermelha
  1. angeloflight21
    Setembro 10, 2009 | 20:38

    Olá priminho!

    Como tens razão… As abelhas até podem “incomodar” os humanos, mas sem elas, quem é que faria a maior parte da polinização? TODOS são importantes nos papéis que desempenham.

    Beijinhos de Amor e Luz,
    Ritinha

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