Tomar o Poder
25 de Agosto de 2009 | por Bernardo Ramirez |
Porque é bom ter companhia
Umas das “regalias” essenciais de quem vive em Luanda, pelo menos numa primeira fase, é ter motorista. Aqui não há sinais, não há regras de trânsito, não há prioridades. É necessário um olhar super abrangente e uma atenção absoluta para não bater, cair no buraco, atropelar a senhora, ou ficar enterrado. Mas ainda mais é preciso uma coragem absoluta. Ser-se o verdadeiro bravo destemido.
O L é o nosso motorista. 26 anos quer ser alguém na vida e procura ir para a universidade tirar engenharia civil. É um rapaz religioso QB o que lhe dá uma educação e um cuidado que nos tem agradado muito. Não se atrasa. Diz quando lhe damos dinheiro a mais. É realmente muito bom rapaz.
A minha casa tem um terraço enorme. Para além de ser a minha casa e da P vai ser também o nosso escritório e o de outras empresas que trabalham em parceria connosco. O terraço serve também de estacionamento, e desde ontem é o fiel depositário de um gerador fantástico (ainda não precisei dele, vamos ver se depois de o usar continua a ser fantástico).
Desde que cheguei que o terraço da casa está sempre cheio de coisas de vendedores de ruas, colchões de pessoas que dormem no chão durante a noite e não sei quem são, de rapazes a tomar banho. O meu chefe P dizia sempre que não se admitia, mas eu ainda não tinha percebido bem o que se estava a passar.
Temos na casa um segurança 24 horas por dia, que cuida, guarda, abre o portão e faz pequenos recados quando precisamos. Há dois dias o P tinha dito que eles deviam receber umas “gasosas” por deixar as outras pessoas usar o nosso espaço.
Para além disso, já tinha apanhado ambos os guardas completamente bêbados a meio da tarde quando voltava para casa. E já lhes tinha tentado dizer algo, com o meu cheio ou trapalhão ou nada autoritário, ou bruto…
Ontem no carro perguntei ao motorista: Oh L mas afinal quem são aquelas pessoas e aquelas coisas que estão no nosso terraço?. Ele, olha para mim com um ar surpreso. Ri-se e diz-me: O senhor está a perguntar-me a mim? O senhor é que devia saber. A casa é sua ou não é?
Eu fiquei uns segundos meio em choque. E de repente comecei a rir à gargalhada. Realmente o L tinha razão. Aquela é a minha casa.
Nesse fim de tarde avisei os seguranças que se hoje lá aparecessem pessoas que não conhecesse ou estivessem lá coisas no quintal que iam logo para a rua. E olhei-os nos olhos, porque eles gostam de baixar a vista, mas acho que lhes retira responsabilidade.
Afinal de quem é a casa? Afinal é minha!
Tags: Angola, Comunicação, Crónicas, Poder


3 Comentários a “Tomar o Poder”
Por joana a 25 de Ago, 2009 | Responder
meu querido, é dureza por aí. espero que tenhas o estofo que eu não teria. gosta-se dessa terra, inexplicavelmente, mas eu cá tinha data de regresso marcada e não me faltou água
beijossssssssss
Por joana a 25 de Ago, 2009 | Responder
e sim. fala nos olhos e não perdoes a 1a. depois dessa vêm mil…
Por Ana Paula a 26 de Ago, 2009 | Responder
well… well… Imagino o teu desespero de homem habituado ao ritmo acelerado em que nós (europeus)vivemos.
Nem temos consciência da “velocidade do tempo”. Se calhar por isso o choque…
E agora o menino bonacheirão vai ter de endurecer. Vai ser duro… Mas só é dificl, porque para ti é fácil…
Um beijo enorme e aquele abraço energizante (depois de um banhinho, s.f.f.)