Aos que sabem quem são

22 de Abril de 2010

Sou um homem de amor, ou um homem apaixonado. Há tempos atrás escrevi que no meu coração cabem muitas pessoas. E é verdade.

Quem me conhece de perto sabe esse facto. Dou o meu amor com generosidade e carinho. Mas isto só acontece porque também recebo esse amor com generosidade e carinho.

Olho à minha volta e não consigo deixar de me sentir feliz pelas pessoas que me rodeiam. Desde os amigos de sempre, aqueles que nunca conheci ao vivo e apenas troco palavras, gestos ou sentimentos ocasionais.

Obrigado a todos.

Vocês são a força do meu ser. O vosso amor, o vosso carinho, a vossa partilha e a vossa confiança tornam os meus passos mais largos, serenos e firmes.

Tenho muita sorte. A vossa presença, as vossas palavras, o que trocamos fazem-me ser melhor todos os dias. E aqui, neste local, tão longe de tudo o que me é próximo, são vocês que me mantêm, que me seguram.

Um dia vi um cartoon que dizia: Um amigo pode não ser capaz de te levantar, mas de certeza que não te deixa cair.

Vocês não me deixam cair!

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Viagens nesta terra (que não é minha)

22 de Abril de 2010

Já não me estava a lembrar desta aventura, mas a título de registo histórico acho que tenho de vos contar a minha odisseia em Luanda para viajar para o Lubango. Era preciso comprar bilhetes de avião para um voo interno. Ao falar com o Decano do Lubango ele disse-me: não compre bilhetes de avião na TAAG, eles atrasam-se imenso, é melhor qualquer outra companhia aérea.

Pedi a J. para me comprar os bilhetes num sítio que nos tinha sido recomendado. Um dia depois ela entrega-me o bilhete: era na TAAG, ás 7:30 da manhã, no Domingo. Perguntei se não tinha percebido o meu pedido, mas ela disse que só havia voos da TAAG. Perguntei também se não havia voos a uma hora não tão madrugadora, e ela disse que a senhora da Agência de Viagens tinha dito que não.

Olhando com atenção para o bilhete vi que o check-in era no dia anterior às 21:30. Disse à J. que era muito estranho. Mas ela disse que não. Que era mesmo assim.

Bem no Sábado ás 21 horas lá fomos, o P.G. (que está cá durante 15 dias) e o vosso amigo. Chegando lá deparei-me, ja dentro do aeroporto, com uma fila que não devia ter menos de 150 pessoas. Perguntei: Onde é o check-in para o Lubango. Ao que me responderam que todos os voos tinham o check-in no mesmo sítio.

Foram duas horas e meia, deu para conhecer um rapaz angolano com quem estive na conversa. Deu para ver a confusão habitual. Pessoas a passarem à frente. Dezenas de pessoas com excesso de peso a tentar enganar a companhia aérea. Mas pensei para mim, se pedem para vir no dia antes, é para terem tudo organizado para o dia do voo.

Perguntei a que horas tinha de lá estar. O voo era às 7:30 e várias pessoas me disseram: basta estar ás 7, mas o senhor do check-in disse-me 7:30. Pensei logo, pronto vou passar a manhã toda aqui à espera. Mas pronto, o que tem de ser tem muita força.

Nessa manhã, no meio da confusão de me arranjar, e das minhas loucuras e do P.G. acabámos por sair de casa só perto das 6:40, mas sem trânsito ao Domingo, dava mais que tempo para chegar ao Aeroporto. Na viagem, já perto do aeroporto vejo um polícia meter-se no meio da estrada dois ou três carros à frente do meu. Pensei, que azar vão ser parados. Afinal não. Nós é que fomos parados. Já tinham topado os dois pulas no carro.

Pediu-me os documentos, dissemos-lhe que íamos apanhar um avião, ele disse que os documentos estavam todos em ordem e até foi bastante simpático. Quando lhe perguntamos se podíamos seguir ele perguntou se não podíamos dar algo para o pequeno almoço dele. Demos-lhe 1000 Kz e fomos a conversar que realmente é bem melhor serem honestos e pedirem o dinheiro, do que inventarem problemas que não existem.

Já bastante em cima da hora continuámos para o Aeroporto. Mesmo a chegar ao parque de estacionamento estava um polícia a parar todos os carros. Brancos para um lado, não brancos para o outro. Disse-lhe: Fui parado há cinco minutos agente, tenho um avião para apanhar. Ele diz-me: Hoje está com azar. O P.G. e eu já nos estávamos a passar. O seu carro falta-lhe o documento X e por isso tem de ser rebocado. Ai meu deus, vá diga lá quanto quer. 4000 kz para mim e para os meus colegas. Demos o dinheiro e eu fui a correr para dentro do Aeroporto.

Deviam ser tipo 7:20 quando entrei dentro do aeroporto, mas ao passar pelo radar e controle do passaporte ainda me pediram mais 400kz para comer qualquer coisa. Não estava nada preocupado com a hora porque previ grandes atrasos. Dentro da zona de embarque não havia em lado nenhum indicações das horas dos voos, nem de quando é o embarque.

Eu tinha visto do lado de fora algo escrito à mão num quadro que dizia voo para Lubango perto das 9:30 e por isso esperei. Chamaram duas vezes voos para o Lubango, mas não era da TAAG (afinal pelos vistos até há muitos voos para o Lubango).

Ia perguntando pelos voos às pessoas. Mas ninguém sabia de nada. Às 11:30 chamaram para embarque Lubango da TAAG. Ao mostrar o meu bilhete disseram-me: este não é o seu voo. O seu voo já saiu. Ao que respondi mas eu tou cá deste as 7:10 e não ouvi nada. Eles disseram-me que o voo saiu ás 7. Meia hora antes???

Fiquei à espera mas acabaram por me deixar embarcar nesse voo. Antes de entrar no avião estavam duas filas enormes de malas e dizem-nos: identifiquem as vossas malas para embarcarem.

Claro que a minha mala não estava lá. Nem a minha, nem a de outro senhor. Nós na pista, eles todos meios tontos de um lado para o outro. Uns diziam-me: a mala não pode ter ido sem o passageiro. Outros diziam: vá que a sua mala já deve tar no avião.

Mesmo sem mala e sem vontade lá entrei no avião. Uma hora depois estava no Lubango. Dentro do aeroporto não conseguiram encontrar a minha mala. Já tava a imaginar que me iam pedir milhares de Kwanzas para encontrar a mala. Mas não, Levaram-me até um contentor guardado pela polícia e lá estava a minha mala. Foram cordiais, educados e atenciosos. Devolveram-me a mala sem pagar nada, e apesar do cadeado estar aberto estava tudo na mala.

Resumo: Vários voos para o Lubango, várias companhias, vários polícias corruptos, menos 5400 Kz (que são 50 USD), e muito sentimento de angústia, de revolta e de ter sido abusado. E claro infinita prática para ter paciência.

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Eterno Retorno

21 de Abril de 2010

Ontem tive uma conversa interessante sobre a repetição. Uma amiga dizia-me que achava que os meus temas eram sempre os mesmos e perguntava-me se não achava que isso era curioso.

Recordo quando ainda estudava gestão no ISCTE ter tido um professor de História muito original. Ele era daqueles professores que são mais cientistas que professores, que parecem messias de férias. Ele um dia disse uma coisa que não esqueci: a história não é circular, é uma espiral evolutiva, passamos sempre pelos mesmos sítios, mas uns quantos níveis acima.

Desde esse momento fui me cruzando com muita gente que me disse o mesmo de forma diferentes. Que realmente os nossos processos e a nossa história é feita de repetições. Aliás, para quem trabalha com constelações, sabe que essa é uma questão fundamental, a repetição de padrões.

Acontece que muitas vezes, quando ganhamos consciência dos nossos desafios e limitações as coisas tornam-se mais claras e mais subtís. De tal modo que, por vezes, nem percebemos que a questão é exactamente a mesma, mas camuflada de algo diferente.

Já escrevi há muito tempo sobre mim e aliás sobre a minha escrita, sobre a forma como ela é muito circular. Abordo os meus temas e as mesmas questões. Apenas lhes mudo as formas e os moldes.

Gosto de acreditar que vou avançando e evoluindo. Gosto de acreditar que aprendo e amadureço. Mas não me iludo ao ponto de negar as minhas questões e dúvidas. Os limites, o respeito, o reconhecimento, o amor próprio são os meus temas. Estas são as coisas que tenho de trabalhar durante toda a minha vida.

E assim, uma das licções que aprendi, é que não há drama nas repetições, ou seja, a vida é feita de tudo. Se paramos durante muito tempo numa questão, se criamos angústia em relação a alguma área da nossa vida, não saímos de lá. Repetir, ter dúvidas, questionar, e não saber o que fazer faz parte de estar vivo. Amar o nosso ritmo e a capacidade que temos e a nossa dúvida é uma grande licção. Ainda me zango muito comigo e com os outros, mas quem sabe se quando voltar aqui, uns passos à frente, custe menos.

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Medos que mudam

15 de Abril de 2010

Por circunstâncias da minha vida profissional aqui em Luanda hoje voltei ao sítio onde a minha carreira profissional começou em Angola. Foi em Setembro do ano passado (2009) que me deparei primeiro com este país. A chegada foi muito difícil. Já escrevi sobre isso, mas hoje, passado quase quatro meses de vida nesta cidade foi tudo diferente.

Podem ler o resto do post http://galiciaconfidencial.com/nova/5704.html

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36 anos – Proposta para todos

12 de Abril de 2010

Olá a todos. Aqueles que me conhecem melhor sabem que no dia 1 de Abril de 2010 vou fazer 36 anos. E os que me conhecem mesmo muito bem sabem que eu costumo ter a ousadia de pedir os meus presentes. Descobri que esta é uma forma óptima de ter o que quero e de facilitar quem não sabe o que me oferecer.

A minha amiga RP e eu temos trocado alguma correspondência. Ela envia-me cartas e eu respondo-lhe por email. A verdade é que contra todas as convicções as cartas têm chegado cá. E é uma alegria receber correspondência à moda antiga.

Para além disso tenho uma paixão um pouco compulsiva por fotografias de pessoas. Gosto de as ter, de as receber, de as coleccionar.

Daí surgiu o meu projecto: e se cada pessoa me enviasse uma carta pelo correio à moda antiga, com uma ou mais fotografias suas à moda antiga?

É muito simples: tiram uma foto vossa, imprimem ou mandam revelar a respectiva, e depois colocam-na num envelope com a seguinte morada:

Rua Gil da Liberdade 124,

Bairro Valodia,

Sambizanga

Luanda

Prometo que vou afixando as fotos na minha parede e vou tirando fotos da minha parede e colocando online para verem as fotos.

Não precisam de ser meus amigos para me enviarem a vossa foto, mas ficaramão (obrigado chato!) mais meus amigos se me a enviarem.

Vou ficar ansiosamente à espera.

Beijos e abraços a todos.

ESTADO INICIAL DA PAREDE A 16 DE MARÇO

INFORMAÇÃO DIA 22 DE MARÇO

As cartas estão a demorar em média 18 dias…

Informação dia 13 de Abril

Chegaram 3 fotos, duas de avião e uma no correio. Depois coloco aqui uma foto. Mas estas vieram por email e não pude parar de rir.

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Tempo certo

8 de Abril de 2010

Uma das descobertas incríveis que tenho feito na minha vida é uma de partilha difícil. Falar de ritmos, de tempos, de forças superiores, e de tudo o que está associado a isso é algo no mínimo polémico. Há umas semanas atrás, quando conversava com uma das amigas que cá tenho ela dizia: “Sabes Bernardo, aprendi que o melhor é deixar a vida me levar.”

Podem ler o resto do post http://galiciaconfidencial.com/nova/5666.html

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Cinco frangos ou a arte de celebrar o aniversário em Angola

5 de Abril de 2010

Continuo a viver surpreendido com as diferenças das culturas. Depois deste tempo aqui em Angola, que agora já somam cerca de quatro meses, continuo a sentir que não pertenço aqui. Na realidade, reconheço em mim parte da responsabilidade de não me entregar a este povo e a este país, mas ainda não encontrei uma forma diferente de estar.

O que vos relato a seguir é verídico. Aliás como tudo o que escrevo. Espero que vos divirta e que vos transmita alguma mensagem interessante. Farto-me de aprender com os meus próprios desafios e erros.

Há alguns meses atrás, quando descobri que vinha para cá na altura do aniversário da C. e do meu, fiquei triste. Não se podia fazer nada e acabei por aceitar a condição de que, pela primeira vez na vida, ao fim de 35 anos, estaria fisicamente longe dos que amo e estimo no meu aniversário.

Já aqui em Luanda fui pensando no que queria para o meu aniversário. Normalmente, peço sempre aos amigos os presentes que quero, não para me os darem, mas porque como amigo para mim é difícil escolher o presente certo, e se me disserem algumas coisas que querem, torna-se mais fácil.

Depois de algum tempo a pensar, e de estimar a minha fixação com fotografias, escrevi isto no meu blog: http://www.bernardoramirez.com/comunicacao/36-anos-proposta-para-todos/ Achei delicioso encher a parede de fotos de pessoas que conheço, melhor ou pior, e isso seria a minha maior alegria. A verdade é que descobri que o correio demora pelo menos 3 semanas, pelo que ainda não recebi carta nenhuma. Mas sei que há muitas a caminho, e até nisso estou curioso para saber quantas e como chegarão cá.

Uma ou duas semanas antes do meu aniversário fui jantar com uma amiga angolana. Já sabia que ela organizava festas, mas não pensei a forma como as coisas estão encadeadas. Nesse jantar comecei a falar das minhas dúvidas sobre o aniversário, e sobre o que deveria ou não fazer. Ela disse-me que me ajudaria a organizar a festa e combinamos fazer em primeiro lugar uma lista de pessoas, e que só depois disso iríamos combinar o que fazer.

Na segunda-feira seguinte, encontrámo-nos para almoçar e por coincidência, ou não, juntámo-nos muitos na mesma mesa: a N., o meu colega A., a minha amiga T. e uma amiga da N. que estava lá também.

Quando lhes apresentei a lista de convidados não deviam ser mais de 10 ou 12. Aqui ocorreu a primeira surpresa. Eles perguntam-me: “Mas queres fazer uma festa com 10 ou 20 pessoas? Isso não é uma festa.” O meu primeiro erro foi assumir os mesmos conceitos que em Portugal. Para eles festa é muito diferente da nossa festa de aniversário. Ou é mais concreto. Para eles festa significa 50 ou 100 pessoas, música aos altos berros, dança e tudo o mais… (julgo que semelhante às farras que costumo sofrer aqui na vizinhança).

Eu tentei explicar, que tinha pensado num almoço, algo sossegado, pouca gente, conversa. Que tinha pensado que para 10 pessoas se podia comprar 5 frangos e arranjar uns acompanhamentos, um bolo e estaria tudo bem. AHAHHAHAHAA Não consigo vos explicar o ar de surpresa deles. A olharem para mim como se não houvesse amanhã, a chorar a rir, toda a gente a rir. Até eu já ria. “Vais fazer uma festa com cinco frangos?” (durante dias o A. só me chamou 5 frangos). Ri como não ria há muito, numa mistura de humor com nervos. Mas afinal como é que se fazem as coisas aqui?

Não percebi qual era o humor. Mas a sensação com que fiquei foi que estava a cometer um erro grave. Mais tarde percebi três coisas. A primeira, que aqui quando se juntam as pessoas aparecem sempre muitas mais do que as que se convidaram. Segundo, que se confiasse mais no meu instinto teria saído a ganhar. Terceiro que o anfitrião não deve falar nem de comida, nem de bebida. Convida-se e pronto.

A verdade, é que depois da confusão desse almoço, apesar de ir convidar poucas pessoas, pensei que teria de me preparar para ter a casa invadida. Depois de muita conversa, decidiu-se que as mulheres iam trazer alguma comida, e os homens alguma bebida. Na realidade, eles aceitaram esta política na teoria. Depois na prática ninguém trouxe nada.

Mas o que ficou acordado era que eu ficaria encarregue da carne grelhada, dos acompanhamentos e das bebidas, ou melhor parte das bebidas. Porque os homens trariam mais. E as mulheres também trariam comida. Rissóis, molhos para o funge. Acho que era o que tinha ficado combinado.

Comecei a convidar as pessoas, e a explicar que seria um almoço, que não era uma festa, que era uma coisa simples e com pouca gente. Tinham-me dito para explicar isso a toda a gente, para não haver confusões, e que podiam trazer um ou uma acompanhante. Todos os convidados tinham sempre um comentário a fazer, mas a verdade é que me punha também a jeito. É muito cedo, tá muito calor, mas haverá comida suficiente, tens a certeza?

No meio do meu pânico crescente, tentei organizar tudo como pude. Duas idas a diferentes supermercados durante a semana para comprar suprimentos variados. Não vos vou aborrecer com detalhes excessivos. Mas digo-vos que para encontrarem o que precisam aqui é preciso ir a muitos sítios diferente. E com um trânsito é terrível. Outra coisa, a minha empregada ficou de fazer a comida. Mas dois dias antes da festa teve um acidente de táxi e ficou muito ferida. Liguei à N. e ela disse que arranjaria alguém para fazer a comida. E que eu pagaria depois pela comida. Expliquei que queria pouco coisa porque as pessoas iam trazer comida e já tinha comprado carne grelhada.

Pedi ao motorista e à colega J. para garantirem que havia água e gasóleo para o gerador e gasolina para o carro. Pedi a duas pessoas para trazerem grelhadores e a outra para trazer cadeiras de plástico. Como não há quase espaço aqui em casa, nem cadeiras, achei que pelo menos o máximo de cadeiras possível era útil. Combinei com a empregada de limpeza que viesse no sábado dar uma ajuda e limpar a casa. Ela combinou comigo vir bem cedo.

No sábado acordei às sete e esperei pela empregada. Fui tomar o meu duche matinal para descobrir que não tinha água. Sem água? No dia da festa? E limpar a casa? E a louça? E o que tinha pedido a toda a gente? Liguei para a J. que me respondeu o seguinte: “Liguei para o rapaz, mas ele não conseguiu arranjar água”. Pronto está bem. Pensei eu: E não me podias ter avisado, pensei, não podias ter tentado melhor? Liguei para várias pessoas, e o meu amigo L. acabou por arranjar alguém para trazer água rapidamente. Mas mesmo assim ia ser apertado, claro.

Às 10:30 a empregada ainda não tinha chegado, apesar dos meus repetidos telefonemas e das desculpas dela. Mas tinha que sair para ir buscar o meu colega A. que me ia ajudar. E aqui começou a corrida do dia.

Fui buscar o A. e o grelhador. Ainda não tinha garfos e facas e por isso fomos ao Jumbo. (cada frase destas são para aí 30 minutos no trânsito) O Jumbo estava intragável, não conseguimos. Viemos a casa. A empregada tinha aparecido, mas eu esqueci-me e deixei tudo fechado e por isso estava sentada sem fazer nada. (para não falar que não havia água claro) Fomos ao mercado de S. Paulo comprar talheres, um pilão, alho e cebola. Voltámos para casa. Ela ainda não tinha limpo nada. Fomos à rua do A. comprar gelo (sim, eu sei, nem vale a pena dizer nada). Voltamos a casa (30 minutos lembrem-se). Nessa altura chegou a água.

O almoço era suposto começar às 12, ou pelo menos o encontro das pessoas. Isto já eram bem 13 ou 13:30. E ainda ninguém tinha chegado.

A N. ligou a dizer para a ir buscar. Saí com o A. a caminho da casa dela. Perdi-me. Ao virar numa rua sem sentido voltei para trás em marcha-a-trás e bati contra outro carro. As senhoras bem simpáticas. Não parecia haver nenhum problema. Continuámos para casa da A. Chegámos lá para descobrir que íamos transportar comida para 50 ou 60 pessoas. Toca o telefone, eram as senhoras do acidente. Desculpe, mas a porta do carro não abre. Pode vir aqui ver. Lá fomos. Realmente não abria. Fomos a um mecânico perto. Negociámos o preço. E despachámo-nos de volta para casa da N.

Carregar o nosso carro, e o carro dela. Voltar para a cidade. Voltar a casa do A. para comprar mais gelo. O que comprámos não chegava. E finalmente voltar para casa com tudo. Quando chegámos já cá estava a T. e o L. A minha empregada tinha chamado uma prima para a ajudar, mas elas basicamente só tratavam dos grelhados. O resto estava tudo como tinha ficado. E não havia cadeiras. O escritório e a cozinha têm ao todo 6 cadeiras. Em Portugal, a malta sentar-se-ia no chão e como pudesse, aqui em Angola não é bem assim. Percebi que aqui só se faz festa se se tem dinheiro para a fazer. E cabe ao anfitrião garantir que há do bom, do bonito e do melhor para toda a gente. E se faltarem coisas é uma vergonha. “Quem não tem dinheiro, não faz festa!”

Na realidade, todos os meus convidados trouxerem apenas algum champanhe. Foi o presente que trouxeram. Nem sabia, mas pelos vistos, aqui só há uma marca de champanhe que bebem. Doce, sul-africano, só para as senhoras. Mais curioso ainda, as pessoas que sabiam do meu aniversário, no meu dia de anos, quinta, nem me deram os parabéns. Aliás a N. tinha ficado de cá passar na quinta, para me dar os parabéns e ver a casa. Para combinarmos da comida e tudo o mais. E apesar das minhas mensagens e telefonemas, até sábado ás 11 pensei que não ia ter nem N., nem comida para os convidados.

A partir das 16 horas, altura em que oficialmente cheguei a casa e até ás 22 horas, hora em que toda a gente se foi embora, estiveram cá em casa cerca de 14 pessoas contando comigo. Às 16 já estava cansado, sem paciência, e farto. Fiz o melhor que pude para garantir que as coisas corriam bem, falei com as pessoas, experimentei um pouco de toda a comida.

Mas não havia música, as mulheres ficaram dentro de casa a falar alto, e os homens vieram para fora falar de aventuras e mais não sei quê. Comemos um pouco e bebemos um pouco, mas nada de mais, Não houve dança, não houve confusão, não existiram penetras desconhecidos, nem grandes doideiras.

Houve muita comida, muita bebida, e acima de tudo muita despesa. Gastei muito dinheiro. Os detalhes interessam pouco, mas a estimativa são cerca de 50 dólares por pessoa.

No fim da noite, as pessoas levaram a comida, e a bebida. Ainda insisti em ficar com algumas coisas, e tive de reclamar com algumas coisas. Se não tinha ido tudo. Confesso que houve um instante em que tive medo que a festa durasse até às 5 da manhã, que se transformasse numa farra, ou que as pessoas ficassem apenas sentadas a falar até essa hora. E estes “amigos” não os podia mandar para casa…

Mas tudo se resolveu. A casa ficou um nojo. O fogão minúsculo estragou-se. No domingo foram só limpezas e ficar ainda mais doente, estava um bocado mal da garganta. Arranjei o fogão e tudo voltou ao normal.

Agora olho para tudo e descubro. A minha festa deveria ser a minha festa. Deveria ter a calma, a serenidade e a sabedoria de não me deixar conduzir para um terreno que não me sinto confortável. Que teria sido mais simples e muito mais económico levar as pessoas que gosto a comer, mesmo oferecendo o almoço a toda a gente.

Que tenho de confiar mais em mim e no meu instinto. E que quando não sei o que fazer, o melhor é não fazer nada. Assim, aprendo uma lição bem dispendiosa, e importante. Que me custa a reconhecer, mas que tem certamente os seus méritos.

Uns amigos dirão carneirão, outros dirão pateta, alguns chamar-me-ão aventureiro, ou ainda doido. A verdade é que, como disse um dia um amigo querido, às vezes precisamos de bater com a cabeça para aprender a lição. E esta deixou-me com um galo enorme.

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O que se vê

1 de Abril de 2010

Há já muitos anos atrás conheci uma mulher que tinha várias características incríveis. Por incríveis digo extraordinárias, chocantes e por vezes até assustadoras. A principal era que, sem saber nada da pessoa, ela era capaz de dizer coisas sobre os segredos e os medos mais íntimos dessas pessoas. Na altura, ela usava a desculpa da Astrologia. Olhava para o mapa e pimba dizia de sua justiça. Ainda demorei algum tempo a perceber que o mapa era só uma desculpa para ela materializar o que via nas pessoas, dando-lhe um suporte material que lhes dava algum conforto, e que evita o incómodo de se ter de chamar a Inquisição e de ter de queimar a pessoa na fogueira pelo que ela vê.

Hoje aqui na minha “caminhada” por Luanda, a caminho de uma universidade, lembrei-me de uma coisa que ela um dia me tinha dito e a um colega. “O futuro está em África, e para nós, nos países de língua oficial portuguesa. Vocês podem perfeitamente ir trabalhar um dia para lá.”

Nunca sabíamos ao certo se o que ela dizia era fruto de alguma visão, ou apenas uma opinião. Na verdade, hoje acho que essa dúvida nossa servia muito o interesse e o propósito dela, e de todos os que vêem ou dizem ver.

Hoje para mim existem duas coisas claras:

Acho que a I. com toda a sua sabedoria e visão, cometia um erro grave na utilização ou interpretação das suas faculdades. O facto de ela ver, o que os outros não viam, ou não queriam, ou não conseguiam ver, dava-lhe o “poder” de nos tentar orientar no sentido daquilo que ela achava ser o correcto e o melhor. E mesmo que fossem as visões dela a orientar a nossa orientação, para mim o pressuposto era, e ainda é inválido. Estas visões aconteciam não no sentido de aviso, de orientação, de conselho, mas apenas porque se está “sintonizado” com um canal que é transversal ao tempo. Não podemos alterar a vida dos outros, orientar a vida dos outros, controlar a vida dos outros. A cada um cabe a responsabilidade de sua vida. E a de cada um, e as escolhas que fazemos ou deixamos de fazer, já nos dão trabalho suficiente.

Aliás nunca sabemos se o caminho a que se chega foi por influência disto, daquilo ou daquele outro. São coisas que nunca se descobrem nem entendem.

Por outro lado, também vejo coisas. Que são minhas, e que por vezes são de outros. E sinceramente não sei bem para que me servem essas visões. Mas a função que para mim têm são a de conhecer melhor as pessoas, entender quem elas são, de onde vêm, e aquilo que as constitui.

A maior lição que temos de aprender é a saber distinguir quando precisam de nós e quando não precisam, quando querem a nossa ajuda, e quando não querem. Com ou sem visão. E sinceramente, e para nossa tristeza, as vezes que precisam são mesmo muito poucas. Mesmo quando não o queremos acreditar.

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Protegido: Parabéns Bernardo!*36* Ceci

1 de Abril de 2010

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Círculo de Amor

31 de Março de 2010

Ontem estive a falar com um colega meu que por coincidência faz anos no mesmo dia que eu e que por acaso esteve em Angola sozinho o ano passado no aniversário. Ele dizia que comer uma sandes ao jantar, sozinho, foi das piores sensações da vida dele.

Não gosto de drama, aliás se calhar gosto um pouco, mas não acho que isto seja dramático. Só acho é que já aprendi a lição. Passar o aniversário longe de quem amo e das coisas que são importantes para mim, se puder escolher, nunca mais.

Aprendo a valorizar o que é determinante na minha vida, e a sentir o que importa e o que não importa. E na realidade nem nunca fui muito ligado a grandes eventos. Mas o meu aniversário é sempre um dia fantástico. É sempre um encontro com toda a gente de quem gosto e que gosta de mim.

Normalmente as minhas festas são de porta aberta. As pessoas aparecem quando querem e como querem, e trazem o que podem ou gostam. Normalmente os homens bebidas e as mulheres comida. É maravilhoso ver toda a gente reunida, os amigos novos, e os amigos velhos (ou antigos para ser mais politicamente correcto). E nesse dia realmente é um círculo de amor.

Sentir a casa a transbordar de pessoas, a campainha sempre a tocar, as gargalhadas, as crianças, ás vezes até os animais de estimação. E cabem sempre todos.

Este ano vão estar distantes fisicamente. Mas se não se importam levo-vos comigo no coração. Nessw tal círculo tão bom. Para me manter quente e alimentado e sem sede. Vocês meus amigos são parte fundamental de mim e agradeço todos os dias por fazerem parte da minha vida.

São vocês grande parte do que sou.

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