5 de Abril de 2010
Continuo a viver surpreendido com as diferenças das culturas. Depois deste tempo aqui em Angola, que agora já somam cerca de quatro meses, continuo a sentir que não pertenço aqui. Na realidade, reconheço em mim parte da responsabilidade de não me entregar a este povo e a este país, mas ainda não encontrei uma forma diferente de estar.
O que vos relato a seguir é verídico. Aliás como tudo o que escrevo. Espero que vos divirta e que vos transmita alguma mensagem interessante. Farto-me de aprender com os meus próprios desafios e erros.
Há alguns meses atrás, quando descobri que vinha para cá na altura do aniversário da C. e do meu, fiquei triste. Não se podia fazer nada e acabei por aceitar a condição de que, pela primeira vez na vida, ao fim de 35 anos, estaria fisicamente longe dos que amo e estimo no meu aniversário.
Já aqui em Luanda fui pensando no que queria para o meu aniversário. Normalmente, peço sempre aos amigos os presentes que quero, não para me os darem, mas porque como amigo para mim é difícil escolher o presente certo, e se me disserem algumas coisas que querem, torna-se mais fácil.
Depois de algum tempo a pensar, e de estimar a minha fixação com fotografias, escrevi isto no meu blog: http://www.bernardoramirez.com/comunicacao/36-anos-proposta-para-todos/ Achei delicioso encher a parede de fotos de pessoas que conheço, melhor ou pior, e isso seria a minha maior alegria. A verdade é que descobri que o correio demora pelo menos 3 semanas, pelo que ainda não recebi carta nenhuma. Mas sei que há muitas a caminho, e até nisso estou curioso para saber quantas e como chegarão cá.
Uma ou duas semanas antes do meu aniversário fui jantar com uma amiga angolana. Já sabia que ela organizava festas, mas não pensei a forma como as coisas estão encadeadas. Nesse jantar comecei a falar das minhas dúvidas sobre o aniversário, e sobre o que deveria ou não fazer. Ela disse-me que me ajudaria a organizar a festa e combinamos fazer em primeiro lugar uma lista de pessoas, e que só depois disso iríamos combinar o que fazer.
Na segunda-feira seguinte, encontrámo-nos para almoçar e por coincidência, ou não, juntámo-nos muitos na mesma mesa: a N., o meu colega A., a minha amiga T. e uma amiga da N. que estava lá também.
Quando lhes apresentei a lista de convidados não deviam ser mais de 10 ou 12. Aqui ocorreu a primeira surpresa. Eles perguntam-me: “Mas queres fazer uma festa com 10 ou 20 pessoas? Isso não é uma festa.” O meu primeiro erro foi assumir os mesmos conceitos que em Portugal. Para eles festa é muito diferente da nossa festa de aniversário. Ou é mais concreto. Para eles festa significa 50 ou 100 pessoas, música aos altos berros, dança e tudo o mais… (julgo que semelhante às farras que costumo sofrer aqui na vizinhança).
Eu tentei explicar, que tinha pensado num almoço, algo sossegado, pouca gente, conversa. Que tinha pensado que para 10 pessoas se podia comprar 5 frangos e arranjar uns acompanhamentos, um bolo e estaria tudo bem. AHAHHAHAHAA Não consigo vos explicar o ar de surpresa deles. A olharem para mim como se não houvesse amanhã, a chorar a rir, toda a gente a rir. Até eu já ria. “Vais fazer uma festa com cinco frangos?” (durante dias o A. só me chamou 5 frangos). Ri como não ria há muito, numa mistura de humor com nervos. Mas afinal como é que se fazem as coisas aqui?
Não percebi qual era o humor. Mas a sensação com que fiquei foi que estava a cometer um erro grave. Mais tarde percebi três coisas. A primeira, que aqui quando se juntam as pessoas aparecem sempre muitas mais do que as que se convidaram. Segundo, que se confiasse mais no meu instinto teria saído a ganhar. Terceiro que o anfitrião não deve falar nem de comida, nem de bebida. Convida-se e pronto.
A verdade, é que depois da confusão desse almoço, apesar de ir convidar poucas pessoas, pensei que teria de me preparar para ter a casa invadida. Depois de muita conversa, decidiu-se que as mulheres iam trazer alguma comida, e os homens alguma bebida. Na realidade, eles aceitaram esta política na teoria. Depois na prática ninguém trouxe nada.
Mas o que ficou acordado era que eu ficaria encarregue da carne grelhada, dos acompanhamentos e das bebidas, ou melhor parte das bebidas. Porque os homens trariam mais. E as mulheres também trariam comida. Rissóis, molhos para o funge. Acho que era o que tinha ficado combinado.
Comecei a convidar as pessoas, e a explicar que seria um almoço, que não era uma festa, que era uma coisa simples e com pouca gente. Tinham-me dito para explicar isso a toda a gente, para não haver confusões, e que podiam trazer um ou uma acompanhante. Todos os convidados tinham sempre um comentário a fazer, mas a verdade é que me punha também a jeito. É muito cedo, tá muito calor, mas haverá comida suficiente, tens a certeza?
No meio do meu pânico crescente, tentei organizar tudo como pude. Duas idas a diferentes supermercados durante a semana para comprar suprimentos variados. Não vos vou aborrecer com detalhes excessivos. Mas digo-vos que para encontrarem o que precisam aqui é preciso ir a muitos sítios diferente. E com um trânsito é terrível. Outra coisa, a minha empregada ficou de fazer a comida. Mas dois dias antes da festa teve um acidente de táxi e ficou muito ferida. Liguei à N. e ela disse que arranjaria alguém para fazer a comida. E que eu pagaria depois pela comida. Expliquei que queria pouco coisa porque as pessoas iam trazer comida e já tinha comprado carne grelhada.
Pedi ao motorista e à colega J. para garantirem que havia água e gasóleo para o gerador e gasolina para o carro. Pedi a duas pessoas para trazerem grelhadores e a outra para trazer cadeiras de plástico. Como não há quase espaço aqui em casa, nem cadeiras, achei que pelo menos o máximo de cadeiras possível era útil. Combinei com a empregada de limpeza que viesse no sábado dar uma ajuda e limpar a casa. Ela combinou comigo vir bem cedo.
No sábado acordei às sete e esperei pela empregada. Fui tomar o meu duche matinal para descobrir que não tinha água. Sem água? No dia da festa? E limpar a casa? E a louça? E o que tinha pedido a toda a gente? Liguei para a J. que me respondeu o seguinte: “Liguei para o rapaz, mas ele não conseguiu arranjar água”. Pronto está bem. Pensei eu: E não me podias ter avisado, pensei, não podias ter tentado melhor? Liguei para várias pessoas, e o meu amigo L. acabou por arranjar alguém para trazer água rapidamente. Mas mesmo assim ia ser apertado, claro.
Às 10:30 a empregada ainda não tinha chegado, apesar dos meus repetidos telefonemas e das desculpas dela. Mas tinha que sair para ir buscar o meu colega A. que me ia ajudar. E aqui começou a corrida do dia.
Fui buscar o A. e o grelhador. Ainda não tinha garfos e facas e por isso fomos ao Jumbo. (cada frase destas são para aí 30 minutos no trânsito) O Jumbo estava intragável, não conseguimos. Viemos a casa. A empregada tinha aparecido, mas eu esqueci-me e deixei tudo fechado e por isso estava sentada sem fazer nada. (para não falar que não havia água claro) Fomos ao mercado de S. Paulo comprar talheres, um pilão, alho e cebola. Voltámos para casa. Ela ainda não tinha limpo nada. Fomos à rua do A. comprar gelo (sim, eu sei, nem vale a pena dizer nada). Voltamos a casa (30 minutos lembrem-se). Nessa altura chegou a água.
O almoço era suposto começar às 12, ou pelo menos o encontro das pessoas. Isto já eram bem 13 ou 13:30. E ainda ninguém tinha chegado.
A N. ligou a dizer para a ir buscar. Saí com o A. a caminho da casa dela. Perdi-me. Ao virar numa rua sem sentido voltei para trás em marcha-a-trás e bati contra outro carro. As senhoras bem simpáticas. Não parecia haver nenhum problema. Continuámos para casa da A. Chegámos lá para descobrir que íamos transportar comida para 50 ou 60 pessoas. Toca o telefone, eram as senhoras do acidente. Desculpe, mas a porta do carro não abre. Pode vir aqui ver. Lá fomos. Realmente não abria. Fomos a um mecânico perto. Negociámos o preço. E despachámo-nos de volta para casa da N.
Carregar o nosso carro, e o carro dela. Voltar para a cidade. Voltar a casa do A. para comprar mais gelo. O que comprámos não chegava. E finalmente voltar para casa com tudo. Quando chegámos já cá estava a T. e o L. A minha empregada tinha chamado uma prima para a ajudar, mas elas basicamente só tratavam dos grelhados. O resto estava tudo como tinha ficado. E não havia cadeiras. O escritório e a cozinha têm ao todo 6 cadeiras. Em Portugal, a malta sentar-se-ia no chão e como pudesse, aqui em Angola não é bem assim. Percebi que aqui só se faz festa se se tem dinheiro para a fazer. E cabe ao anfitrião garantir que há do bom, do bonito e do melhor para toda a gente. E se faltarem coisas é uma vergonha. “Quem não tem dinheiro, não faz festa!”
Na realidade, todos os meus convidados trouxerem apenas algum champanhe. Foi o presente que trouxeram. Nem sabia, mas pelos vistos, aqui só há uma marca de champanhe que bebem. Doce, sul-africano, só para as senhoras. Mais curioso ainda, as pessoas que sabiam do meu aniversário, no meu dia de anos, quinta, nem me deram os parabéns. Aliás a N. tinha ficado de cá passar na quinta, para me dar os parabéns e ver a casa. Para combinarmos da comida e tudo o mais. E apesar das minhas mensagens e telefonemas, até sábado ás 11 pensei que não ia ter nem N., nem comida para os convidados.
A partir das 16 horas, altura em que oficialmente cheguei a casa e até ás 22 horas, hora em que toda a gente se foi embora, estiveram cá em casa cerca de 14 pessoas contando comigo. Às 16 já estava cansado, sem paciência, e farto. Fiz o melhor que pude para garantir que as coisas corriam bem, falei com as pessoas, experimentei um pouco de toda a comida.
Mas não havia música, as mulheres ficaram dentro de casa a falar alto, e os homens vieram para fora falar de aventuras e mais não sei quê. Comemos um pouco e bebemos um pouco, mas nada de mais, Não houve dança, não houve confusão, não existiram penetras desconhecidos, nem grandes doideiras.
Houve muita comida, muita bebida, e acima de tudo muita despesa. Gastei muito dinheiro. Os detalhes interessam pouco, mas a estimativa são cerca de 50 dólares por pessoa.
No fim da noite, as pessoas levaram a comida, e a bebida. Ainda insisti em ficar com algumas coisas, e tive de reclamar com algumas coisas. Se não tinha ido tudo. Confesso que houve um instante em que tive medo que a festa durasse até às 5 da manhã, que se transformasse numa farra, ou que as pessoas ficassem apenas sentadas a falar até essa hora. E estes “amigos” não os podia mandar para casa…
Mas tudo se resolveu. A casa ficou um nojo. O fogão minúsculo estragou-se. No domingo foram só limpezas e ficar ainda mais doente, estava um bocado mal da garganta. Arranjei o fogão e tudo voltou ao normal.
Agora olho para tudo e descubro. A minha festa deveria ser a minha festa. Deveria ter a calma, a serenidade e a sabedoria de não me deixar conduzir para um terreno que não me sinto confortável. Que teria sido mais simples e muito mais económico levar as pessoas que gosto a comer, mesmo oferecendo o almoço a toda a gente.
Que tenho de confiar mais em mim e no meu instinto. E que quando não sei o que fazer, o melhor é não fazer nada. Assim, aprendo uma lição bem dispendiosa, e importante. Que me custa a reconhecer, mas que tem certamente os seus méritos.
Uns amigos dirão carneirão, outros dirão pateta, alguns chamar-me-ão aventureiro, ou ainda doido. A verdade é que, como disse um dia um amigo querido, às vezes precisamos de bater com a cabeça para aprender a lição. E esta deixou-me com um galo enorme.
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