Amor gastronómico

O meu amor é gastronómico. Prende-me pela barriga, pelo estômago, pelas tripas. Aliás o amor é tão gastronómico quanto a minha memória. Em mim tenho os sítios, as pessoas e os momentos presos de forma profunda à comida que já comi. E a memória das pessoas, das comidas, dos sítios e dos momentos aquecem-me o coração (e as tripas).

Podia falar-vos dos bifes com ovo, batata frita e imperial do Lebrinha em Serpa, durante os meus dias a trabalhar na Escola Secundária. Das línguas estufadas de vaca, que descobri em casa de uma amiga, e que queria sempre repetir. Das conquilhas algarvias que quase todos os sábados almoçava com a minha mãe em Faro. Dos choquinhos com tinta que comi com o meu pai, a minha avó Maria e a minha tia Luz num restaurante no interior do Algarve. Podia até contar-vos que me lembro da primeira vez que comi azeitonas. Onde estava e como foi a experiência.

E por aqui é assim: as memórias são engolidas com a comida e com a bebida e ficam registadas algures cá por dentro para sempre. E sempre na esperança de um dia voltarem a ser vividas, experimentadas, degustadas, sorvidas.

Amigas da barriga

Tenho com a R. e com a C. uma relação muito bonita. Já vivemos muitas aventuras e, durante algum tempo, trabalhámos juntos. Daquelas relações que começam por ser duas rectas e se transformam num triângulo.

Agora estamos longe. Uma em Portugal, outro em Madrid, e outra na Suiça. E, felizmente, no mar da distância conseguimos manter a ligação forte e viva. Graças também à tecnologia. E vamos vivendo e partilhando os nossos momentos, as nossas alegrias, e também as nossas refeições. Porque os três gostamos de comer.

Mas do que tenho mais saudades, e acredito que elas também, é do Horácio, Esteves e Justo, Lda., um pequeno restaurante, café ou tasca (não sei explicar bem), na esquina do Largo Camões. Não propriamente do lugar, mas de estarmos os três sentados, a comer bifanas com ou sem alho, uma imperial, uma chamuça, uma sopa de legumes, e o tempo. Porque o tempo também é de se comer, de se desfrutar.

A comer a alegria de estarmos juntos. Rodeados de petiscos e sabores e gostos e amizade. Ter um mil folhas de prazeres sobrepostos: a cidade que amo, a companhia que amo, a comida que amo, o tempo que amo, a vida que amo.

Tenho-as no meu coração: as amigas, as bifanas, as sopas, os carinhos, as conversas. E acima de tudo a certeza que qualquer dia lá estaremos de novo. A celebrar a alegria de estarmos juntos, vivos e de barriga cheia.

por Bernardo Ramirez

4 comentários em “Amor gastronómico”

  1. Aaaahhhhhh que saudades!! E as gargalhadas… tão nossas! E agora fico assim, com essas recordações e muitas mais e uma lagrimita nos olhos, que para além de tudo o que descreveste, eu como tu, sou das que gosta de regar as memórias! Ehehehehe! Muito obrigada por este texto e por dedicares um pouco do teu talento a homenagear a nossa amizade 🙂 Cada um numa ponta do nosso triângulo, gostei da imagem! Estou MUITO GRATA por vos ter na minha vida <3

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