Carta aos filhos

(aos meus principalmente, mas a todos em geral)

Está quase, meu filho. Ainda ontem eras um projecto e hoje tens quase forma. Durante muito tempo achei que já não serias uma realidade. Que esta vida não seria para ser pai. Que o tempo tinha passado e eu nem tinha visto. Mas enganei-me!

Vais chegar. A um mundo cheio de emoção, de dores, de aventuras, de coisas belas e de coisas feias. De desafios e de oportunidades. Um mundo de dualidades e dicotomias, mas o mundo que tu escolheste vir conhecer. E com os pais que escolheste para ti.

Sinto o peso dessa responsabilidade dentro de mim. No meu coração. E por isso, porque quero fazer o meu melhor, queria deixar-te uma espécie de manual. Um resumo guiado das coisas que considero mais importantes que aprendi até agora. Espero que um dia possas ler isto e que te sirva, se não de ferramenta para a tua vida, pelo menos de algo que te permita saber um pouco mais sobre o teu pai, e sobre o que considero valioso e importante.

Ama.

É o mais importante do mundo, amar. Mesmo que te digam que não. Mesmo que te digam que as pessoas não merecem. Mesmo que te digam que é um desperdício. Mesmo que esse amor não seja correspondido. Não acredites. O amor vale sempre a pena.

Na minha vida sempre amei. Com paixão, com generosidade, com entrega, com dedicação e, acima de tudo, sem complexos. O amor vale sempre a pena. O amor enche, o amor aumenta, o amor faz crescer e, acima de tudo, o amor transforma.

Claro que houve momentos de dor, de arrependimento. Mas o amor é a resposta para a grande maioria dos problemas desta vida. E nunca é demais.

Aprende.

Nunca digas que não a algo que te querem ensinar. Nunca percas a oportunidade de aprender. O conhecimento não ocupa lugar.

Quando fores mais novo, na escola, se gostares de aprender é possível que te achem um pouco chato, demasiado interessado na escola e no conhecimento. Que te digam que isso não está na moda e que faz de ti algo aborrecido. Mas essa curiosidade e vontade de aprender vai servir-te de muito, no teu futuro.. O mundo é quase ilimitado. E o que há para aprender também. E essa é a melhor forma de hoje seres mais que ontem. Aprender.

 

Sorri
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Sorri.

Aconteça o que acontecer tenta sempre sorrir. Não que seja fácil ou que o consigas fazer sempre. Todos nos sentimos tristes às vezes. Mas com um sorriso fica tudo melhor.

Sorrir aquece o coração de quem sorri e de quem vê sorrir. Tenta sempre encontrar razões para sorrir. Porque tu constróis a tua realidade. E se a fazes com sorrisos ela vai ser cheia de sorrisos. E o mundo, tão rico e diversificado, oferece-nos tantas oportunidades para sorrir.

Falha.

Não tenhas vergonha de não poder ou não conseguir. Falhar é parte fundamental da nossa vida. E é algo inevitável. Quem não falha não faz ou não vive.

O impossível foi sempre alcançado por quem não sabia que era impossível ou por quem estava convencido que conseguiria. O importante não é o que não consegues. O importante é lutares pelo que queres. É a força que tens para conseguires alcançar os teus objectivos.

E a vida é assim. Feita de vitórias e de fracassos. Mas o fracasso torna-nos fortes, e, acima de tudo, ensina-nos uma lição muito valiosa: o que não fazer.

Sê feliz.

Faz mais do que te faz feliz do que do que não te faz. Parece uma patetice, mas não acho que seja. Há muitos que não o sabem fazer ou que não o conseguem.

Nem sempre podemos escolher. Mas quando podemos então é melhor escolher o que nos faz feliz. E esta tarefa que parece tão simples é um desafio gigante. A maioria das pessoas, e eu incluo-me nesse grupo, tem problemas com a mudança e com a coragem. Mais ainda quando se juntam os dois: a coragem para mudar ou para não mudar.

Aprender a identificar o que nos faz feliz e executar essas acções ou comportamentos necessários é um dos grandes desafios da vida. O teu pai ainda anda as voltas com este.

Dá.

Sê generoso com o mundo e com as pessoas. Mesmo quando não o merecem. Mesmo que fiques com menos. O universo tem uma forma incrível de te devolver o que precisas quando precisas. Nunca ninguém ficou com menos por partilhar o que tem.

E é tão bonito transformar o mundo com pedaços do que somos e do que fazemos. Ver o sorriso de quem recebe e o calor de quem partilha.

Tu primeiro.

Coloca-te sempre em primeiro lugar. Não podes fazer nada pelo mundo, pelas pessoas, pelos amigos ou familiares se não tomas conta de ti primeiro. Tens de te conhecer, que te amar, que te estimar e que te cuidar antes que o possas fazer ao mundo.

O verdadeiro mistério da vida é o descobrir a fidelidade a nós mesmos. E sem esse conhecimento e respeito tudo o resto é impossível.

 

Viaja
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Viaja.

Viaja muito. Viaja sempre que possas. E nisto temos a sorte de termos uma família que partilha esse entusiasmo.

Viajar serve para duas coisas diferentes: para conhecer o diferente, e para colocar as coisas em perspectiva. Viajar permite perceber a nossa dimensão real. Que o que cremos, o que gostamos e o que sabemos não é nada mais nem menos que o de qualquer outra pessoa.

E para colocar em perspectiva porque quando vês o outro percebes que há sempre melhor e pior. Mais alegre e mais triste. Mais forte e mais fraco. Alguém um dia disse-me: há sempre alguém com um barco maior que o teu.

Além disso viajar é incrível. Cores, sons, sabores, imagens. Veres um buda gigante dourado em cima de um pedra grandiosa, mergulhar numas águas azuis transparentes banhadas por um sol de verão, comer um hambúrguer numa hamburgueria americana ou um sushi num japonês numa rua de Tóquio. Um mar de aventuras e experiências.

Come.

Para mim filho, não há nada mais fantástico do que comer e dar de comer. Para mim a comida é magia, é esperança, é alegria.

Lembro-me de quando comi pela primeira vez azeitonas, chocos con tinta, umas lulas à sevilhana, e churros de feira. Às vezes obrigo a tua mãe a percorrer quilómetros para irmos a um restaurante que ouvi dizer é fantástico. E se acontece estar fechado, posso tentar convencê-la a voltar (mas isso fica para outra história).

E ainda mais bonito que comer é cozinhar e dar de comer. Há algo de divino em receber e servir. Comida em especial. Todo esse processo alquímico, de transformar uma coisa em outra. Algo que preenche as pessoas, que as alegra e que as alimenta.

Tecnologia.

Não sei como vão ser as coisas daqui a 10, 20 anos. Desde os dias em que a televisão só se via à noite e a preto e branco até hoje, que vemos tudo em todos os ecrãs, já mudou tanta coisa. O telefone já teve uma roda com números que tinhas de girar para marcar um número de telefone. E os jogos vinham em cassetes, como a música (será que ainda vais saber o que é uma cassete?).

Como será? Não sei. Mas para mim a tecnologia está ao nosso serviço. Como tudo é uma ferramenta. E depende de nós o uso que lhes escolhemos dar. Por isso tenho muita reticência acerca dos que criticam a tecnologia, que a chamam perigosa, má. Aqueles que temem o futuro e preferem voltar ao passado e por de parte o que se evoluiu naturalmente.

Eu adoro a tecnologia filho. Adoro! Gadgets, aparelhos, maquinitas, geringonças, e adoro ver a possibilidade do futuro. E o que se consegue fazer com o que existe e com o que se imagina irá existir. E descobrir sempre passos novos e novas possibilidades.

 

Canta
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Canta.

Quem canta os seus males espanta. Quem me conhece sabe que levo isso ao extremo. Extremo da alegria para mim, e ás vezes, extremo do incómodo para os outros. Canta como se não houvesse amanhã. Canta como se ninguém te estivesse a ouvir.

Ao teu pai já lhe chamaram Juke Box humana. Basta dizer uma palavra, e lá começo eu a cantar a música que a minha memória guarda. Tantas vezes fora de tempo, de ritmo, de tom ou de letra. Mas cheio de alegria.

Faz parte de tudo e da vida. Expressa a multiplicidade de forma única e ensina-nos sobre o mundo, a natureza humana, a nossa alma. A música é algo verdadeiramente belo.

Faz parte.

Filho, aconteça o que acontecer, tenta fazer parte. O mundo só se muda por dentro. Fugir do que existe não muda o mundo. Cria alienação. Muitas vezes tive o desejo ardente de fugir. De criar uma comunidade isolada do mundo onde tudo é lindo e perfeito. Onde se pratica só o bem e o amor. Mas isso não é responsabilidade social e não é amor pelo mundo e pelas pessoas. É fugir e esconder e evitar os desafios de estar vivo.

 

Em forma de conclusão digo-te. Aquelas pessoas que te vierem dizer que as pessoas não prestam, que os animais é que são bons, que a humanidade está perdida, que os seres humanos não merecem viver só estão um pouco equivocadas e não vale a pena ligar com muita atenção.

Filho, é isto. Um resumo simples e simplista do que move o teu pai. O que eu aprendi até hoje. As coisas que correm bem e os desafios que sinto todos os dias. Mas se não tiveres paciência para ler isto tudo, e quiseres ainda um resumo mais pequeno do que é para mim viver, eu digo: as pessoas. Não há nada mais bonito, mais incrível, mais complexo e mais singular que as pessoas. Aprende a conhecer as pessoas e o mundo será teu.

Do teu,

Pai

 


Bernardo Ramirez
www.bernardoramirez.com
“Escrevo coisas, gosto de pessoas, procuro ligações com sentido”

Escrito a 4 de Dezembro de 2017, para celebrar a chegado do nosso filho Gabriel

Um comentário em “Carta aos filhos”

  1. Meu filho, que bom confirmar através deste delicioso texto, a tua forma de estar no mundo ! Concordo com tudo e fico muito feliz por teres pensado em passar este testemunho de vida a todos os que te vierem a ler. Obrigada.

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