Os pais cretinos são uma merda

Pais Cretinos

Desculpem.

Não sou sempre assim. Aliás, esta já é a versão 2.0 do texto. Inicialmente tinha feito uma versão muito centrada no género masculino, mas achei justo e mais consistente incluir também o género feminino nesta reflexão e assim vai.

Ultimamente tenho visto muito desta coisa “maravilhosa” e que me incomoda profundamente: Pais (mãe e pai) que têm um filho (acidental ou intencional) e que por uma razão ou por outra não assumem as suas responsabilidades e obrigações. Ou aceitam realidades e condições que não só os prejudicam profundamente como também ensinam uma lição terrível aos seus filhos.

Sim porque não é o que dizemos que eles aprendem. É o que fazemos.

Infelizmente a razão principal deste fenómeno parece ser ou por visão retrógrada, por falta de educação, ou por falta de vontade.

Essas pessoas terrivelmente idiotas invocam argumentos clássicos, que todos já ouvimos centenas de vezes: “Preciso de dormir”, “Ele amanhã ajudará mais”, “Ando muito ocupado”, “Coitado, ele trabalhou todo o dia”, “Tu que estás em casa tens de fazer isso”, “Um homem não faz essas coisas”, etc, etc, etc.

Dá-me um nó no estomago. Em nome de todas as crianças que serão adultas, de todas as crianças que vão ter um modelo disforme do que deve ser uma família. Fica em mim a revolta, a raiva em assistir a como tradicionalmente os homens se dissociam de uma obrigação e responsabilidade que é sua e de como as suas mulheres aceitam e se acomodam a esse modelo sexista e esclavagista.

Vamos ser claros. Acidental ou intencionalmente, a criação de um ser vivo é responsabilidade de duas pessoas. Em quantidades exactamente iguais. E independentemente do que se passe no futuro, e do que aconteceu no passado, essa responsabilidade é eterna. Ou até que o pai ou o filho morram.

Isso para mim significa que, em casa, no trabalho, por todo o lado, o pai tem a obrigação de partilhar as responsabilidades com a mãe. Tem de estar atento e disponível – mesmo que a enorme custo pessoal – para acompanhar, para ajudar, para fazer tudo o que o filho ou a mãe precisarem. Especialmente nos primeiros meses e anos de vida.

E a mãe tem a obrigação de exigir. De pedir e de não aceitar qualquer coisa menos que um sim. A obrigação de ser firme e implacável na luta pelos seus direitos e pela sua saúde. Porque todo o seu bem-estar será espelhado na vida, ou melhor, na qualidade de vida dos seus filhos.

A mãe tem o trabalho de cuidar do(s) filho(s). O filho tem o amor pelo colo e pelo peito materno. E isso é insubstituível. Então o pai tem de fazer o resto. Limpar, cozinhar, cuidar, comprar, ir e voltar. O pai tem de fazer o esforço sublime de colocar o bem-estar da sua família em primeiro lugar. Antes do emprego, antes do desporto, antes dos amigos, antes do comodismo. E a mulher tem de exigir esse esforço.

É chato? É uma merda? É cansativo? É frustrante? Sim, muitas vezes pode ser. Mas isso não impede nem muda a responsabilidade que o pai e a mãe continuam a ter. Numa família de um pai abusador há uma mãe que se deixa abusar. Numa família de um pai acomodado há uma mãe que faz tudo por todos. Numa família onde há um pai ausente há uma mãe que compensa com presença em excesso.

Como é possível que um pai, à sua mulher grávida de nove meses, diga que não pode ajudar enquanto está sentado em frente à televisão deixando a mulher fazer tudo e ainda cuidar dele?

Como é possível uma mulher aceitar que com um filho acabado de nascer, o pai decida ir fazer uma actividade extra por dia, que aumenta a sua indisponibilidade em casa, e para ajudar?

Como é possível que um pai queira ter mais filhos e o exija à sua mulher mesmo que não faça nada para ajudar com as lides da casa ou com os filhos?

Como é possível que a mulher aceite ter mais filhos quando fisicamente já atingiu o seu limite e está num estado profundamente depressivo ou no precipício?

Como é possível que o pai seja um pai de fim de semana, ou de dias de festa, ou de levar ao futebol, mas que em todos os outros momentos se afaste e seja indiferente?

Como é possível que a mãe, por diferenças pessoais ou problemas relacionais com o pai, aceite cobrir e fazer tudo o que o pai não faz, convencida que é para garantir o bem-estar do seu filho?

Nós, pais (do género masculino) deste mundo temos o dever moral, o imperativo categórico de cuidar, ensinar, fazer, abdicar e sacrificar. O filho também é nosso.

Por isso peço aos pais e às mães que não mais aceitem este ‘status quo’ ridículo. Que digam não ao abusos e à preguiça e que digam sim à família e aos filhos. E que, ainda mais importante, sejam cuidadosos na produção de novas vidas e na escolha de com quem as produzem.

Bernardo Ramirez
www.bernardoramirez.com
“Escrevo coisas, gosto de pessoas, procuro ligações com sentido”

The blaming game

Maturity in love and the ability to evaluate relationships are difficult skills. Looking at the people in my life, and in my own personal experience, a lot of times I am faced with the realisation that I have failed in both.

Love demands dedication but also knowledge. Mainly about one self and their own qualities and limitations. But also, a kind of childish trust and confidence that allows a complete presence and commitment to that relationship.

Evaluating relationships demands above anything else maturity and the ability to put everything into perspective, and specially, our own flaws and limitations. Evaluate is a system of checks and balances. And for that, you need to see your qualities and flaws, but also the other persons. And with that arrive to a conclusion.

One of the saddest things I noticed in relationships is the blaming game.  A lot of people, and I include myself, expresses disappointment in their actual or ex-partner, in an old or new friend, exactly the same way. And always the same point made is: she has tricked me, he has disappointed me, she has betrayed me or he has lost my trust.

And these comments are made about people that once meant everything to us. That we have known for a long time. Sometimes years and decades. Even about people we have shared our bed and personal moments and life.

Like we were fooled or tricked into believing that some part of that person existed when the reality is that it was all an illusion. Like those people had transformed from the person they pretended to be into a real person that has nothing to do with that first impression. And, of course, this new person Is in reality evil, bad, unscrupulous, cheating or terrible.

But, as a matter of fact, people change a lot less then we think. And even more so if we are talking about their nature. People are people. Caring people are caring, suspicious people are suspicious, happy people are happy. Even If sometimes they are not.

So, if we find something we don’t like about that person, that we had never seen before, the most important questions are: why we didn’t see it or we didn’t want to see it?

Both of these questions focus on the very important topic of self-love and the desire to be loved.

It is amazing to see the extent that we go to feel accepted. To feel loved and welcomed. And how, when that fails, it is immediately someone else’s fault and failure. This is probably the most abyssal desire of everyone: to be seen and loved.

When that fails for any reason, then the solution seems to be to cut the problematic relationship to absolute zero. And by that, removing people that were fundamental in our lives before, just because we feel betrayed and cheated. Sometimes to the cost of other relationships, like sons, parents, and friends.

But I am here to tell me and you that the person we should blame is our self. We should all ask what we expected from that person and why that has failed. How, knowing that person so well, did that behavior disappoint so much.  And why we didn’t see it or, if we did, hoped it was an illusion.

Off-course that are situations that truly deserve this kind of radical cut. But those are very rare situations. And sometimes the only thing that is truly needed is a healing period, with some distance, to clear the air, to heal the wounds, and to learn and grow, so that then we can continue to build that relationship. Even if in a completely different direction from before.

So, let’s remember that most of the times, maybe, and just maybe, we are the ones that need changing and correcting. That we are the ones that where blind or refused to see. That we are the stubborn ones. And because of that, we are the ones that need to develop skills and abilities.

To analyse, to understand, to accept, to forgive, to love and to include.

O princípio da proporcionalidade

Como todos sabemos a grande magia e o grande desafio da nossa existência são as relações humanas e, em mais detalhe, as relações amorosas. As pessoas gostam de falar de amor, de sentimento, de emoções, de paixões e desejos, mas esquecem-se muitas vezes do ponto central de todas as relações: a proporcionalidade.

Sou, como somos todos, um especialista em relações. Não pela qualidade ou pelo sucesso das mesmas, mas porque estando vivo tenho muitas. E, por outro lado, as relações humanas são algo que me fascina e apaixona.

Da minha observação e análise chego à conclusão que a grande maioria das pessoas escolhe iludir-se ou enganar-se no que toca às relações humanas. Isto porque utilizam como factor determinante, para o sucesso das mesmas, critérios que são absolutamente inúteis na avaliação dessas mesmas relações.

Amor: toda a gente gosta de falar de amor. “Eu amo-o”. “Mas ela ama-me”. ”Eu sinto imenso amor”… etc, etc, etc.  Na verdade, o amor é um sentimento fundamental, mas não é fundamental para o sucesso das relações. Todos nós já presenciámos na nossa vida pessoas que amam apaixonadamente ou dedicadamente alguém que as ignora, despreza ou até mesmo que é cruel com elas. Muitas vezes digo e penso que o amor não chega. Pelo menos para o sucesso de uma relação entre duas pessoas.

Desejo: o desejo é um dos motores da vida. “Eu quero isto”. “Eu desejo aquilo”.  “Aquela pessoa deixa-me doido”.  Essa energia tão quente e tão forte, muitas vezes vai-se embora tão rapidamente como surge. E não é necessária, nem muitas vezes útil, a uma relação. Ainda mais porque como nos ensina o Taoismo, no momento em que conseguimos o que desejamos, deixamos de desejar e passamos logo a desejar a próxima coisa.

Fidelidade: este é outro ponto sensível.  Muitas pessoas crêem que a fidelidade é fundamental ao sucesso das suas relações. Tanto que se dedicam a destruir e a arrasar relações por não terem cumprido esse requisito. Mas ao mesmo tempo, todos nós conhecemos relações onde existiu infidelidade (assumida ou não) e que não foram razão para o fim da relação. Podem dizer que a qualidade dessas relações não podia ser grande por se basear numa mentira. Mas, mesmo relações que assumem espaço para uma diversidade de relações dentro da mesma relação, continuam a ter problemas e desafios relacionais.

Existem muitos outros factores que as pessoas identificam como fundamentais e garantes da qualidade das relações amorosas. Esses factores parecem, em minha opinião, ser de pouca eficiência e não olham para o fundamental.

O principal das relações, sejam amorosas ou não, é a proporcionalidade. A proporcionalidade é a única garantia de uma relação de longo prazo tranquila, amorosa e bem sucedida.

E o que quero dizer com proporcionalidade? Uma justa distribuição de tarefas, de responsabilidades, de afectos, de atenção, de amor.

Quantos de nós não tivemos relações com pessoas que não nos ligavam, que não nos davam atenção, que não expressam o amor. “Mas é porque sou assim”. Para depois descobrirmos que afinal nos sentíamos usados por alguém que não se envolve. Ou cansados de alguém que quer sempre mais de nós.

É muito bonito dizer: “Mas eu gosto de ti, eu penso em ti, tu és importante para mim.” Mas a verdade é que isso não vale nada sem acções. A proporcionalidade exige um acto consciente. Uma intenção e um movimento.

Porque por muito que tenhamos coisas dentro de nós, na construção de qualquer relação, o outro só consegue identificar o que vê e o que sente da expressão do que fazemos e mostramos.

A falta de proporcionalidade é terrível e mata as relações. Homens ou mulheres distantes numa relação amorosa. Amigos que nos dizem que precisam de espaço ou não respondem aos nossos pedidos e solicitações.  Isto não é por crueldade. Não é porque a pessoa seja má ou não goste de nós. Acontece apenas porque não estamos nessa relação num ponto de equilíbrio. Entre o dar e o receber.

Podemos desejar, amar, querer o outro. Mas se estamos sozinhos, se somos sempre nós, então estamos sozinhos numa relação que é de duas pessoas. Ou porque somos de mais ou porque o outro é de menos, ou porque não é para ser, ou porque não é o momento.

Mas a proporcionalidade é um sinal muito bom da saúde da relação e do seu possível futuro. Como a sua ausência é muito mau sinal.

Então, e por isso, eu tento praticar a proporcionalidade nas minhas relações. Isso implica que muitas vezes tenho de parar e dar um passo atrás. E, quem me conhece, sabe como isso é difícil para mim. Parar e olhar e esperar e avaliar. Para que a relação cresça de forma saudável.

É esse o exercício. O de colocar tudo na balança e de avançar ou retroceder conforme o necessário.

Claro que a proporcionalidade não tem de ser matemática, nem sincronizada. As coisas mudam e variam. Um dia podemos ser nós, no dia seguinte o outro. Mas se são sempre vocês, se são só vocês, se o tempo passa e nada muda, tudo isso são muito maus sinais.

Por isso vamos aprender a praticar a proporcionalidade. Vamos medir o nosso compromisso contra o compromisso do outro, a nossa dedicação em função da do outro. E esperar uma relação o mais equilibrada possível, e não aceitar o futuro possível e provável da mesma, sem que tenhamos uma voz activa e uma partição nesse mesmo futuro.

Parenthood and equality

Gender equality issues are profound and debatable. When I look at our society it is easy to realize the large number of situations were women are still treated with injustice, inequality and prejudice and that breaks my heart.

I am not radical or extreme concerning equality. More even, I believe both women and men have different characteristics and roles to play.  And that doesn’t increase or decrease their value. Also, today, as never before, roles can be reversed and changed without that implying an undervalue to either genders.

I am one of those men that always imagined myself as a parent, and even more as a stay at home dad. I can easily see, smiling, the possibility of working from home, taking care of my kids, walking the pets and cooking for the family, taking care of the garden, the plants and the people.

Now that I am a parent it is even harder to leave to go to work and realize that I am away for so many hours from the being that matters the most to me. And also doing things that I can only see as partially important.

What I didn’t know, and had no notion, is how much fatherhood and motherhood are unbalanced socials roles but surprisingly benefiting the mother side.

I want to be perfectly clear: for me it is unquestionable the importance of a mother to a kid or a baby. And that, even if a man dreamed about it, we will not be able to replace, especially in the first years, the founding and fundamental role of the mother.

But at the same time for me it is extremely sad to see how the world regards the role of the father.

It is hard for me to comprehend how some parents live peacefully with the distance toward their children, how they can accept that a mother has a 6 months maternity leave and the father has one. “A father is not that important.”, I have heard people say. Or accept that a mother decides about their children unilaterally.

It is both sad and ridiculous to accept that a father doesn’t get involved, doesn’t participate, doesn’t commit himself. Or even more, if the father wants, desires or has the intention that space, or time or the necessary conditions are given to do it.

This happens also in court decisions (at least in Portugal). In a large majority of cases, at least a few years back, child custody was given exclusively to the mother, without concern or care about the ability, desire, intention or right of each of the parents.

Our son

The birth of our boy was anticipated by three weeks with all the anxiety and related stress. Arriving to the hospital it became obvious to me that the father has a very small role in the birth and post birth of their own child.

The room where my wife was preparing to give birth had a bathroom that only she could use. What about if, in the five days we spent in the hospital, I needed to take a shower? You can’t. And if I need to use the toilet? There is one on the other side of the hospital for visitors.

Ok. So, while I was in the toilet, my son was born with an emergency C-section.

And when I arrived in the hospital room, after my long voyage to the bathroom, there was no wife, no son, no doctors, no nurses, no midwife, nobody. And the following conversation is exactly what happened:

“Where is my wife and son?” I asked in the reception that was just in front of my wife’s bedroom.

“Who is your wife and son?” asks a very rude nurse.

“What do you mean who is??? The one that was just here in this room!” I say getting very nervous.

“But who are you???” Asks the nurse while I start feeling that I was in the Twilight Zone.

“What do you mean who am I???? I am the father and husband of the women that was in this bedroom just ten minutes ago. Are you kidding me?!?!?!?!”

“But nobody notified you???”

And then they realized that no one had spoken to me. That I had to be moved to the C-section zone. That my son was going to be born in minutes. And they didn’t explain anything else.

The stupid nurse started telling me what to do. But I was already mad insane. I tried going in to the room she was pointing to. She yelled at me. She said I had to stay there, and pointed to a tile on the floor. And that I shouldn’t go inside the room. I started walking around being super nervous. She came back to tell me I couldn’t walk around in that hall and that I needed to remain in that specific tile.

Well. What is important is that everything went well. Baby and mother showed up and were looking ok. It was just very stressful minutes of anguish and lack of respect for the father and its role.

Besides this, in the four nights I slept in the hospital I had to do it in a reclining chair with zero comfort. Always invited to exit the room when something needed to happen with my wife or the other female in the room. And if I was sleeping at 5 in the morning who cares???? Wake up and get out I told you already.

Priorities

Can’t really understand the behavior. But it is what it is. The man is optional, not important, Because of tradition, culture or because of the rules.

But I will do mt best to change that. In our house it is our son. We decide everything together. And we divide all our tasks. There are no tasks just for me or just for her. But, because in this situation the mother has to tend to the child and breastfeed all day long I try to do everything else to promote well-being for all at home.

I change diapers, cook, clean the house, wash dishes and clothes, I walk the dogs. And all this is normal and good.

But it is this preconception that I talk about. As it is unfair for a man to have better wages then a female in the same role, it is unfair to assume that a man does less or is less in relations to his children.

In a world where we want to promote development and equality we need to be careful with our prejudices and stereotypes.

I am father. It is a right acquired the moment my son was born. And the fatherhood is 50 per cent. Like the mother is another 50. And only respecting that balance can we hope for a healthy development of children.

OUR children.

Quem é esta criança no berço?

Durante os meses da gravidez existia em mim uma questão permanentemente no fundo da cabeça: como me vou sentir quando vir o meu primeiro filho pela primeira vez? Como será a aventura da paternidade?

Todas as pessoas tinham opiniões, mais ou menos, diferentes: a tua vida vai mudar;  vais sentir coisas incríveis; vais chorar que nem uma Madalena arrependida;  vais sentir um amor gigantesco; vai ser muito estranho e esquisito.

Sabia, desde o princípio, que a Cecília tinha uma tremenda vantagem. O facto do bebé estar a crescer dentro dela significava que ela já estava a estabelecer relação com ele desde o princípio. Quando queria dormir 20 horas por dia. Quando conseguia estar doce e meiga e no mesmo minuto furiosa. Quando chorava por razões que nem entendia. Quando via a barriga dela em movimentos involuntários, ou sentia coisas no corpo que nem podia explicar. Tudo isso eram acontecimentos que mostravam como o vínculo entre os dois era inquestionável e que já tinha começado.

O meu papel, durante esse tempo, era tentar, em tudo, ajudar, ao mesmo tempo que continuava a imaginar e idealizar o futuro com o Gabriel. Até porque ser pai sempre foi um sonho meu. Um sonho que cheguei a pensar que nunca concretizaria. Sonhar em tê-lo nos meus braços, em ver os seus olhos, as suas mãos e pés, em ouvi-lo a rir e a chorar.

Muitas coisas também mudaram para mim. Passei a sonhar muito com crianças. Antes, a única criança dos meus sonhos era eu. Depois passaram a aparecer imensas crianças quase todas as noites. Mas esse vínculo poderoso com o meu filho, esse amor gigante, não posso dizer que sentia.

Sempre achei que quando o meu filho chegasse, e saísse jorrando de dentro de sua mãe, iriam jorrar em mim toneladas de metros cúbicos de lágrimas comovidas. Dizia, meio a brincar, que ia colocar uns tampões nas bochechas para não inundar o quarto do parto.

Mas a vida é assim, cheia de surpresa e vontade própria. Acabou por não ser assim. Não assisti ao parto e a primeira vez que vi o bebé, alguém teve de dizer-me : “Este é o seu filho Gabriel!”. E esse foi o momento de apresentação formal. Dois seres que nunca se tinham visto serem apresentados por uma desconhecida. E, naquele instante, mais que alegria, foi uma enorme sensação de alívio, de serenidade, por ver que ele estava ali, bem e saudável. E que apesar do parto contrbado agora tudo estava bem.

Ele chegou e muito rapidamente teve de ir de novo. Foram instantes. Uma fração de segundos. E depois eu fui ter com ele e a magia da relação a dois entre nós começou. Fiz a famosa pele com pele e estivemos ali os dois a conhecer o que é partilhar a nossa vida para sempre.

Eu estava encantado e apaixonado por aquele mini ser maravilhoso e muito pequenino. Mas não sentia nada daquelas coisas que as pessoas me tinham vendido nas revistas cor de rosa. Ou que eu estava convencido que deveria sentir.

Também não estava nada preocupado. Apenas curioso.

E foi então que me lembrei. Uma coisa que uma senhora me disse uns dias depois dele nascer. E que cada vez ressoa mais em mim: “O amor incondicional e gigante, aquele imenso espaço que os nossos filhos ocupam em nós não surgiu, pelo menos para mim, no momento do nascimento. Pelo contrário, começou pequeno e tímido. O amor foi crescendo. Com cada olhar trocado, com cada abraço, com cada toque nas mãos ou nos pés, com cada sesta nos braços, com cada momento de carinho…”

E é mesmo assim que sinto. O amor do pai é crescente. Vai crescendo como a relação com o filho vai crescendo. Cada vez que o beijo. Cada vez que lhe cheiro o cabelo ou o pescoço. Cada vez que se encolhe com alguma malandrice que lhe faço. Ou cada vez que o tenho nos meus braços. Sinto o meu amor crescer. Crescer, fortalecer-se e expandir.

E é incrível esta sensação.

Paternidade e igualdade

[You can read it in english here]

A questão da igualdade de género é profunda e polémica. Quando olho para a sociedade actual e vejo a forma como ainda, em tantos sítios, as mulheres continuam a ser tratadas com injustiça, com desigualdade e com preconceito não consigo deixar de sentir uma profunda tristeza.

Não sou radical na questão da igualdade. Aliás acredito que, tanto os homens como as mulheres, têm características e papéis distintos. O que não os faz ter maior ou menor valor. Além disso, hoje em dia, mais que em qualquer outro tempo ou lugar, os papéis podem inverter-se e mudar sem que isso signifique um desmérito para nenhum dos géneros.

Sempre fui dos que se imaginou como pai, mas mais que isso como dono de casa. Vejo com facilidade e com um sorriso a possibilidade de trabalhar desde casa, de cuidar dos filhos, de passear com os animais de estimação e de cozinhar para a família, de cuidar do jardim, das plantas e das pessoas.

Agora que sou pai ainda me é mais difícil vir trabalhar e perceber que estou longe durante tantas horas do ser que mais me importa. E a fazer coisas às quais encontro só uma importância relativa.

O que não sabia, nem tinha noção, é do quanto a paternidade e a maternidade são desiguais, mas no sentido do favorecimento do papel da mãe.

Quero deixar claro que tenho perfeita noção da importância da mãe para qualquer criança e bebé. E que, por muito que um homem sonhe, não poderá substituir, principalmente nos primeiros anos de vida, o papel fundador e fundamental da mãe.

Mas ao mesmo tempo fico de coração partido pela forma como mundo gere a paternidade.

Não consigo entender como há pais que convivem com tranquilidade à distância dos seus filhos, como aceitam que uma mãe tenha seis meses de licença de maternidade e o pai tenha um. “Porque o pai não faz assim tanta falta.”, já ouvi dizer. Ou aceitar que a mãe tome decisões sobre o filho de forma unilateral.

É triste e ridículo aceitar que o pai não participe, não se envolva, não se comprometa. Ou que, mesmo quando tenha essa intenção, vontade e desejo não lhe seja permitido o espaço,  o tempo e as condições para o fazer.

Isto acontece até com os tribunais. Na grande maioria dos casos, até há uns anos atrás, a tutela dos filhos era dada à mãe, sem preocupação ou cuidado sobre a capacidade, desejo, vontade ou direito de cada um dos pares.

O nosso filho

O nascimento do nosso filho foi precipitado em três semanas  com todas as ansiedades e nervos que isso acarreta. E chegados ao hospital ficou claro que o pai não tem importância quase nenhuma no processo do nascimento e do cuidado pós-parto.

O quarto onde estava a minha mulher a preparar-se para dar à luz tinha uma casa de banho que era de uso exclusivo para ela. E se durante todos estes dias que vive no hospital quiser tomar banho? Não pode. E onde pode o pai ir fazer as suas necessidades biológicas? Há uma do outro lado do hospital para visitas.

Ok. Enquanto fui à casa de banho o meu filho nasceu de cesariana de urgência.

E quando cheguei ao quarto, da longa viagem para a casa de banho, não estava nem a minha mulher, nem o meu filho, nem médicos, nem enfermeiros, nem parteira, nem ninguém. E a conversa seguinte é real e aconteceu:

“Onde está a minha mulher e o meu filho?” Pergunto eu na recepção que ficava de frente para o quarto.

“Quem é a sua mulher e o seu filho?” pergunta-me uma enfermeira super bruta.

“Como quem é??? A que estava ainda aqui e agora neste quarto.” Digo já a ficar bastante enervado.

“Mas afinal quem é você???” Pergunta-me a enfermeira  enquanto eu sentia que tinha entrado na Quinta Dimensão.

“Como quem sou eu? Eu sou o pai e o marido da mulher que estava neste quarto. Está  a gozar comigo??!?!?”

“Mas ninguém falou com você???”

E pronto, depois lá perceberam que ninguém me tinha dito nada. Que tinha de ir para a zona das cesarianas. Que o meu filho ia nascer em minutos. E não me explicaram mais nada.

A estúpida da enfermeira estava a dizer-me o que fazer. Mas eu estava doido. Tentei entrar na sala para onde ela apontava. Gritou comigo. Disse que tinha de ficar ali a apontar para um azulejo. E o que a sala não era para eu entrar Eu comecei a andar de um lado para o outro super nervoso. E ela ainda voltou para trás a dizer que não podia andar naquele corredor e que tinha de ficar ali, naquele sítio, naquele azulejo.

Enfim. Tudo correu bem e o bebé e a mãe apareceram bem. Foram só minutos de muita angústia e de falta de cuidado pelo pai.

Além disso, nas quatro noites que estive no hospital dormi sempre numa cadeira que funcionava como espreguiçadeira. Zero conforto. Sempre convidado a sair quando se tinha de fazer algo à minha mulher ou a outra mulher que estivesse no quarto. E se estivesse a dormir às cinco da manhã que importa?!?!? Acorde e saia já lhe disse.

Prioridades

Não consigo perceber bem. Mas é assim. O homem é facultativo e pouco importante. Pela tradição, pela cultura e pela norma.

Mas eu não quero ser assim. Na nossa casa é o nosso filho. Decidimos a meias. E fazemos tudo a meias. Não há tarefas de um e tarefas de outro. Mas neste caso, já que a mãe está presa a dar de mamar o dia inteiro eu tento fazer tudo o resto para proporcionar o máximo bem-estar.

Eu troco fraldas, eu faço comida, eu limpo a casa, eu lavo a roupa, eu passeio os cães. E isso é normal e bom.

É deste preconceito que falo. Tal como é injusto que um homem ganhe mais na mesma posição de uma mulher, é injusto assumir que um homem faz menos ou é menos em relação aos filhos.

Num mundo onde queremos promover o desenvolvimento e a igualdade temos de ser cuidadosos com os preconceitos e os estereótipos.

Eu sou pai. É um direito adquirido a partir do momento em que nasceu o meu filho. E essa parte da paternidade é 50 por cento. Como a da mãe é outro 50. E só do respeito por esse equilíbrio se pode esperar um desenvolvimento saudável das crianças.

Das NOSSAS crianças.

Fui ali morrer, mas já voltei

Fui ali morrrer, mas já voltei

“Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia.”

Hamlet

Voltei, fui ali morrer, mas já voltei.

Estava bem. E de repente deixei de estar. Num momento estava a caminhar pelo parque, com a E. e com o Pong. E no outro estava entubado e deitado numa maca meio inconsciente e a sentir-me terrivel.

E agora estou bem. E pronto para viver mais e melhor. Assim é a vida, cheia de mudança.

A morte é assim. Assombra-nos, mas transforma-nos, se a deixarmos.

Descobrimos a fragilidade da vida. E a nossa insignificância. E a nossa giganteza.

É só deixar essa morte, que transforma, transformar-nos. E aceitar que o que vem é melhor do que o que foi. É sempre assim. Enquanto há caminho, temos de o caminhar.

Estava vivo. Mas agora estou mais!

Foram preciso muitas lágrimas. Medo. Temor. Solidão.

E descobrir que tudo podia acabar. Chorar por perceber que ainda queria viver tanto e fazer tanto e que podia não chegar lá.

E aceitar isso.

E muito amor de todos os que me rodeiam. E em especial da E. e da Cecília, ao vivo e a cores. E da minha mãe, do meu pai, e de todos os que estavam longe e perto ao mesmo tempo.

Morri. E renasci. Tenho sorte.

E com a minha morte descobri um pouco mais sobre mim. Sobre a minha fé. Sobre o que importa. Sobre o quanto amo as pessoas da minha vida, e em especial a Cecília.

E o quanto ainda tenho para fazer. E o tanto que quero mudar e levar-vos comigo nessa viagem.

A morte não é o fim. É um convite a uma mudança que é inevitável.

Tudo muda. E se queremos o melhor temos de aprender a dançar. Porque a vida é uma canção. E todos podemos escolher. Ficar sentados; bater o pé; ou dançar alegremente.

PS: Há muito tempo disseram-me que para ser um bom terapeuta era necessário olhar de frente para a nossa própria morte. Talvez este seja mais um passo importante nesse processo.

Descoberta da expressão da vontade

A descoberta da expressão da vontade

Durante muitos anos na minha vida acreditei seriamente que era falta de educação e abuso expressar a minha vontade. Quando me perguntavam o que queria, se preferia isto ou aquilo, se gostava ou não, tinha sempre a tendência para dizer: “tanto faz”, ou “o que acharem melhor”, etc.

E ainda mais, recusava sempre os presentes que me tentavam dar. A minha avó tinha-me ensinado que era falta de educação e que devíamos sempre recusar o que nos oferecem por humildade e modéstia. Continuar a ler “Descoberta da expressão da vontade”

Caro Whatsapp

Caro Whatsapp

Caro Whatsapp,

Em primeiro lugar queria agradecer-te. Graças a ti mantenho o contacto regular com tantas pessoas que são importantes para mim. Claro que também com alguns pouco importantes.

Sim, já houve outros como tu, que pretendiam o mesmo, e que serviram o mesmo propósito. Mas tu, com a tua cor verde, com a tua estrutura simples, consegues alegrar a vida de tanta gente, e a minha também. Continuar a ler “Caro Whatsapp”

Senhor do meu destino

Senhor do meu destino

Uma das grandes perguntas que sempre me tenho feito ao longo da minha vida é: sou eu o dono e senhor da minha vida? Isto quer dizer que sempre me preocupo com a possibilidade do destino e do livre arbítrio.

Durante muito tempo me perguntei se o que me acontecia era fruto de alguns factores aleatórios ou se era algo predestinado. E, mais ainda, se o meu comportamento e reacção já se encontravam predestinados. Continuar a ler “Senhor do meu destino”