Curvas

Num mundo cheio de rectas sou um homem de curvas. Sempre fui. Das curvas que se vêem, e se sentem com os dedos ou com a língua sequiosa. Sou daquelas curvas que aquecem, que enternecem ou que apaixonam. Das curvas que se saboreiam e que deliciam. Das que se apertam e seguram com força.
Mas também sou das que não se vêem. Das que se imaginam num qualquer corpo apaixonado ou apaixonante, mas também das que não se vêem ao longo do caminho. As curvas dos montes e dos vales. Do horizonte e do mar. Aquelas que apenas se podem antever ou sonhar apaixonadamente, mas que só se conhecem quando se cruzam.

Gosto de rectas. Da distância mínima entre dois pontos. Do seu sentido prático e concreto. Da utilidade matemática e geométrica. A recta que define a estrutura.
Mas a curva é o que preenche.
Sou um homem do indefinido, do irregular, do inconstante. De tudo o que fica entre os dois pontos que não é a recta.
Não sou de tudo e de nada, mas sou de tudo o que fica entre os dois.
Sou da vida com as suas curvas, com os seus altos e com os seus baixos. Sou do amor e da paixão, do corpo e da tesão.
Mas acima de tudo sou das curvas.

Comentário: