Filhos partidos ao meio

Um dos maiores flagelos não discutidos nos dias de hoje diz respeito ao resultado mais trágico e destrutivo das relações quebradas: filhos de pais separados.

Tenho legitimidade para falar do assunto. Eu, como tantos e tantos outros, faço parte do grupo das crianças (e adolescentes) que cresceu com pais separados, com duas casas, com duas famílias e com duas estruturas.

Pode parecer algo pouco grave ou importante, mas posso garantir-vos que não o é. Os pais representam a estrutura fundamental da identidade de qualquer criança. Eles não só representam a origem, a formação, a base estruturante, mas também são o refúgio, o abrigo, a segurança e a estabilidade emocional.

Agora imaginem se os dois lados do vosso ser não comunicarem, odiarem-se, quererem vingar-se, sentirem-se magoados, tristes e frustrados. Como será viver essa cisão absoluta dentro de vocês?

A partir do momento que se dá a fractura, todas essas referências desaparecem. Com mais ou menos gravidade, dependente de como fica a relação dos pais depois do fim da relação amorosa.

Estas crianças partidas, nas quais me incluo, desenvolvem o sentido aranha, uma sensibilidade extrema, que permite, entre outras coisas, encontrar e identificar outras pessoas que são também filhos fracturados. E é incrível como somos atraídos uns pelos outros.

E também, criam nelas, uma dualidade, mais ou menos tranquila, entre dois filhos, duas entidades, duas pessoas que são, ou pensam que têm de ser em virtude do pai, e da casa de familiares onde se encontram naquele momento.

Não há soluções fáceis, nem formas instantâneas para resolver a questão. No meu caso pessoal recorri ao método infalível de trabalhar as questões em mim, e de lutar por aquilo que precisava e queria.

Ainda me lembro a primeira vez que tive os meus pais juntos depois do divórcio, que tinha ocorrido quando tinha quatro. Foi perto dos meus vinte anos, num evento que celebrava a inauguração do infantário onde tinha andado e que tinha sido fundado com a ajuda dos meus pais.

Desde esse dia, tenho activamente trabalhado para promover o diálogo. É mérito para eles que conseguiram ultrapassar as suas antigas questões relacionais e deixaram vir ao de cima o que têm em comum. E que ainda foram capazes de construir em cima disso. Hoje contactam um com um outro de uma forma que considero saudável e já estivemos muitas vezes juntos.

E talvez seja esse sempre o segredo. Independentemente da dor. Independentemente da raiva. Independentemente da tristeza. De tudo o que o fim de uma relação implica. Perceber que ali, na frente deles, está algo a que deram vida, e que para sempre os vai manter ligados. E que por terem escolhido criar, têm a responsabilidade de manter nalguma espécie de estrutura familiar viva e saudável. Por eles, mas acima de tudo pelo futuro. Pelo futuro dos seus filhos. E pela sua alegria, saúde e esperança.

 

por Bernardo Ramirez

5 comentários em “Filhos partidos ao meio”

  1. Filho, apanhaste-me de surpresa. Não pelo conteúdo ( do qual fui ganhando consciência ao longo dos anos), mas por este testemunho, Obrigada. Sinto muito orgulho no homem em que, apesar de tudo isso que viveste, foste capaz de te tornar.

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