Há sempre alguém que não gosta de nós

Agora parece comum as pessoas falarem de Bullying. Uma expressão que, antes de 1999, pouco se sabia sobre o que significava. Um pouco como a hiperatividade, que parece ser o diagnóstico da grande maioria das crianças, agora fala-se do bullying e aplica-se o mesmo a quase todas as situações da vida estudantil. Mas a verdade é que, de uma forma ou de outra, todos somos “vítimas” da exclusão e da marginalização em algum momento na nossa vida. Há sempre alguém que não gosta de nós.

Este tema surgiu porque o sobrinho de uma amiga querida está a ser marginalizado na escola pelo sotaque que tem e por ter vivido alguns anos num país que não Portugal. Discutíamos os dois o que se poderia fazer. Entre agredir crianças, e os seus pais preconceituosos, ou falar com os professores, e com a direção da escola, e exigir esforços para a promoção de um comportamento mais inclusivo.

Lembro-me bem dos meus tempos de marginal. Na escola foi uma especialidade minha. Porque não gostava de desporto. Porque era gordo (e afinal nem era). Porque não me sabia comportar como os rapazes. Porque só me dava com as meninas, e mais tarde com as raparigas. Porque era educado e interessado, quando isso estava fora de moda.

Excluído ao ponto de se rirem de mim abertamente. De me deixarem sozinho nos intervalos e de ter a sensação sempre permanente de não fazer parte. De não ser convidado para nada. De passar ao lado de tudo o que os rapazes e raparigas populares faziam (mais sobre isso aqui).

Mas aprendi. E acho a lição valiosa. Que não pertencemos todos aos mesmos grupos. Que não somos todos iguais. Que todos temos que lidar com ignorantes e arrogantes. Que todos gostamos de coisas diferentes.

Mas também que há lugar para todos. Que todos encontramos o nosso lugar. Que podemos ser fiéis aos nossos valores. E que no fim vale a pena.  Porque acima de tudo a vida é superação.

Claro que há uma fase em que isso não parece ser verdade. Nem parece ser importante. Há uma altura em que estamos irritados, revoltados, que nos sentimos vítimas. Mas nós, adultos deste mundo (e digo adultos em sentido abrangente), estamos aqui para ensinar às crianças que todos somos vítimas de bullying, que todos somos marginalizados, e que isso faz parte (desde que seja dentro de parâmetros “normais”).

Porque os desafios não são para se evitarem, nem para escudarem as crianças de os viver, ao contrário, servem para formar o carácter, para dar às crianças ferramentas e poder e energia e capacidade para serem melhores e cada vez mais fiéis a si mesmos.

por Bernardo Ramirez

 

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