Infiel ou e então?

Num workshop a que assisti há alguns anos, uma professora contava uma história sobre índios americanos. Uma mulher chegava perto das anciãs da sua aldeia e dizia: O meu marido foi-me infiel. E uma das anciãs respondia: E então? Junta-te a nós.

Esta talvez seja uma das mais velhas e comuns questões do mundo: a da infidelidade. O amor, ou melhor dizendo, os meandros das relações humanas, já provocaram muitos divórcios, muita violência, muita guerra, muito ódio, muita miséria, e muitos filhos de pais separados.

E na base de tudo está sempre a questão fundamental da fidelidade. Mas afinal o que é a fidelidade? E a quem a devemos?

Quando construímos uma relação a dois, na grande maioria das vezes, subscrevemos implicitamente ao acordo da monogamia. Muitas vezes não expresso. Mas quase sempre presumido.

Curiosamente, com o avançar das décadas, vemos cada vez mais, formas alternativas de relações amorosas que não começam nesse pressuposto. Poliamor, relações abertas, entre outras, são novas relações que assumem outros princípios.

Mas porque precisamos nós da fidelidade? Porque é ela crítica? E porque é que sem ela imediatamente, e na maior parte das vezes, a relação é considerada como terminada?

No meu trabalho terapêutico presenciei muitas vezes a constatação de que quando um dos pares procura algo fora da relação, o mesmo indica que ambos já não estão dentro da relação. E muitas vezes, esse desejo, essa busca, ou essa concretização de uma relação extra-conjugal, é o sinal ou o sintoma de uma questão mais funda e anterior a esse evento. Uma questão que ambos, enquanto casal, não vêem ou preferem não ver. Acredito que a infidelidade é um sinal de alarme, como tantos outros, que chegou o momento de uma reflexão séria sobre a relação, e sobre o papel de cada um nela.

Vejo sempre a profunda dor quando alguém se sente vítima de infidelidade. Não pelo acontecimento mas pela surpresa e pela revolta. E confesso-me um pouco surpreendido por continuar a ser algo tão surpreendente e chocante. Algo que quase todas as pessoas do mundo passaram, passam ou passaram.

Mas quando uma convenção não funciona, e é fonte de tantos mal entendidos, de tanta dor, e de tantos problemas, a tendência natural é encontrar outro contrato ou convenção que deixe de colocar a tónica nesse ponto.

Porque acima de tudo a fidelidade é a nós mesmos. Ao que sonhamos, ao que somos e ao que desejamos. E a infidelidade é a falta de coragem de olhar para nós e para as nossas relações com olhos de ver. Com coragem e sem medo. De encarar os limites, as seguranças, e tantas vezes as questões emocionais e sexuais que a “infidelidade” pressupõe.

E ter a coragem de encontrar novas formas, novos diálogos, novas convenções. Independentemente do que seja socialmente aceite, convencionado ou definido.

por Bernardo Ramirez

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