Mais Tempo para Quê?

escrito em Luanda, a 4 de Março de 2010

Hoje, na televisão, vi um documentário muito interessante. Falava do envelhecimento das mulheres e da forma como no futuro essa será cada vez uma questão mais importante. A pergunta, para mim, mais interessante era: Para que queremos nós viver sempre mais tempo se temos tanto medo de envelhecer?

As estatísticas são assustadoras; dois terços das pessoas com mais de 65 anos, nos Estados Unidos da América, são mulheres. E oitenta e sete por cento das cirurgias plásticas feitas são a mulheres.

Estes factos não só demonstram uma realidade que ainda não foi percebida e aceite como real, mas também um infinito mar de oportunidades comerciais para empresas com ou sem ética profissional.

Mas estas revoluções também fazem pensar sobre a importância e o peso que têm as relações. Sejam elas amorosas, sexuais ou corporais. Sejam elas homossexuais. heterossexuais ou mono-sexuais.

Se tantas mulheres vão estar sem homens da sua idade será cada vez mais provável que elas encontrem formas de amor entre si.

Mas há mais, depois de ver estas mulheres brilhantes a falar das suas questões vou descobrindo que realmente os mais velhos trazem uma sabedoria que não tem preço. Uma das senhoras, que tinha acabado de perder o marido, já numa cadeira de rodas dizia: não me atrevo a ter saudades do David, isso deixar-me-ia maluca, escolho em vez disso celebrar, a cada dia, o seu corpo e a sua mente. Sempre fui assim na vida, procurar viver cada momento com intensidade, abraçando o novo e descobrindo novas formas de estar e de ser.

São lições valiosas estas, de amarmos a nossa condição e de sempre abraçarmos o novo de coração aberto. Esta descoberta e esta aventura traz-me sempre de volta às minhas relações. E à forma como aqui em Angola a importância principal é a da forma física. Uma das senhoras dizia que na sua velhice percebia que aqueles que acham que ser um bom amante depende da forma física estão iludidos.

Nunca tive a forma física para viver tranquilo com essa perspectiva, e por isso talvez não tenha outra hipótese se não acreditar nisso. Que o amor físico ou espiritual vai muito para além da forma física e do tempo presente, da idade, da disposição.

Gosto de acreditar que podemos e devemos sempre amar, incondicionalmente. O momento e o tempo que vivemos, o corpo que temos, e acima de tudo celebrar as nossas relações e os nosso dias. Porque tudo muda e não sabemos quanto tempo teremos para cada coisa.

Afinal a idade que temos só depende de nós.

por Bernardo Ramirez

3 comentários em “Mais Tempo para Quê?”

  1. Já Confuncio dizia qualquer coisa do género: Tens a idade que acreditas ter e não aquela que cresce com o tempo…
    Deve ser por isso que acredito ter uns 23 aninhos…Apesar do espelho me dizer o contrário e o corpinho também… Mas por dentro sou uma cachopa… uma miúda…
    Sorvo cada momento porque todos eles são únicos, bons ou maus eles fazem parte de mim e trouxeram-me onde estou hoje… Fizeram-me… Viva o tempo e que tenhamos muito tempo pela frente!!
    Beijos

  2. Concordo e também celebro o meu tempo, a minha idade, o meu dia-a-dia!!
    A CELEBRAÇÃo confere um ar de festa, à Vida. Eu adoro CELEBRAR e Estar em Festa!!

  3. Concordo com o que expões neste texto. Diria mesmo que essa arte de saber envelhecer e viver com alegria e serenidade cada década da vida devia ser mais partilhada. Principalmente porque os termos de comparação para quem envelhece têm vindo a insistir na imagem, na aparência. A valorização do que, apesar da idade alcançada e do que as limitações daí inerentes acarretam,não está propriamente na ordem do dia! Infelizmente, para quem se sente a envelhecer, o chamado peso da idade acaba por se tornar um incómodo diário,propício a uma grande tristeza.
    Com os meus quase 75 anos acabo como tu : ” A idade que temos só depende de nós”. Mas permito-me acrescentar à laia de aviso a todos: vão-se preparando e escolhendo cuidadosamente as flores com quais imaginam poder vir a dar cor ao jardim da vossa vida. Guardem bem as sementes nos vossos corações!

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