Morrer também é difícil

A viagem vivida é a melhor. Porque por vezes ela pára-nos em locais surpreendentes. Uns que nunca passámos e onde não estivemos. E outros que revisitamos com olhar e sentimentos renovados que transformam essa realidade, esse sítio, lugar, espaço em algo muito diferente e novo.

Este fim de semana viajei a uma fase da minha vida muito dolorosa. Talvez seja mais comum do que se imagina, e até do que nos atrevemos a referir ás pessoas  que nos rodeiam e até a nós mesmos. Houve uma fase na minha vida onde me sentia tão perdido, tão sozinho, tão triste que considerei a hipótese de morrer, onde considerei a hipótese de enlouquecer, onde considerei a hipótese de desistir.

Lembro-me bem de sentir uma absoluta tristeza, uma dor tão grande que as lágrimas corriam dos meus olhos livremente, quando estava só. E sentia tamanha mágoa, tamanha raiva, que queria partir tudo, destruir tudo, rasgar, estraçalhar, estropear, rebentar o mundo. Lembro-me de sentir que a fronteira entre a sanidade e a loucura era minúscula. E que era só querer e passaria facilmente para o outro lado.

E essa dor e mágoa que sentia era dirigida a todos: ao meu pai que me deixou, à minha mãe que não me deixou, aos meus amigos que afinal não eram, à namorada que não tinha, ao cão que me irritava, aos vizinhos que faziam muito ou pouco barulho, ao mundo em geral. A tudo o que me rodeava e nunca a mim mesmo.

Sentia-me magoado pelo mundo e não percebia o que andava a fazer nele. Nesse momento estava numa fronteira medonha, da qual muitos não conseguimos sair. No limiar entre aquilo que esperavam que fossemos, e que achávamos que deveríamos ser. A descoberta que isso só nos trás dor e miséria. Mas ainda a incapacidade de descobrir para onde ir e o que queremos fazer.

Don’t feel guilty if you don’t know what to do with your life. The most interesting people I know didn’t know at 22 what they wanted to do with their lives, some of the most interesting 40-year-olds I know still don’t. diz a música.

Essa era a minha maior tormenta e dor. Não saber quem era, sabendo quem não era. Ou começando a descobrir.

Passou muito tempo, diria que uma década quase. Onde patinei, despistei, escorreguei e deslizei inúmeras vezes para sítios que não queria, e outras vezes para sítios que achava que queria até descobrir que afinal não o eram. Até o desistir, até o morrer, até o acabar com tudo exigia uma força, uma coragem, uma capacidade que não consegui e não quis ter.

Hoje vivo feliz sem saber o que quero ser. Nem o que sou. Aceito esse perpétua condição de mudança e o meu bom coração como definidores da minha identidade. E venho aqui dizer-vos que está tudo bem. Que tudo é possível. Que tudo vale a pena. E que tudo é como queremos. Sem certo nem errado.

Um dia de cada vez, celebrando tudo o que vivemos a cada instante.

2 comentários em “Morrer também é difícil”

  1. O teu comboio levou-me hoje por caminhos realmente diferentes daqueles a que nos tens vindo a conduzir. Caminhos sobretudo de dúvidas que foram dolorosas, de matagais com alguns espinhos e lamas escorregadias. Caminhos esses que , no entanto, tal como outros bem mais alegres, te fizerem chegar onde hoje estás, numa clareira ( quiçá planalto) onde o céu é azul e o sol brilha.
    Muitos dos que percorreram esses caminhos penosos realmente não gostam de falar deles. Mas tu, sendo como és, quiseste partilhar.
    Como tua mãe,ao ler-te,fizeste com que cicatrizes há anos curadas, se fizessem sentir.”Cicatrizes?”, perguntarás tu. Sim, meu querido filho, cicatrizes. Porque, sem que talvez te tenhas apercebido, sofri contigo. E houve mesmo um momento em que senti que não te conseguia dar a mão. Tive mesmo muito medo. Mas o pontapé de saída encontrou-se.
    Estivesse eu de coração mais leve ( pelas razões que tu conheces, e que nada têm a ver com o que escreveste), talvez o meu comentário fosse diferente.
    Dito isto tudo, acabo : continua a escrever ! Afinal é isso que está aqui em causa, não é? E tu sabes prender a atenção de quem te lê. ” Mind the gap!” !

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