Novas formas de aprendizagem

Há algumas semanas atrás tive uma conversa com a minha querida amiga VA sobre formas de aprendizagem e sobre o conhecimento. Já várias vezes tinha surgido o debate sobre a influência da televisão e da internet na aprendizagem, do quão prejudicial é a falta de leitura por parte das pessoas, como isso pode prejudicar a aquisição do conhecimento.

Também é irrefutável que a grande maioria dos requisitos e exigências de conhecimento têm vindo a diminuir. Vi em algum lado que explicavam que perguntas, que antigamente eram usadas para alunos do 10º, agora eram aproveitadas nas mesmas cadeiras nos exames do 12º.

Pessoas mais alarmistas podem, sem dúvida, encarar isso como um problema: a diminuição do conhecimento das camadas jovens. No entanto, para mim isto é apenas um conflito de culturas e de educações. Um olhar formatado por uma matriz, que olha para outra como se fosse menor, inferior ou de menos qualidade.

Durante muito tempo, e ainda agora, os livros são considerados fonte de conhecimento. E isso é verdadeiramente indiscutível. Nesse sentido, e talvez pela sua dimensão material, os livros, os escritos, garantiam uma solidez de conhecimento. Mais ainda, porque baratos ou caros, os livros implicavam acesso e condições financeiras, e isso diferenciava, e ainda diferencia, os cultos dos incultos. E essas pessoas acreditam, com profunda convicção, que a falta de leitura prejudica a educação, não estimula o desenvolvimento, e limita as capacidades educativas e intelectuais.

Hoje, as camadas mais jovens, e tenho de confessar que também eu, passamos grande parte do dia ligados: ligados à televisão, ligados à internet, ligados ao telemóvel mas, em abono da verdade, fico bem atrás deles em muitas destas coisas. A preocupação com o quão prejudicial isto é, leva, e em minha opinião correctamente, a tentar limitar a quantidade de consumo dessas “fontes de informação”. Claro que aqui também se manifesta a batalha: os pais tentam evitar o excesso, os filhos fazem por escapar ao controle e à autoridade dos pais.

Para além disso são conhecidos os problemas que resultam do excesso destes novos meios de comunicação. As crianças aprendem a ser violentas, mais desligadas das relações sociais, deixa de existir comunicação dentro de casa. Voltando à minha amiga ela dizia-me muitas vezes que achava surpreendente a quantidade diminuta de livros que eu lia, e perguntava-se como se podia adquirir conhecimento com séries, filmes ou sites de internet.

Não sei responder bem a essa pergunta, mas tenho uma opinião sobre esta mudança. Como em tudo na vida o tempo avança, e tudo avança, e nós podemos estar no movimento ou resistir a ele. Imagino que há séculos atrás, ler livros, principalmente quando não se pertencia à classe certa, podia ser considerado um grande crime. E assumo também que muita gente aprendeu a fazer coisas erradas lendo sobre elas.

Hoje, a grande diferença é a liberalização do acesso à informação. Se antes tínhamos à disposição 100 livros, dos quais poderíamos achar que 20 ou 30 eram importantes ler, hoje temos biliões de sites, de séries, de filmes dos quais, provavelmente, apenas 0,1% valem a pena. E mesmo assim, estes 0,1% são infinitamente maiores em quantidade de conhecimento que os livros.

Não sou contra os livros, sou a favor dos livros, e dos autores, e acima de tudo da escrita. Mas não sou contra as novas formas de aprendizagem.

Neste mundo onde todos temos o acesso a tudo, apenas temos de aprender e ensinar a disciplina da escolha e a capacidade de decisão. Sim vou ler Santo Agostinho ou Krishnamurti em papel, mas sim também vou ver Mentes Criminosas, ou Foi Assim Que Aconteceu, ou o Pulp Fiction. A capacidade de se aprender não è exclusiva do material que usamos para aprender. A aprendizagem é exclusiva da nossa vontade de aprender e dos nossos “pré-conceitos”.

Além disso, como tantas vezes gosto de dizer, isto não é uma corrida, não vamos adiantados ou atrasados em relação ao outros. Vamos no nosso lugar, e ao nosso lado vão os outros: os reitores das universidades, as senhoras da limpeza, os nossos amigos, a nossa família, vamos todos lado a lado. E o que uns têm mais em conhecimento científico, outros têm mais em amor, e outros em empatia, e outros em dor, e outros em teimosia. São tudo apenas formas de manifestar a nossa aprendizagem, e a bagagem que trazemos connosco.

 

por Bernardo Ramirez

3 comentários em “Novas formas de aprendizagem”

  1. Gosto sempre de te ler, como sabes. Porque é mais uma forma de te conhecer e porque escreves bem.
    Quanto a este tema, o que eu (que muito aprendi através de livros) considero menos positivo é o uso excessivo de toda esta “invasão tecnológica”. Há algumas capacidades intelectuais que deixam de ser exercitadas. Mas acredito que haja outras que sejam mais desenvolvidas.
    Importante é que nos sintamos livres nas opções que façamos e que não as façamos por reação ( nova ortografia, tá?)compulsiva ou impulsiva.
    Mãe

  2. Engraçado. Hoje voltei a reler este texto e o meu comentário, com o qual ainda concordo. E veio-me automaticamente “à cabeça” uma conversa que tivemos ontem, numa reunião de trabalho de adultos “responsáveis” de várias gerações, sobre a falta de capacidade de decorar das gerações mais novas. Neste caso, concretamente de orações que tínhamos de decorar na catequese. Contrapôs um deles: ” Isso é um engano.Há algum tempo, numa viagem daqui ( Lisboa) para o Algarve demos boleia a uma garota que passou a viagem toda a cantar. Toda a viagem. Sabia as letras todas de cor! Logo, decorou-as. Tudo depende dos seus interesses.” Realmente é verdade. Nós,mais velhos,decorávamos porque éramos obrigados. Hoje em dia cada um decora o que lhe interessa.

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