O Cartão Dourado

Há muitos anos atrás estava convencido que um dos critérios que indicavam o sucesso pessoal de alguém era a posse de um cartão de crédito dourado. Para além de achá-los lindos, pensava que indicavam o estatuto e o poder de alguém. Estava convencido que era sinal  fantástico do nosso sucesso.

Os meus, quando finalmente comecei a tê-los, eram normais: amarelos, vermelhos, etc. Não tinham aquele prateado ou aquele dourado apelativo, que parecia ser feito de ouro ou de prata. Sinal de riqueza, fama, sucesso e tudo o mais que um jovem adulto possa sonhar.

Dono de dinheiro ingénuo

Na altura não sabia nada sobre o dinheiro, sobre como poupar, como ficar rico. Não sabia nada de nada. O único que sabia é que, quanto mais ganhasse, mais podia gastar.

Na altura, também não sabia outra regra básica: que convém evitar gastar mais do que o que ganhas. Aliás, era para isso que serviam os mágicos cartões. O dinheiro acabava para esse mês, e o cartão mágico deixava continuar a gastar, porque no mês seguinte ia receber mais dinheiro para encher a conta, pagar o cartão e tudo o mais.

Nessa época também não sabia o que eram os juros. Quer dizer, eu sabia, só não entendia. Não percebia o seu poder, e que, como todas as ferramentas, pode ser usado para nos servir ou para servir os outros.

Nesta fantástica espiral descendente finalmente consegui um cartão de crédito dourado, lindo, romântico, com o nome escrito, e que até tinha “Dr.”, porque ser doutor também ajuda no estatuto. E era tão lindo que o tinha de usar muitas vezes. E os senhores do outro lado sempre a disponibilizar mais dinheiro. E eu cada vez mais feliz e dourado.

Miséria Financeira

Mas esse caminho foi incrível. Levou-me a um ponto muito negro da minha vida. Lembro-me de ter de escolher qual a conta a pagar com o dinheiro que tinha, ás vezes escolhas quase impossíveis, como entre a água e a luz. Lembro-me de me terem cortado a água, ou a luz, e, num momento sem dinheiro, ainda ter mais uma dívida (porque, acaso não saibam, para voltar a ligar ainda têm de pagar um extra). Lembro-me de comer vezes e vezes sem conta atum com esparguete. Lembro-me de contar os tostões para comprar coisas para casa: papel higiénico ou detergente da louça?

Lembro-me de dever tanto que o que ganhava não chegava. De chegar a dia 10 e depois a dia 1 e já não ter nada. A não ser o cartão dourado. E a dívida a crescer.

Recordo-me das empresas que tinha aberto com tanto entusiasmo fecharem e falirem. De sócios desaparecerem. De empréstimos pessoais para a empresa se transformarem numa dívida de 20.000 euros. Num momento em que não tinha nada.

Esperança Económica

Mas quando Deus nos fecha uma porta, abre uma janela. E do fundo da minha miséria surgiu a esperança.

Pessoas incríveis começaram a ensinar-me que estava a viver a cima das minhas possibilidades. Que tinha de poupar. Que os juros que pagava me matavam e que esses era os que tinha de liquidar primeiro. Ensinaram-me a viver com quase nada. A vender tudo o que tinha. Mas a ficar livre. Primeiro das dívidas com juros, e depois das dívidas sem juros.

Disseram-me que, ao contrário do que pensava, não tinha nada a ver com o mérito ou merecimento. Que tinha a ver com educação financeira.

Depois lembro-me da Herbalife, e de todo o desenvolvimento pessoal que veio com ela. Lembro-me do que as pessoas e os professores me ensinaram. Que quem é rico não é quem ganha, é quem poupa. E que o dinheiro serve para comprar coisas que fazem mais dinheiro, e não para comprar coisas que nos retiram dinheiro.

Assim, aprendi a poupar 10% de tudo o que ganho e colocá-lo num fundo que nunca mexo. Aprendi a viver de acordo com o que posso e a ser feliz com isso. Aprendi a dar prioridade ao que realmente importa. Aprendi a usar o cartão de crédito a meu favor e não contra mim. Aprendi que se poupa no princípio do mês e não no fim.

Verdadeiro Cartão Dourado

Quando chegámos a Espanha e abrimos uma conta num banco, a Cecília recebeu logo um cartão de crédito. E a mim só me deram o de débito. Como ganho menos que ela, e ela tinha um contrato sem termo certo com a empresa presumi que o risco dela era mais baixo que o meu.

Mas fiquei tranquilo.

Hoje, seis meses depois, sem querer nem pedir o cartão dourado chegou a nossa casa. Chegou, para mim, como um reconhecimento da seriedade com que tratamos o dinheiro, do respeito que temos por ele, de como gostamos dele, e das regras implacáveis que cumprimos e que nos enriquecem. Não só financeiramente, mas também como pessoas. Claro que não foi a intenção do banco parabenizar-me, mas eu senti-o assim.

Quando as coisas nos correm mal, como a mim, a culpa não é de ninguém. A responsabilidade é minha. A aprendizagem também. Sofri, aprendi. Há quem sofra e não aprenda. Mas como agora não gosto de desperdícios…

Assim, obrigado! Obrigado Mãe pela tua generosidade. Obrigado Cecília pelos ensinamentos, e pela coragem de ficar do meu lado. Obrigado Nelson pela paciência e pela alegria de me ensinar. Obrigado George Samuel ClasonRobert Kiyosaki, Jim Rohn e todos os outros professores, escritores e mestres que me mostram que é possível. E acima de tudo obrigado a mim, por crescer, aprender e celebrar isso.

Porque afinal o verdadeiro cartão dourado que importa é aquele que damos a nós mesmos!

por Bernardo Ramirez

3 comentários em “O Cartão Dourado”

  1. Que grande história de descobrimento. Grande epopeia. Epopeia essa que, até certa altura, como “carneiro” que és, insististe em levar a cabo sem sequer ponderar outras rotas que te eram apontadas. Mas, por fim, encontraste a tua rota. À custa de muita “cabeçada”. Mas, a TUA ROTA ! E , assim sendo, ficaste mais rico, até porque não guardaste rancores , nem a ti próprio. E, além disso, és capaz agora de reconhecer que não foste “abandonado” no percurso. Lá diz o velho ditado : ” Crescendo e aprendendo”. Goste muito do texto.

  2. 🙂 de nada. Fico feliz de te ter ajudado. Não chega a vontade de ajudar os outros para ter finais felizes… É necessário as pessoas quererem ser ajudadas e conseguirem pôr em prática o que aprendem. *

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