O primeiro beijo

Todos temos um primeiro beijo. Alguns muito sortudos têm vários. Algo apaixonado ou acidental ou desastroso que acontece numa fase da vida onde o romance, a paixão e o desejo (na sua maioria platónico) estão em alta.

Sempre fui um romântico pragmático. Já desde pequeno. Lembro-me com seis anos acabado de chegar à primeira classe que fui visitar o meu ex-infantário que era no local de trabalho da minha mãe. E, sem saber muito bem como, decidimos, eu mais velho e experiente, com o resto das crianças, que íamos dar beijos na boca. Mas não beijos discretos e subtis. Beijos de espectáculo e plateia.

Recordo estar no jardim da escola, de frente para a minha companheira de primeiro beijo, e uma fila interminável de outras crianças para assistir ao nosso beijo. Segundo parece a minha parceria e eu teríamos de dar tantos beijos quantas as crianças que estavam naquela fila. E não sei se foi timidez, incompetência, ou apenas a visão de uma fila que parecia conter todos os residentes da minha cidade, aquilo que me fez vacilar e desistir. Esse foi o candidato não eleito ao primeiro beijo.

Muitos anos mais tarde, no extremo máximo da minha adolescência fui convidado para uma festa de aniversário com piscina. Uma festa de colegas de liceu, de turma, que, para minha enorme felicidade, acabou por ser uma festa a dois. A aniversariante e eu. A piscina e o lanche estavam muito bons. Lembro dos mergulhos e das brincadeiras. Do sol que fazia e do quanto nos riamos.

Mas a viagem de regresso… A viagem numa carrinha de carga branca, em que os dois nos vimos trancados no escuro numa viagem que demoraria cerca de uma hora, foi divinal.
Não sei explicar como chegámos aos beijos, mas chegámos. A um, a dois, a mil. Sem parar. Como que querendo recuperar da fila do passado. Apaixonados, quentes, molhados beijos. E por isso não foi o primeiro, foi um comboio de beijos. Tantos quantos os segundos. Tantos como os habitantes da minha cidade. Tantos…

E chegado a casa, com um ar tão pateta e feliz, que a minha mãe logo percebeu o que se tinha passado. E o sorriso idiota na cara. Nessa noite não dormi, flutuei sorridente na cama, olhando para o tecto, mas vendo a minha amada de biquini, molhada, e os beijos sabor a sol e Verão que tínhamos dado.

Mas o primeiro beijo mais explosivo aconteceu muito mais tarde. Nas muralhas do Castelo de Óbidos. Uma vila que ela amava e onde me quis levar. Já andávamos enamorados. Já adorávamos a companhia um do outro. Já nos sentíamos felizes. Tanto que tínhamos ignorado a porcaria de restaurante que acidentalmente tínhamos escolhido.

Mas tínhamos decidido esperar. Dar tempo. Deixar a vontade e o desejo crescerem. Sentir o amor e a paixão inundarem. Ocuparem o silêncio e o espaço vazio, até que entre ela e eu não existisse mais nada senão vontade.

E assim foi, até ao momento em que caminhando pela muralha, felizes, de mãos dadas, nos puxámos para um qualquer canto e nos beijámos apaixonadamente. Beijos loucos, beijos sorvidos, beijos adultos, cheios de agarrões e desejo. Beijos tão fortes que, de repente, no meio deles ouvimos: crack. Ambos meio surpreendidos. Não eram ossos, não eram foguetes (também os houve depois), não eram tiros de bala, nem música Tecno. Do seu belo traseiro, de uma das suas algibeiras, sai um telemóvel destruído. Que no meio do calor, dos beijos e do amor, tinha explodido de encontro a uma qualquer muralha.

 

por Bernardo Ramirez

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