O princípio da proporcionalidade

Como todos sabemos a grande magia e o grande desafio da nossa existência são as relações humanas e, em mais detalhe, as relações amorosas. As pessoas gostam de falar de amor, de sentimento, de emoções, de paixões e desejos, mas esquecem-se muitas vezes do ponto central de todas as relações: a proporcionalidade.

Sou, como somos todos, um especialista em relações. Não pela qualidade ou pelo sucesso das mesmas, mas porque estando vivo tenho muitas. E, por outro lado, as relações humanas são algo que me fascina e apaixona.

Da minha observação e análise chego à conclusão que a grande maioria das pessoas escolhe iludir-se ou enganar-se no que toca às relações humanas. Isto porque utilizam como factor determinante, para o sucesso das mesmas, critérios que são absolutamente inúteis na avaliação dessas mesmas relações.

Amor: toda a gente gosta de falar de amor. “Eu amo-o”. “Mas ela ama-me”. ”Eu sinto imenso amor”… etc, etc, etc.  Na verdade, o amor é um sentimento fundamental, mas não é fundamental para o sucesso das relações. Todos nós já presenciámos na nossa vida pessoas que amam apaixonadamente ou dedicadamente alguém que as ignora, despreza ou até mesmo que é cruel com elas. Muitas vezes digo e penso que o amor não chega. Pelo menos para o sucesso de uma relação entre duas pessoas.

Desejo: o desejo é um dos motores da vida. “Eu quero isto”. “Eu desejo aquilo”.  “Aquela pessoa deixa-me doido”.  Essa energia tão quente e tão forte, muitas vezes vai-se embora tão rapidamente como surge. E não é necessária, nem muitas vezes útil, a uma relação. Ainda mais porque como nos ensina o Taoismo, no momento em que conseguimos o que desejamos, deixamos de desejar e passamos logo a desejar a próxima coisa.

Fidelidade: este é outro ponto sensível.  Muitas pessoas crêem que a fidelidade é fundamental ao sucesso das suas relações. Tanto que se dedicam a destruir e a arrasar relações por não terem cumprido esse requisito. Mas ao mesmo tempo, todos nós conhecemos relações onde existiu infidelidade (assumida ou não) e que não foram razão para o fim da relação. Podem dizer que a qualidade dessas relações não podia ser grande por se basear numa mentira. Mas, mesmo relações que assumem espaço para uma diversidade de relações dentro da mesma relação, continuam a ter problemas e desafios relacionais.

Existem muitos outros factores que as pessoas identificam como fundamentais e garantes da qualidade das relações amorosas. Esses factores parecem, em minha opinião, ser de pouca eficiência e não olham para o fundamental.

O principal das relações, sejam amorosas ou não, é a proporcionalidade. A proporcionalidade é a única garantia de uma relação de longo prazo tranquila, amorosa e bem sucedida.

E o que quero dizer com proporcionalidade? Uma justa distribuição de tarefas, de responsabilidades, de afectos, de atenção, de amor.

Quantos de nós não tivemos relações com pessoas que não nos ligavam, que não nos davam atenção, que não expressam o amor. “Mas é porque sou assim”. Para depois descobrirmos que afinal nos sentíamos usados por alguém que não se envolve. Ou cansados de alguém que quer sempre mais de nós.

É muito bonito dizer: “Mas eu gosto de ti, eu penso em ti, tu és importante para mim.” Mas a verdade é que isso não vale nada sem acções. A proporcionalidade exige um acto consciente. Uma intenção e um movimento.

Porque por muito que tenhamos coisas dentro de nós, na construção de qualquer relação, o outro só consegue identificar o que vê e o que sente da expressão do que fazemos e mostramos.

A falta de proporcionalidade é terrível e mata as relações. Homens ou mulheres distantes numa relação amorosa. Amigos que nos dizem que precisam de espaço ou não respondem aos nossos pedidos e solicitações.  Isto não é por crueldade. Não é porque a pessoa seja má ou não goste de nós. Acontece apenas porque não estamos nessa relação num ponto de equilíbrio. Entre o dar e o receber.

Podemos desejar, amar, querer o outro. Mas se estamos sozinhos, se somos sempre nós, então estamos sozinhos numa relação que é de duas pessoas. Ou porque somos de mais ou porque o outro é de menos, ou porque não é para ser, ou porque não é o momento.

Mas a proporcionalidade é um sinal muito bom da saúde da relação e do seu possível futuro. Como a sua ausência é muito mau sinal.

Então, e por isso, eu tento praticar a proporcionalidade nas minhas relações. Isso implica que muitas vezes tenho de parar e dar um passo atrás. E, quem me conhece, sabe como isso é difícil para mim. Parar e olhar e esperar e avaliar. Para que a relação cresça de forma saudável.

É esse o exercício. O de colocar tudo na balança e de avançar ou retroceder conforme o necessário.

Claro que a proporcionalidade não tem de ser matemática, nem sincronizada. As coisas mudam e variam. Um dia podemos ser nós, no dia seguinte o outro. Mas se são sempre vocês, se são só vocês, se o tempo passa e nada muda, tudo isso são muito maus sinais.

Por isso vamos aprender a praticar a proporcionalidade. Vamos medir o nosso compromisso contra o compromisso do outro, a nossa dedicação em função da do outro. E esperar uma relação o mais equilibrada possível, e não aceitar o futuro possível e provável da mesma, sem que tenhamos uma voz activa e uma partição nesse mesmo futuro.

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