O processo da criação

Hoje perguntaram-me como começa o meu processo de criação. Como decido sobre o que escrever. O que me leva aos temas e ás palavras que uso.

Não tenho uma explicação muito objectiva. Não tenho um princípio racional e metódico. Escrevo quando algo da minha vida me toca. Quando algum acontecimento, algum momento, alguma pessoa cruzam a minha vida e sinto em mim: aí está uma coisa interessante.

E pode ir desde um prato de comida, a uma qualquer pessoa na rua, a um texto que li, ou a algo que sinto fortemente em mim.

Por exemplo: Quando pensei na crónica Filhos Partidos ao Meio foi acima de tudo porque nas últimas semanas, a temática do divórcio e das relações associadas veio ao de cima. Primeiro escrevi este Infiel ou e Então? que falava sobre as relações amorosas e a questão da fidelidade. E nesse momento senti logo um desejo ardente de falar na perspectiva dos filhos e assim acabei por o fazer.

E não tenho propriamente um método. Entrego-me ao que sinto e tento transferir-lo com o máximo rigor para as letras e palavras que tanto amo. Umas vezes funciona melhor que outras. Mas é verdadeiramente mágico quando dou por mim e o processo terminou, sem saber muito bem de que lugar vieram as palavras que agora encontro escritas diante de mim.

Quando termina então o processo da escrita, tento deixar passar algum tempo, para o voltar a ler com outros olhos e perceber se gosto, se tem tudo, se faz sentido, se é pertinente, mas acima de tudo se é útil.

Não útil no sentido pragmático e metódico. Não útil no sentido: vou usar isto todos os dias na minha vida. Mas útil porque tem uma mensagem. Porque demonstra um ponto de vista que considero novo. Ou porque mostra de uma perspectiva incomum um assunto banal.

E acima de tudo útil porque coloca sempre a tónica e a responsabilidade em mim. Porque olho para a escrita e penso: a mensagem que envio é importante e positiva? Une mais que separa? Ajuda mais que prejudica? Faz pensar e sentir, mais que odiar e desprezar?

Escrevo porque sim. Porque a minha alma me o pede. Porque o sinto. Porque sou estas palavras meio loucas que materializo. Mas acima de tudo escrevo com consciência. E com a convicção que vale a pena.

4 comentários em “O processo da criação”

  1. Li algures que, quem escreve, o faz para outrém, para ser lido. Achei muito simplista, apesar de estar parcialmente em concordância. Escrevo um poucochinho, mas a finalidade é clarificar, ordenar (de alguma forma) e simplificar pensamentos, sentimentos e emoções. Arrumo ideias ao escrevinhar e, muitas vezes, acontece que ao “abrir uma porta” se me deparam outras, que me levam de boleia. O que me agrada imenso. É como chegar com uma mala cheia e partir de mochila leve.
    Ora, acontece que, contigo, do que me apercebo, é que escreves sobretudo para os outros, para seres lido.O teu escrever sinto-o altruístra, muito ao serviço do outrém, procuras a ponta da meada para deslindar, tentas ser guia, um desfazedor de nós. Acho que tens um dom/vocação e que caminhas, de certa forma, paralelamente aos outros, ou a uns outros, como uma luz que guia, tipo farol/como qd pões as mãos a passar energia.
    Daí ter.te questionado da forma anterior.
    Kisses and hugs.

  2. Acho que este comentário Isabelle é a prova que me conheces muito bem. Acho que tocaste em algo muito importante quando dizes: “um desfazedor de nós” e “que caminhas, de certa forma, paralelamente aos outros”.
    Obrigado por me fazeres sentir tão entendido e por me ajudares a pensar sobre o processo e sobre a vida 😀

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