Papilas gustativas e memória

Nos últimos dias tenho reflectido largamente sobre as coisas que gostamos e não gostamos, principalmente sobre a comida. Como essas coisas são fruto da nossa educação, ou não. E como a forma de educar influencia todo o processo. Ontem via um vídeo muito divertido onde punham crianças a comer sushi e é muito curioso ver como reagem de forma diferente. E pensava como as papilas gustativas e a memória vão de mão dada.

Como todas as pessoas eu tenho os meus ódios de estimação no que toca à comida. Em particular há duas coisas que não gosto e que me vêem sempre à memória: fígado e pêssegos. E é curioso como são sempre os que estão no topo. Porque se pensar bem há muito mais, mas esses dois surgem destacados. Lembro a orelha, o cérebro, doce de leite, e muitas outras que gosto pouco ou nada. Lembro-me do meu pai tentar que comesse pêssego e de como isso me incomodava (será por isso?).

A minha avó Maria é incrível. Bem era, mas como continua presente no meu coração, continua a ser. Tive a sorte e o privilégio de ser um dos dois netos que viveu ao lado dela (dos 28 que teve). E ela ensinou-me muitas coisas. Muitas coisas incríveis e extremamente valiosas.

A de hoje tem que ver com a comida. Tendo educado oito filhos a Avó Maria sabia muito bem o que era fita de criança e o que era dificuldade. E, incrivelmente quando era pequeno, havia coisas que não gostava de comer. E a minha avó, na sua imensa sabedoria e experiência, utilizava duas técnicas especiais para mudar isso. A primeira era que independente do prato do dia, tinha sempre para comer algo que não gostasse. Lembro-me em particular do ovo cozido. O almoço podia ser bife com batatas fritas, peixe cozido, favas cozidas, ou arroz de polvo, mas no meu prato havia sempre um pouco de ovo cozido. Que sempre me incomodava, mas que acabava sempre por comer. Porque era pouco. E porque a minha avó usava sua imensa sabedoria para me garantir que, se comesse tudo, podia ir tirar um chocolate à gaveta no fim da refeição.

E quando é que o Bernardo alguma vez resistiu ao chocolate? Aliás quem dirá se não foi a minha avó Maria que não me terá criado esta paixão louca por esse doce mágico e delicioso. E por ovo cozido que agora tanto gosto. Ovos de toda a forma e feitio.

Hoje penso no quanto a nossa educação transforma os nossos gostos e nos torna mais ou menos permeáveis ao mundo que nos rodeia. E a Cecília e eu pensamos que vamos querer que as nossas crianças comam tudo. Desde orelha e tripas, a peixe cru e outras coisas de sabor exótico. Porque as portas da flexibilidade e da disponibilidade ao diferente pode começar nas papilas gustativas.

E vocês? O que gostam ou não de comer? E qual é a vossa primeira memória dessa comida? Agradável? Horrível? Gostava de saber a vossa história.

por Bernardo Ramirez

4 comentários em “Papilas gustativas e memória”

  1. Fanecas. O meu ódio de estimação em criança… As minhas avós do coração faziam sempre questão de me tirar as espinhas para a menina não se engasgar… Hoje me dia aprecio…
    Lembro-me da feijoada que era um pesadelo – o meu prato preferido hoje me dia…
    Tenho um palato exigente. Capaz de provar coisas diferentes. Mas não me peçam para provar gafanhoto fritos, só porque são estaladiços. 🙂
    A minha mini-me tem um palato refinado. O “estupor” não prova nada sem cheirar… O que faz com que rejeite a maioria das coisas que a mãe oferece. Gostava de voltar uns meses atrás onde ela, sem a “idade pediátrica”, me pedia para provar arroz de polvo e o comia… É engraçado ver como o palato, a percepção das crianças varia em meses… ( A Sofia vai fazer dois anos e detesta o que outrora adorou)
    Concordo convosco o palato, a percepção das crianças deve ser esticado.

    1. Querida Paula,
      Confesso que tinha ouvido falar de Fanecas, mas não sabia o que era. Fui ver. Terei de comer. Também gosto de cheirar tudo, mas arrisco sempre uma primeira vez. Já fui muito positivamente surpreendido 😀

  2. Grande avó Maria ! Pelo que me diz respeito, as minhas papilas gustativas foram-se alterando e refinando ( acho eu) ao longo dos anos. Há porém duas experiências da minha pré-adolescência que, pela negativa, me ficaram gravadas na memória pelo enorme esforço que me exigiram em ter de deglutir o que as ditas papilas queriam recusar.
    Passo a descrever: 1ª – numa tarde de domingo eu e os meus pais a lanchar numa pastelaria na Praça do Areeiro. Numa mesa perto um senhor, segurando num pequeno frasco com um conteúdo branco. Ia levando à boca uma colher pequena e parecia muito satisfeito. Pensei para comigo. ” Que giro, será chantilly?”, pensei. Nessa altura estava na fase de adorar chantilly. Pedi ao meu pai para encomendar para mim.
    Vem, tiro a tampinha de prata , tiro uma colher, meto à boca e…. horror dos horrores ! Uma amargura imensa enche-me a boca! Lá pedi açucar ( que nessa altura vinha num açucareiro) e fui deitando e mexendo até conseguir engolir sem esforço. Sim, que se tinha sido encomendado, tinha de ser comido! O que era? Yogourt! Dos primeiros que por aí apareceram. Dos puros.
    2ª – Ao almoço, só com adultos , num navio da Armada, onde a cozinha era ( talvez ainda seja) muito boa. Numa terrina pedaços de lula ( de que gostava) com um molho com uma linda côr amarelada e um aroma “simpático”. Uma travessa com arroz branco. Todos muito contentes! Servi-me , regando o arroz com o molho cativante. Garfada na boca, saboreio e… um enorme ardor pela garganta abaixo. Era caril, do forte, à marinheiro! E eu TINHA de comer tudo o que estava no prato! A água não acalmava o ardor. Aconselharam-me pão com manteiga. Lá melhorou um pouco. Mas, isso sim, nunca mais consegui comer nada que pique.

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