Parar de fugir

Sempre me disseram: és tão carneiro! Algo que me parece um contra-senso (peço desculpa aos que não gostam ou não ligam à astrologia). Seria o mesmo que me dizer: és tão português, ou: és tão bem disposto. Contra factos não há argumentos. Mas uma das características mais tradicionais dos carneiros é um desejo ardente de ir, de partir, de descobrir, de deixar o conhecido pelo que está por descobrir. E sempre fui um fiel representante desse sentimento. Mas hoje, sinto que posso parar de fugir.

Já vivi em quatro países, e se calhar a conta não vai terminar aqui. Já viajei muito. E sempre tive aquele desejo ardente, que o António Variações descrevia tão bem, de só estar bem onde não estou. Uma mistura de vontade de descobrir o novo, mas também algo de deixar o presente para trás e esquecer as dificuldades, os medos, as frustrações e as tristezas.

Lembro-me sempre, como se fosse hoje, de estar uma vez, sentado com uma amiga, num restaurante, num dia de sol incrível, onde ela estava também particularmente iluminada, e de pormos a hipótese de partir. Não um partir de férias, ou de ir dar uma volta. Mas o ir, assim, sem nada, para não voltar. E lembro bem como a minha vontade era imensa, e como só não o fiz, porque havia uma terceira pessoa envolvida, para quem a decisão seria profundamente injusta.

Também na minha infância, na escola primária, lembro-me de ter um amigo, que devia ter 6 ou 7 anos, e de um dia me ter dito que ia fugir. Na altura, não liguei muito, até virem dizer que ele tinha desaparecido. E o pânico que causou. O tempo de angústia, as perguntas dos pais e dos professores. E recordo como algumas semanas depois (ou dias) apareceu. Tinha estado no interior do Algarve a viver com uns agricultores. Como o achei corajoso e destemido. E como invejei a coragem que nunca achei que teria (e não, não sei que signo era).

Estes dias estão muito presentes, porque já o senti muitas vezes: e se pegasse em mim e deixasse tudo para trás? Largasse tudo? Deixasse amigos, família, trabalho, casa, tudo? O que seria de mim? Mas, mais importante ainda, quem me tornaria? Seria então a mesma pessoa, ou tornar-me-ia uma pessoa nova?

Mas ontem, no meio de uma brincadeira, com duas das minhas pessoas favoritas, alguém propunha uma ilha deserta e férias permanentes. E, no instante, o que pensei foi: Férias, sim! Não voltar, não! Nunca me senti tão feliz, tão em casa, tão completo.

Sim tenho desafios, coisas para melhorar, áreas onde as coisas podem correr melhor. Mas hoje sou feliz onde estou, e com quem estou. E por isso celebro este novo desejo. O de parar de fugir e apenas ficar.

 

por Bernardo Ramirez

Um comentário em “Parar de fugir”

  1. Mas que bom teres encontrado essa terra. Com “terra” não quero dizer nem cidade, nem país.Refiro-me ao espaço onde , depois de tantas e tão diversificadas experiências, te sentes em casa. E, como tal, te sentes confortável e em paz contigo próprio. Que bom!
    As raízes da tua árvore encontraram solo seguro. E, com a consciência desse facto, a seiva poderá ir fortificando não só os troncos que já cresceram como os que se irão formando.

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