Poeta

Sou um poeta. Não sou um poeta.

Quer dizer, sou um poeta. Não no sentido tradicional. Não sou o Vinicius ou o Pessoa. Não sou o Poe ou o Tê ou o Saint-Exupéry. Gostava de ser mas não sou.

A minha poesia não é cantada apesar do meu esforço. E olhem que não é pouco. E não é pintada. Essa nunca tentei muito. O meu poema não é de pausas e notas. Não é de pedra e martelo. Não é poesia ensinada, nem poesia praticada.

Mas acho que sou poeta.

Sou um poeta dos sentimentos e do coração.

Não pinto quadros, não escrevo prosa, não crio sonetos, não faço canções populares.

Sinto e emociono-me e choro e rio e vivo tudo com a intensidade de um instante final.

Sou o poeta da confusão e do caos. Sou o poeta da entrega e da atenção. Sou o poeta do nada e do amor. Sou poeta.

Sou o poeta do lambuzamento e do abuso. Sou o poeta do desbocamento e do sem vergonhismo.

Vivo tudo com a sensação que amanhã nada haverá mas com a ânsia de que amanhã seja tudo o que sonho. Mesmo quando não sei o que quero ou sonho.

Sou poeta da vida porque amo os homens e as mulheres e as crianças e os animais e as plantas e os cheiros e as cores e os sons.

Sou poeta porque me enterneço com gestos de carinho e sinto-me ligado a tudo e a todos.

Poeta da vida que há em mim e que insisto em partilhar com os outros.

Sou poeta porque choro sem razão maior por uma música, por palavras ou por apenas ver um filme banal.

Porque não sou poeta de mim mas sim poeta do que habita em mim. Porque o que habita em mim não sou só eu. É mais e maior do que eu. É o mundo e a vida. E isso é a minha poesia: viver a vida em mim.

E por isso: sou poeta.

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