Portugal, amo-te!

Já vivi em três continentes. Já viajei para quatro. Já estive em mais de trinta países. E por muito que viaje, por muito que conheça, só me apetece dizer: Portugal, amo-te!

Tristeza

Há uma certa dose de tristeza em se ser português. Uma tristeza que é histórica, que aparece no fado, na palavra saudade, na nostalgia e na memória daquilo que fomos e não voltámos a ser. Mas essa tristeza é bonita e fantástica. Permite a arte, e a escrita, e a pintura, e a capacidade incrível de se ser empático.

É por ela que temos a profundidade e a capacidade de descobrir o mundo. E essa tristeza permite-nos a descoberta do outro e uma certa poesia que nunca encontrei em mais lado nenhum. A maturidade de quem já viveu e passou por muito. E que com essa experiência ganha um conhecimento que muitas vezes não se sabe ou consegue expressar.

Espaço pessoal

Não sei se pela dimensão do país, pelo calor, pelo prazer da rua e do social, mas somos um país sem noção de espaço social. E não temos vergonha em o expressar. Agarramos as pessoas, tocamos nas crianças, damos uma pancada no ombro de alguém que nunca vimos. Gostamos de dois beijos e abraços. Até a pessoas que acabámos de conhecer, e para muita aflição de tantos estrangeiros que não entendem e que se incomodam, pelo menos inicialmente, com o excesso de proximidade

Para o bom e para o mau passamos a fazer parte da família tão rápido, que muitas vezes nem conseguimos descobrir o porquê. E facilmente entramos na vida e na opinião sobre a vida dos outros. Para o ajudar quando está aflito, e para abusar quando não nos pedem a opinião.

Bem vindo

Esta foi talvez a experiência mais dura de viver fora de Portugal. Porque aqui, ao contrário da maioria dos sítios onde estive, convidamos todos para a nossa casa. E gostamos de os receber. E gostamos de alimentar. E gostamos de cuidar. Há um enorme prazer em ter sempre espaço e comida para mais um. E receber é uma arte que os portugueses desenvolveram ao longo de séculos. E que a minha mãe sempre praticou com tanta mestria.

Para nós, portugueses, é inconcebível gostar de alguém e que essa pessoa não conheça a nossa casa. Não tenha vindo comer connosco. Não se tenha sentado na nossa mesa. Não conheça a nossa família e não partilhe o que temos de mais privado e melhor com ela.

Cidadãos do mundo

Talvez por termos explorado o mundo, e por termos vivido nele e por ele, somos cidadãos do mundo. Isto significa que temos prazer em entender o outro. Em falar a sua língua. E em que se sinta entendido. E recebê-lo no nosso país. Tanto que ás vezes acabamos por ignorar os nossos em prol dos estrangeiros.

Somos dos poucos países do mundo onde as pessoas tentam falar a língua dos visitantes. Praticamos com convicção o portugles, o portunhol ou o franciuguês. E adoramos saber e conhecer pessoas de todo o lado. E depois, claro, explicar que isto ou aquilo do país da pessoa tem influência de Portugal. Gostamos dessa coisa de ter deixado a nossa marca em todo o lado. Na comida, nas palavras, nos comportamentos.

Comer, comer, comer

Sim somos de comer. Adoramos comida, adoramos beber, adoramos a mesa. Mas acima de tudo pelo prazer de nutrir, pelo prazer de partilhar, pelo prazer do reunir. Qualquer português sabe cozinhar algo. Adora alguma comida. E sabe uma tasca ou um sítio onde se pode comer aquele petisco incrível. E é na mesa que são mais felizes.

E todos temos as receitas da avó, e as receitas da mãe, que nos ensinam as coisas da infância e que estimulam aquele sentimento tão nostálgico que temos em tanta estima. E adoramos tentar, e tantas vezes falhar, essas receitas que nos devolvem sentimentos tão bons.

Minúsculo e gigante

Portugal é minúsculo. Somos um país muito pequeno em dimensão. Mas aqui conseguimos ter de quase tudo. Montanhas, planícies, ilhas, praia, cidades, espaços urbanos e natureza sem fim. E claro, praia e mais praia e mais praia.

Talvez por isso também, tantos portugueses não conheçam outros países e outros lugares. Porque por muito que se viaje, ao lado, aqui na nossa santa terrinha, há tanto tão bonito para se descobrir e para ficar surpreendido.

Opinião sobre tudo

E não há nada, mais português, do que ter opinião. Adoramos discutir. Basta alguém trazer um qualquer assunto para a mesa, e todos começam a discutir os prós e os contras, e que se devia fazer assim ou assado.

Uma arte tão desenvolvida que, por vezes, apesar de não sabermos nada sobre o assunto, orgulhosamente afirmamos a nossa opinião e o nosso ponto de vista, tantas vezes radical. E que nos permite prolongar com prazer as conversas e os encontros.

 

Certamente também temos muito defeitos. Muitas coisas que podemos melhorar. Mas Portugal tem algo de mágico, algo de encantador, algo de inexplicável, que apaixona, que encanta, que marca e que faz me sentir: Portugal, amo-te!

por Bernardo Ramirez


Escrevi isto inspirado neste texto em inglês. Recomendo que o leiam!

 

Um comentário em “Portugal, amo-te!”

  1. Seja fruto da nossa experiência civilizacional,ou não, quem não sente prazer em ajudar os estrangeiros que nos abordam ? As nossas vergonhas e as nossas desconfianças esvaiam-se. Quem não gosta de dar a conhecer o que consideramos de bom e saboroso? No fundo, orgulhamo-nos do que somos e temos. E, acho eu, não nos considerando nem melhores, nem piores. sem comparações. No entanto, grande é a tentação de, cá entre nós, estarmos cada vez mais a escolher acentuar os pontos em que “os outros ” são melhores.
    Bom que, fruto do que viveste fora, pudesses escrever este texto, Gostei..

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