Prisões que se escolhem

Se pudesse voluntariamente escolher onde estou onde estaria? Será que os sítios que escolhemos são nossos para escolher? Ou são eles que nos escolhem a nós e dizem: quero este aqui.

Ou então, se calhar, existe uma força qualquer superior que nos arruma como um tabuleiro de xadrez organizando os movimentos de todos nós. Nesse xadrez gostava de ser mais que um peão, mas sinto-me sempre apeãozado.

Somos sempre escravos do que precisamos. Reduz as necessidades se queres passar bem. Que a dependência é uma besta. Que dá cabo do desejo, diz a canção e o Jorge com ela.

No meu frigorífico dizia assim: Só há duas maneiras de se ficar rico, ter mais ou precisar de menos. Não é tudo a mesma coisa?

Escolho este local incerto onde vivo e habito. Escolho esta cidade barulhenta, mas cheia de silêncios.

Hoje dizia a uma amiga: É como se tivesse escolhido encarcerar-me numa prisão, longe de tudo e de todos. Apenas com a diferença que é uma prisão louca e muito movimentada.

Assim estou. Preso. Sozinho. Não digo isto com pesar, ou tristeza, ou à espera de consolo. Digo o que sinto. E sei as escolhas que fiz. Escolhi uma prisão para encontrar a liberdade de outra.

Para aprender o preço e o valor de se ser livre, para aprender a amar e valorizar o que importa. Porque no meio do caos o que sobressai é a ordem. A ordem profunda daquilo que sobrevive a tudo. O que resta quando perdemos ou tiramos tudo. Quando não há mais nada para tirar então ficamos nós.

Espero ou desejo que seja esse o propósito desta jornada. O de ficar sem nada para encontrar o que sou e o que posso dar. Paciente talvez seja em algumas coisas (hoje diziam-me que era), mas muito ansioso. A sentir que tenho tanto para fazer. E o tempo que passa. E eu que vou ficando.

É curioso este diferencial entre aquilo que achamos que sabemos, e o que efectivamente já descobrimos ou aprendemos. Tantas vezes olho para mim e vejo sempre o menos, falta isto, falta aquilo, não consegui isto, não consegui aquilo. Mas outras vezes, a vida generosamente oferece a possibilidade de ver o que já aprendi, o que descobri, o que já sei e sou.

Olhando para o mundo, e para a dor e tragédia que é a vida de tanta gente, parece-me insignificante o que vivi, e até injusto achar que passei por isto ou aquilo quando na realidade a minha vida tem sido cómoda, confortável e boa.

Mas se calhar o que somos não se mede tanto pelo que nos acontece, mas mais pela forma como vivemos aquilo que nos acontece.

E neste dilema sempre eterno entre o que mudamos e não mudamos. Há sempre gente a lutar pelos dois lados. Gosto de acreditar que mudo e que não mudo. Que cresço e aprendo, que amadureço e aprendo alguma coisa. Mas que em mim há algo, que veio comigo ao mundo, que foi um presente dos meus pais, e que me faz quem sou. E isso é imutável.

Aventuras, ando sempre a dizer que quero mais, mas ás vezes pela boca morre o peixe.

por Bernardo Ramirez


escrito em Angola em Outubro de 2009

5 comentários em “Prisões que se escolhem”

  1. Quanto a mim, as maiores prisões são as interiores. Que estão bem no fundo de mim, de nós. As exteriores são apenas espelhos.
    Uma coisa eu aprendi: O que está fora de mim, é igual ao que está dentro; por mais que eu o queira ignorar.
    Abraço.

  2. Olá! Hoje,respondendo à última pergunta da entrevista que lhe foi feita pela jornalista Judite de Sousa, António Lobo Antunes respondeu: “(Daqui a 30 anos) gostava de manter a virgindade do olhar.” É o que te e me desejo!Mãe

  3. De tudo, as frases mais marcantes: “Tantas vezes olho para mim e vejo sempre o menos, falta isto, falta aquilo, não consegui isto, não consegui aquilo. Mas outras vezes, a vida generosamente oferece a possibilidade de ver o que já aprendi, o que descobri, o que já sei e sou.” Em ti, me li! Um abraço caro virtual amigo!
    João Beauclair

  4. Caro João o teu comentário merece-me um comentário porque vens sem (eu) saber quem és. Porque cruzas o nosso atlântico e ofereces-me-te as tuas palavras. Obrigado pela atenção que me ofereces-te.
    Bernardo

  5. Filho, quando cheguei ao fim, senti-me mais cómoda: Angola, 2009 e não, penso eu, Três Cantos, 2015/16. Foram meses muito difíceis esses em Angola. Mas de certeza que lá , ou mais tarde, exatamente por teres lá estado, mudaste e cresceste.Quanto à ideia geral, é um retrato do teu estar e das dúvidas que sempre vão aparecendo dentro de ti. Concordo em absoluto com a frase em itálico. Quanto ao teu ADN, é a tua carne.

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