Quem é esta criança no berço?

Durante os meses da gravidez existia em mim uma questão permanentemente no fundo da cabeça: como me vou sentir quando vir o meu primeiro filho pela primeira vez? Como será a aventura da paternidade?

Todas as pessoas tinham opiniões, mais ou menos, diferentes: a tua vida vai mudar;  vais sentir coisas incríveis; vais chorar que nem uma Madalena arrependida;  vais sentir um amor gigantesco; vai ser muito estranho e esquisito.

Sabia, desde o princípio, que a Cecília tinha uma tremenda vantagem. O facto do bebé estar a crescer dentro dela significava que ela já estava a estabelecer relação com ele desde o princípio. Quando queria dormir 20 horas por dia. Quando conseguia estar doce e meiga e no mesmo minuto furiosa. Quando chorava por razões que nem entendia. Quando via a barriga dela em movimentos involuntários, ou sentia coisas no corpo que nem podia explicar. Tudo isso eram acontecimentos que mostravam como o vínculo entre os dois era inquestionável e que já tinha começado.

O meu papel, durante esse tempo, era tentar, em tudo, ajudar, ao mesmo tempo que continuava a imaginar e idealizar o futuro com o Gabriel. Até porque ser pai sempre foi um sonho meu. Um sonho que cheguei a pensar que nunca concretizaria. Sonhar em tê-lo nos meus braços, em ver os seus olhos, as suas mãos e pés, em ouvi-lo a rir e a chorar.

Muitas coisas também mudaram para mim. Passei a sonhar muito com crianças. Antes, a única criança dos meus sonhos era eu. Depois passaram a aparecer imensas crianças quase todas as noites. Mas esse vínculo poderoso com o meu filho, esse amor gigante, não posso dizer que sentia.

Sempre achei que quando o meu filho chegasse, e saísse jorrando de dentro de sua mãe, iriam jorrar em mim toneladas de metros cúbicos de lágrimas comovidas. Dizia, meio a brincar, que ia colocar uns tampões nas bochechas para não inundar o quarto do parto.

Mas a vida é assim, cheia de surpresa e vontade própria. Acabou por não ser assim. Não assisti ao parto e a primeira vez que vi o bebé, alguém teve de dizer-me : “Este é o seu filho Gabriel!”. E esse foi o momento de apresentação formal. Dois seres que nunca se tinham visto serem apresentados por uma desconhecida. E, naquele instante, mais que alegria, foi uma enorme sensação de alívio, de serenidade, por ver que ele estava ali, bem e saudável. E que apesar do parto contrbado agora tudo estava bem.

Ele chegou e muito rapidamente teve de ir de novo. Foram instantes. Uma fração de segundos. E depois eu fui ter com ele e a magia da relação a dois entre nós começou. Fiz a famosa pele com pele e estivemos ali os dois a conhecer o que é partilhar a nossa vida para sempre.

Eu estava encantado e apaixonado por aquele mini ser maravilhoso e muito pequenino. Mas não sentia nada daquelas coisas que as pessoas me tinham vendido nas revistas cor de rosa. Ou que eu estava convencido que deveria sentir.

Também não estava nada preocupado. Apenas curioso.

E foi então que me lembrei. Uma coisa que uma senhora me disse uns dias depois dele nascer. E que cada vez ressoa mais em mim: “O amor incondicional e gigante, aquele imenso espaço que os nossos filhos ocupam em nós não surgiu, pelo menos para mim, no momento do nascimento. Pelo contrário, começou pequeno e tímido. O amor foi crescendo. Com cada olhar trocado, com cada abraço, com cada toque nas mãos ou nos pés, com cada sesta nos braços, com cada momento de carinho…”

E é mesmo assim que sinto. O amor do pai é crescente. Vai crescendo como a relação com o filho vai crescendo. Cada vez que o beijo. Cada vez que lhe cheiro o cabelo ou o pescoço. Cada vez que se encolhe com alguma malandrice que lhe faço. Ou cada vez que o tenho nos meus braços. Sinto o meu amor crescer. Crescer, fortalecer-se e expandir.

E é incrível esta sensação.

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