Sou como o vinho tinto (mas de qualidade, claro)

De vez em quando, dou por mim a olhar para um determinado momento da minha vida e a pensar: Mas eu fiz mesmo isto assim? Eu deixei mesmo que isto acontecesse? Eu aceitei realmente isto com naturalidade? Era mesmo capaz de isto?

E, num primeiro momento, o que se me surge é um certo sentimento de culpa, uma vontade de criticar ou insultar esse eu dos dez, ou dos vinte, ou dos trinta anos. Que pateta eu era! Sabia tão pouco da vida! Sujeitava-me a cada coisa!

Mas rapidamente esse sentimento muda. Olhando de novo, dando um passo atrás de forma a poder olhar para o que se passou com uma melhor perspectiva fica um sentimento de alegria e ás vezes de surpresa. Coloco o Bernardo dos vinte ao lado do Bernardo dos quarenta. Olho para o que fiz, para o que faço, para a forma como me colocava nas situações e a forma como me coloco e sinto orgulho e felicidade.

Orgulho-me de perceber o quanto cresci, o quanto mudei, o quanto amadureci. Sim, sou daqueles que acredita que as pessoas mudam. E ás vezes até me consigo surpreender. Não pelo sítio onde estou, porque como estou nele tenho mais dificuldade em vê-lo e percebê-lo, mas porque ao o comparar com o outro ponto consigo perceber e ver claramente como mudei.

Já houve momentos na minha vida onde me sentia permanentemente culpado e em dívida para com o mundo. Onde achava que tudo o que fazia tinha de ser para agradar alguém. Onde me sentia permanentemente feio e mal amado. Que os meus passos, as minhas acções, os meus desejos, eram colocados de tal forma ao serviço dos outros que acabava por me sentir explorado e sem amor próprio.

O amor que oferecia era um amor receoso e egoísta. Amava da forma que achava que os outros queriam e esperavam. E amava na esperança que esse amor fosse devolvido ou retribuído. E esse desejo ardente, e esse desequilíbrio emocional, só servia para me fazer sentir mais sozinho e pior, para afastar todos e tudo o que queria.

Hoje mudei muito. Não me aproximo de quem me trata mal. Não aceito determinadas situações e relações. Porque sei que há coisas na vida que não controlamos. E as circunstâncias da vida são o que são. Mas sobre elas temos sempre o poder de escolher. E dentro do nosso universo de possibilidades podemos sempre escolher.

E tal como amo os outros pelo que são, espero e aceito o amor dos outros como é. Mesmo quando a forma e o sabor não são os que gostaria ou desejo. Procuro e trabalho por situações e relações equilibradas sem cobranças e sem dívidas. E tento construir a minha vida numa dádiva livre de prisões, exigências, chantagens ou desejos. E tento construir relações que assentam no equilíbrio e na reciprocidade.

E porque, acima de tudo, ao olhar para a minha história (e garanto que o mesmo se passa convosco), tenho a certeza que, naquele momento, o Bernardo dos vinte fez o melhor que podia, com as ferramentas que tinha. Que independentemente da merda e das asneiras que fiz, naquele instante foi o que consegui e o que fui capaz. E, por essa razão, agradeço-lhe o seu esforço, o seu sacrifício e o seu amor. Porque é por eles (todos os Bernardos da minha história) que hoje existo e sou quem sou.

 

por Bernardo Ramirez

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