Acordei para vos dizer o que sinto

Acordei para vos dizer o que sinto

Acordei para vos dizer o que sinto. Porque o sinto muito importante. Porque hoje acordei a chorar. Porque ás vezes nos esquecemos. E porque esse é o meu propósito: dar-vos o que tenho de melhor! Há uma ordem à vida. Ia dizer um propósito, mas esse é individual e pessoal e por isso cada um tem de encontrar o seu. Mas há uma ordem.

Neste universo todos estamos ligados uns aos outros, pelo tempo e pelo espaço, de formar por vezes óbvias e tantas outras subtis. Ligados a pessoas, ligados a eventos, ligados entre nós. Como células num corpo humano. Cada um com o seu propósito.

Não consigo hoje explicar melhor.

Quando estamos realmente acordados, atentos e vivos, e olhamos de fora e de forma abrangente para a nossa vida, percebemos que os pontos se tocam, e que existe um princípio que nos agrega.

Para os que acreditam no divino, ou em Deus, esse propósito é mais uma missão, um objectivo, pelo qual somos colocados na terra. E não importa onde estamos e o que estamos a fazer. Nunca é tarde demais ou impossível para vivermos esse propósito. Aliás esse momento onde estamos é perfeito. “Confia e assim será.”

Um filme maravilhoso chamado “Peaceful Warrior” há uma parte em que os dois personagens falam sobre as regras da vida:

Dan: A vida tem apenas três regras?
Sócrates: E tu já as sabes…
Dan: Paradoxo, humor e mudança.
Sócrates: Paradoxo…
Dan: A vida é um mistério. Não percas tempo a tentar percebê-la.
Sócrates: Humor…
Dan: Mantém um sentido de humor, em especial sobre ti próprio. É uma força incumensurável.
Sócrates: Mudança…
Dan: Sabe que nada permanece imutável.

Hoje estou aqui para vos dizer. Esse propósito, essa ordem não é para entender, é para acreditar. Ser advogado, mecânico, indefinido (sim isto é para todos os meus queridos amigos), todos temos um propósito. Mas a magia de se estar vivo não é descobrir o propósito. Ele vai sempre fugir-nos. É vivê-lo porque ele é nosso. E para isso precisamos de fé e de acreditar. Porque o entendimento ou a procura do entendimento é da cabeça e o propósito é do coração.  E não é uma fé religiosa, é uma fé profunda na vida, no viver, e no ser humano.

Hoje estou aqui para vos dizer. Esse princípio agregador, essa cola infinita, doce, absoluta e magnífica é amor. Simplesmente amor.

E por isso, a melhor forma de encontrarmos a nossa orientação, um mapa que nos guie nesta vida, um percurso que nos devolva a verdade e a alegria de viver, é o fazer aquilo que amamos. Aquilo que quando fazemos nos devolve a nós. Um silêncio completo, cheio e abundante, que nos permite olhar para tudo com um olhar sereno e forte. Fazer o que amas.

PS: Às vezes tenho dificuldade em conseguir pôr em palavras o que sinto e por isso atiro todas as minhas emoções para o que escrevo na esperança que mais que as palavras os sentimentos e as emoções vos cheguem.

 


Bernardo Ramirez
www.bernardoramirez.com
“Escrevo coisas, gosto de pessoas, procuro ligações com sentido”

Escrito a 16 de Outubro de 2009, quando estava a viver em Angola. Podem ler mais aqui.

Carta aos filhos

carta aos filhos

(aos meus principalmente, mas a todos em geral)

Está quase, meu filho. Ainda ontem eras um projecto e hoje tens quase forma. Durante muito tempo achei que já não serias uma realidade. Que esta vida não seria para ser pai. Que o tempo tinha passado e eu nem tinha visto. Mas enganei-me!

Vais chegar. A um mundo cheio de emoção, de dores, de aventuras, de coisas belas e de coisas feias. De desafios e de oportunidades. Um mundo de dualidades e dicotomias, mas o mundo que tu escolheste vir conhecer. E com os pais que escolheste para ti.

Sinto o peso dessa responsabilidade dentro de mim. No meu coração. E por isso, porque quero fazer o meu melhor, queria deixar-te uma espécie de manual. Um resumo guiado das coisas que considero mais importantes que aprendi até agora. Espero que um dia possas ler isto e que te sirva, se não de ferramenta para a tua vida, pelo menos de algo que te permita saber um pouco mais sobre o teu pai, e sobre o que considero valioso e importante.

Ama.

É o mais importante do mundo, amar. Mesmo que te digam que não. Mesmo que te digam que as pessoas não merecem. Mesmo que te digam que é um desperdício. Mesmo que esse amor não seja correspondido. Não acredites. O amor vale sempre a pena.

Na minha vida sempre amei. Com paixão, com generosidade, com entrega, com dedicação e, acima de tudo, sem complexos. O amor vale sempre a pena. O amor enche, o amor aumenta, o amor faz crescer e, acima de tudo, o amor transforma.

Claro que houve momentos de dor, de arrependimento. Mas o amor é a resposta para a grande maioria dos problemas desta vida. E nunca é demais.

Aprende.

Nunca digas que não a algo que te querem ensinar. Nunca percas a oportunidade de aprender. O conhecimento não ocupa lugar.

Quando fores mais novo, na escola, se gostares de aprender é possível que te achem um pouco chato, demasiado interessado na escola e no conhecimento. Que te digam que isso não está na moda e que faz de ti algo aborrecido. Mas essa curiosidade e vontade de aprender vai servir-te de muito, no teu futuro.. O mundo é quase ilimitado. E o que há para aprender também. E essa é a melhor forma de hoje seres mais que ontem. Aprender.

 

Sorri
Photo by David Siglin on Unsplash

Sorri.

Aconteça o que acontecer tenta sempre sorrir. Não que seja fácil ou que o consigas fazer sempre. Todos nos sentimos tristes às vezes. Mas com um sorriso fica tudo melhor.

Sorrir aquece o coração de quem sorri e de quem vê sorrir. Tenta sempre encontrar razões para sorrir. Porque tu constróis a tua realidade. E se a fazes com sorrisos ela vai ser cheia de sorrisos. E o mundo, tão rico e diversificado, oferece-nos tantas oportunidades para sorrir.

Falha.

Não tenhas vergonha de não poder ou não conseguir. Falhar é parte fundamental da nossa vida. E é algo inevitável. Quem não falha não faz ou não vive.

O impossível foi sempre alcançado por quem não sabia que era impossível ou por quem estava convencido que conseguiria. O importante não é o que não consegues. O importante é lutares pelo que queres. É a força que tens para conseguires alcançar os teus objectivos.

E a vida é assim. Feita de vitórias e de fracassos. Mas o fracasso torna-nos fortes, e, acima de tudo, ensina-nos uma lição muito valiosa: o que não fazer.

Sê feliz.

Faz mais do que te faz feliz do que do que não te faz. Parece uma patetice, mas não acho que seja. Há muitos que não o sabem fazer ou que não o conseguem.

Nem sempre podemos escolher. Mas quando podemos então é melhor escolher o que nos faz feliz. E esta tarefa que parece tão simples é um desafio gigante. A maioria das pessoas, e eu incluo-me nesse grupo, tem problemas com a mudança e com a coragem. Mais ainda quando se juntam os dois: a coragem para mudar ou para não mudar.

Aprender a identificar o que nos faz feliz e executar essas acções ou comportamentos necessários é um dos grandes desafios da vida. O teu pai ainda anda as voltas com este.

Dá.

Sê generoso com o mundo e com as pessoas. Mesmo quando não o merecem. Mesmo que fiques com menos. O universo tem uma forma incrível de te devolver o que precisas quando precisas. Nunca ninguém ficou com menos por partilhar o que tem.

E é tão bonito transformar o mundo com pedaços do que somos e do que fazemos. Ver o sorriso de quem recebe e o calor de quem partilha.

Tu primeiro.

Coloca-te sempre em primeiro lugar. Não podes fazer nada pelo mundo, pelas pessoas, pelos amigos ou familiares se não tomas conta de ti primeiro. Tens de te conhecer, que te amar, que te estimar e que te cuidar antes que o possas fazer ao mundo.

O verdadeiro mistério da vida é o descobrir a fidelidade a nós mesmos. E sem esse conhecimento e respeito tudo o resto é impossível.

 

Viaja
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Viaja.

Viaja muito. Viaja sempre que possas. E nisto temos a sorte de termos uma família que partilha esse entusiasmo.

Viajar serve para duas coisas diferentes: para conhecer o diferente, e para colocar as coisas em perspectiva. Viajar permite perceber a nossa dimensão real. Que o que cremos, o que gostamos e o que sabemos não é nada mais nem menos que o de qualquer outra pessoa.

E para colocar em perspectiva porque quando vês o outro percebes que há sempre melhor e pior. Mais alegre e mais triste. Mais forte e mais fraco. Alguém um dia disse-me: há sempre alguém com um barco maior que o teu.

Além disso viajar é incrível. Cores, sons, sabores, imagens. Veres um buda gigante dourado em cima de um pedra grandiosa, mergulhar numas águas azuis transparentes banhadas por um sol de verão, comer um hambúrguer numa hamburgueria americana ou um sushi num japonês numa rua de Tóquio. Um mar de aventuras e experiências.

Come.

Para mim filho, não há nada mais fantástico do que comer e dar de comer. Para mim a comida é magia, é esperança, é alegria.

Lembro-me de quando comi pela primeira vez azeitonas, chocos con tinta, umas lulas à sevilhana, e churros de feira. Às vezes obrigo a tua mãe a percorrer quilómetros para irmos a um restaurante que ouvi dizer é fantástico. E se acontece estar fechado, posso tentar convencê-la a voltar (mas isso fica para outra história).

E ainda mais bonito que comer é cozinhar e dar de comer. Há algo de divino em receber e servir. Comida em especial. Todo esse processo alquímico, de transformar uma coisa em outra. Algo que preenche as pessoas, que as alegra e que as alimenta.

Tecnologia.

Não sei como vão ser as coisas daqui a 10, 20 anos. Desde os dias em que a televisão só se via à noite e a preto e branco até hoje, que vemos tudo em todos os ecrãs, já mudou tanta coisa. O telefone já teve uma roda com números que tinhas de girar para marcar um número de telefone. E os jogos vinham em cassetes, como a música (será que ainda vais saber o que é uma cassete?).

Como será? Não sei. Mas para mim a tecnologia está ao nosso serviço. Como tudo é uma ferramenta. E depende de nós o uso que lhes escolhemos dar. Por isso tenho muita reticência acerca dos que criticam a tecnologia, que a chamam perigosa, má. Aqueles que temem o futuro e preferem voltar ao passado e por de parte o que se evoluiu naturalmente.

Eu adoro a tecnologia filho. Adoro! Gadgets, aparelhos, maquinitas, geringonças, e adoro ver a possibilidade do futuro. E o que se consegue fazer com o que existe e com o que se imagina irá existir. E descobrir sempre passos novos e novas possibilidades.

 

Canta
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Canta.

Quem canta os seus males espanta. Quem me conhece sabe que levo isso ao extremo. Extremo da alegria para mim, e ás vezes, extremo do incómodo para os outros. Canta como se não houvesse amanhã. Canta como se ninguém te estivesse a ouvir.

Ao teu pai já lhe chamaram Juke Box humana. Basta dizer uma palavra, e lá começo eu a cantar a música que a minha memória guarda. Tantas vezes fora de tempo, de ritmo, de tom ou de letra. Mas cheio de alegria.

Faz parte de tudo e da vida. Expressa a multiplicidade de forma única e ensina-nos sobre o mundo, a natureza humana, a nossa alma. A música é algo verdadeiramente belo.

Faz parte.

Filho, aconteça o que acontecer, tenta fazer parte. O mundo só se muda por dentro. Fugir do que existe não muda o mundo. Cria alienação. Muitas vezes tive o desejo ardente de fugir. De criar uma comunidade isolada do mundo onde tudo é lindo e perfeito. Onde se pratica só o bem e o amor. Mas isso não é responsabilidade social e não é amor pelo mundo e pelas pessoas. É fugir e esconder e evitar os desafios de estar vivo.

 

Em forma de conclusão digo-te. Aquelas pessoas que te vierem dizer que as pessoas não prestam, que os animais é que são bons, que a humanidade está perdida, que os seres humanos não merecem viver só estão um pouco equivocadas e não vale a pena ligar com muita atenção.

Filho, é isto. Um resumo simples e simplista do que move o teu pai. O que eu aprendi até hoje. As coisas que correm bem e os desafios que sinto todos os dias. Mas se não tiveres paciência para ler isto tudo, e quiseres ainda um resumo mais pequeno do que é para mim viver, eu digo: as pessoas. Não há nada mais bonito, mais incrível, mais complexo e mais singular que as pessoas. Aprende a conhecer as pessoas e o mundo será teu.

Do teu,

Pai

 


Bernardo Ramirez
www.bernardoramirez.com
“Escrevo coisas, gosto de pessoas, procuro ligações com sentido”

Escrito a 4 de Dezembro de 2017, para celebrar a chegado do nosso filho Gabriel

O princípio da proporcionalidade

Como todos sabemos a grande magia e o grande desafio da nossa existência são as relações humanas e, em mais detalhe, as relações amorosas. As pessoas gostam de falar de amor, de sentimento, de emoções, de paixões e desejos, mas esquecem-se muitas vezes do ponto central de todas as relações: a proporcionalidade.

Sou, como somos todos, um especialista em relações. Não pela qualidade ou pelo sucesso das mesmas, mas porque estando vivo tenho muitas. E, por outro lado, as relações humanas são algo que me fascina e apaixona.

Da minha observação e análise chego à conclusão que a grande maioria das pessoas escolhe iludir-se ou enganar-se no que toca às relações humanas. Isto porque utilizam como factor determinante, para o sucesso das mesmas, critérios que são absolutamente inúteis na avaliação dessas mesmas relações.

Amor: toda a gente gosta de falar de amor. “Eu amo-o”. “Mas ela ama-me”. ”Eu sinto imenso amor”… etc, etc, etc.  Na verdade, o amor é um sentimento fundamental, mas não é fundamental para o sucesso das relações. Todos nós já presenciámos na nossa vida pessoas que amam apaixonadamente ou dedicadamente alguém que as ignora, despreza ou até mesmo que é cruel com elas. Muitas vezes digo e penso que o amor não chega. Pelo menos para o sucesso de uma relação entre duas pessoas.

Desejo: o desejo é um dos motores da vida. “Eu quero isto”. “Eu desejo aquilo”.  “Aquela pessoa deixa-me doido”.  Essa energia tão quente e tão forte, muitas vezes vai-se embora tão rapidamente como surge. E não é necessária, nem muitas vezes útil, a uma relação. Ainda mais porque como nos ensina o Taoismo, no momento em que conseguimos o que desejamos, deixamos de desejar e passamos logo a desejar a próxima coisa.

Fidelidade: este é outro ponto sensível.  Muitas pessoas crêem que a fidelidade é fundamental ao sucesso das suas relações. Tanto que se dedicam a destruir e a arrasar relações por não terem cumprido esse requisito. Mas ao mesmo tempo, todos nós conhecemos relações onde existiu infidelidade (assumida ou não) e que não foram razão para o fim da relação. Podem dizer que a qualidade dessas relações não podia ser grande por se basear numa mentira. Mas, mesmo relações que assumem espaço para uma diversidade de relações dentro da mesma relação, continuam a ter problemas e desafios relacionais.

Existem muitos outros factores que as pessoas identificam como fundamentais e garantes da qualidade das relações amorosas. Esses factores parecem, em minha opinião, ser de pouca eficiência e não olham para o fundamental.

O principal das relações, sejam amorosas ou não, é a proporcionalidade. A proporcionalidade é a única garantia de uma relação de longo prazo tranquila, amorosa e bem sucedida.

E o que quero dizer com proporcionalidade? Uma justa distribuição de tarefas, de responsabilidades, de afectos, de atenção, de amor.

Quantos de nós não tivemos relações com pessoas que não nos ligavam, que não nos davam atenção, que não expressam o amor. “Mas é porque sou assim”. Para depois descobrirmos que afinal nos sentíamos usados por alguém que não se envolve. Ou cansados de alguém que quer sempre mais de nós.

É muito bonito dizer: “Mas eu gosto de ti, eu penso em ti, tu és importante para mim.” Mas a verdade é que isso não vale nada sem acções. A proporcionalidade exige um acto consciente. Uma intenção e um movimento.

Porque por muito que tenhamos coisas dentro de nós, na construção de qualquer relação, o outro só consegue identificar o que vê e o que sente da expressão do que fazemos e mostramos.

A falta de proporcionalidade é terrível e mata as relações. Homens ou mulheres distantes numa relação amorosa. Amigos que nos dizem que precisam de espaço ou não respondem aos nossos pedidos e solicitações.  Isto não é por crueldade. Não é porque a pessoa seja má ou não goste de nós. Acontece apenas porque não estamos nessa relação num ponto de equilíbrio. Entre o dar e o receber.

Podemos desejar, amar, querer o outro. Mas se estamos sozinhos, se somos sempre nós, então estamos sozinhos numa relação que é de duas pessoas. Ou porque somos de mais ou porque o outro é de menos, ou porque não é para ser, ou porque não é o momento.

Mas a proporcionalidade é um sinal muito bom da saúde da relação e do seu possível futuro. Como a sua ausência é muito mau sinal.

Então, e por isso, eu tento praticar a proporcionalidade nas minhas relações. Isso implica que muitas vezes tenho de parar e dar um passo atrás. E, quem me conhece, sabe como isso é difícil para mim. Parar e olhar e esperar e avaliar. Para que a relação cresça de forma saudável.

É esse o exercício. O de colocar tudo na balança e de avançar ou retroceder conforme o necessário.

Claro que a proporcionalidade não tem de ser matemática, nem sincronizada. As coisas mudam e variam. Um dia podemos ser nós, no dia seguinte o outro. Mas se são sempre vocês, se são só vocês, se o tempo passa e nada muda, tudo isso são muito maus sinais.

Por isso vamos aprender a praticar a proporcionalidade. Vamos medir o nosso compromisso contra o compromisso do outro, a nossa dedicação em função da do outro. E esperar uma relação o mais equilibrada possível, e não aceitar o futuro possível e provável da mesma, sem que tenhamos uma voz activa e uma partição nesse mesmo futuro.

Paternidade e igualdade

[You can read it in english here]

A questão da igualdade de género é profunda e polémica. Quando olho para a sociedade actual e vejo a forma como ainda, em tantos sítios, as mulheres continuam a ser tratadas com injustiça, com desigualdade e com preconceito não consigo deixar de sentir uma profunda tristeza.

Não sou radical na questão da igualdade. Aliás acredito que, tanto os homens como as mulheres, têm características e papéis distintos. O que não os faz ter maior ou menor valor. Além disso, hoje em dia, mais que em qualquer outro tempo ou lugar, os papéis podem inverter-se e mudar sem que isso signifique um desmérito para nenhum dos géneros.

Sempre fui dos que se imaginou como pai, mas mais que isso como dono de casa. Vejo com facilidade e com um sorriso a possibilidade de trabalhar desde casa, de cuidar dos filhos, de passear com os animais de estimação e de cozinhar para a família, de cuidar do jardim, das plantas e das pessoas.

Agora que sou pai ainda me é mais difícil vir trabalhar e perceber que estou longe durante tantas horas do ser que mais me importa. E a fazer coisas às quais encontro só uma importância relativa.

O que não sabia, nem tinha noção, é do quanto a paternidade e a maternidade são desiguais, mas no sentido do favorecimento do papel da mãe.

Quero deixar claro que tenho perfeita noção da importância da mãe para qualquer criança e bebé. E que, por muito que um homem sonhe, não poderá substituir, principalmente nos primeiros anos de vida, o papel fundador e fundamental da mãe.

Mas ao mesmo tempo fico de coração partido pela forma como mundo gere a paternidade.

Não consigo entender como há pais que convivem com tranquilidade à distância dos seus filhos, como aceitam que uma mãe tenha seis meses de licença de maternidade e o pai tenha um. “Porque o pai não faz assim tanta falta.”, já ouvi dizer. Ou aceitar que a mãe tome decisões sobre o filho de forma unilateral.

É triste e ridículo aceitar que o pai não participe, não se envolva, não se comprometa. Ou que, mesmo quando tenha essa intenção, vontade e desejo não lhe seja permitido o espaço,  o tempo e as condições para o fazer.

Isto acontece até com os tribunais. Na grande maioria dos casos, até há uns anos atrás, a tutela dos filhos era dada à mãe, sem preocupação ou cuidado sobre a capacidade, desejo, vontade ou direito de cada um dos pares.

O nosso filho

O nascimento do nosso filho foi precipitado em três semanas  com todas as ansiedades e nervos que isso acarreta. E chegados ao hospital ficou claro que o pai não tem importância quase nenhuma no processo do nascimento e do cuidado pós-parto.

O quarto onde estava a minha mulher a preparar-se para dar à luz tinha uma casa de banho que era de uso exclusivo para ela. E se durante todos estes dias que vive no hospital quiser tomar banho? Não pode. E onde pode o pai ir fazer as suas necessidades biológicas? Há uma do outro lado do hospital para visitas.

Ok. Enquanto fui à casa de banho o meu filho nasceu de cesariana de urgência.

E quando cheguei ao quarto, da longa viagem para a casa de banho, não estava nem a minha mulher, nem o meu filho, nem médicos, nem enfermeiros, nem parteira, nem ninguém. E a conversa seguinte é real e aconteceu:

“Onde está a minha mulher e o meu filho?” Pergunto eu na recepção que ficava de frente para o quarto.

“Quem é a sua mulher e o seu filho?” pergunta-me uma enfermeira super bruta.

“Como quem é??? A que estava ainda aqui e agora neste quarto.” Digo já a ficar bastante enervado.

“Mas afinal quem é você???” Pergunta-me a enfermeira  enquanto eu sentia que tinha entrado na Quinta Dimensão.

“Como quem sou eu? Eu sou o pai e o marido da mulher que estava neste quarto. Está  a gozar comigo??!?!?”

“Mas ninguém falou com você???”

E pronto, depois lá perceberam que ninguém me tinha dito nada. Que tinha de ir para a zona das cesarianas. Que o meu filho ia nascer em minutos. E não me explicaram mais nada.

A estúpida da enfermeira estava a dizer-me o que fazer. Mas eu estava doido. Tentei entrar na sala para onde ela apontava. Gritou comigo. Disse que tinha de ficar ali a apontar para um azulejo. E o que a sala não era para eu entrar Eu comecei a andar de um lado para o outro super nervoso. E ela ainda voltou para trás a dizer que não podia andar naquele corredor e que tinha de ficar ali, naquele sítio, naquele azulejo.

Enfim. Tudo correu bem e o bebé e a mãe apareceram bem. Foram só minutos de muita angústia e de falta de cuidado pelo pai.

Além disso, nas quatro noites que estive no hospital dormi sempre numa cadeira que funcionava como espreguiçadeira. Zero conforto. Sempre convidado a sair quando se tinha de fazer algo à minha mulher ou a outra mulher que estivesse no quarto. E se estivesse a dormir às cinco da manhã que importa?!?!? Acorde e saia já lhe disse.

Prioridades

Não consigo perceber bem. Mas é assim. O homem é facultativo e pouco importante. Pela tradição, pela cultura e pela norma.

Mas eu não quero ser assim. Na nossa casa é o nosso filho. Decidimos a meias. E fazemos tudo a meias. Não há tarefas de um e tarefas de outro. Mas neste caso, já que a mãe está presa a dar de mamar o dia inteiro eu tento fazer tudo o resto para proporcionar o máximo bem-estar.

Eu troco fraldas, eu faço comida, eu limpo a casa, eu lavo a roupa, eu passeio os cães. E isso é normal e bom.

É deste preconceito que falo. Tal como é injusto que um homem ganhe mais na mesma posição de uma mulher, é injusto assumir que um homem faz menos ou é menos em relação aos filhos.

Num mundo onde queremos promover o desenvolvimento e a igualdade temos de ser cuidadosos com os preconceitos e os estereótipos.

Eu sou pai. É um direito adquirido a partir do momento em que nasceu o meu filho. E essa parte da paternidade é 50 por cento. Como a da mãe é outro 50. E só do respeito por esse equilíbrio se pode esperar um desenvolvimento saudável das crianças.

Das NOSSAS crianças.

O pilar das relações

Uma torneira fechada sobre um fundo colorido

As relações assentam nas concessões. Sim, isso mesmo. Não é o amor, não é a paixão, não é o desejo, nem a vontade. É a capacidade que temos para, em conjunto, ceder de forma a chegar a um lugar comum. E isto é verdade para todas as relações.

Parece algo trivial e simples, ou até banal, mas não é. Saber distinguir o que nos é fundamental do acessório é, já por si, uma aventura imensa. Porque tantas vezes descobrimos que aquilo que nos parece fundamental é acessório, e algo que achamos pouco importante acaba por ser fundamental. Continuar a ler “O pilar das relações”

A realidade é f… (lixada)

Todos nos sentimos mais ou menos desafiados pela realidade. É ela que determina o quando, o como, o qual e o onde. E essa relação com o que nos está a acontecer e onde estamos determina o grau do nosso bem estar e da nossa saúde (tanto física como mental).

Ao longo da minha vida tenho conhecido muitas pessoas que são realidadodesafiadas. Normalmente são pessoas que desejam ardentemente… Desejam amigos, desejam amor, desejam dinheiro, desejam saúde… E sofrem, sofrem muito por sentirem que não os têm, ou porque sentem que nunca os tiveram e que nunca os vão ter. Continuar a ler “A realidade é f… (lixada)”

Entre o amor e a paixão

O cartaz do filme Captain Corelli's Mandolin

Ontem, na minha insónia, dei mais uma vista de olhos ao filme Captain Corelli’s Mandolin. Há uma parte onde um pai explica à filha (e também personagem principal Penelope Cruz) a diferença entre paixão e amor. Vale a pena ler:

When you fall in love, it is a temporary madness. It erupts like an earthquake, and then it subsides. And when it subsides, you have to make a decision. You have to work out whether your roots are become so entwined together that it is inconceivable that you should ever part.
Because this is what love is.
Love is not breathlessness, it is not excitement, it is not the desire to mate every second of the day. It is not lying awake at night imagining that he is kissing every part of your body.
No… don’t blush. I am telling you some truths.
For that is just being in love; which any of us can convince ourselves we are. Love itself is what is left over, when being in love has burned away. Doesn’t sound very exciting, does it? But it is!”
Continuar a ler “Entre o amor e a paixão”

O primeiro beijo

Eu a dar um beijo ao meu amor

Todos temos um primeiro beijo. Alguns muito sortudos têm vários. Algo apaixonado ou acidental ou desastroso que acontece numa fase da vida onde o romance, a paixão e o desejo (na sua maioria platónico) estão em alta.

Sempre fui um romântico pragmático. Já desde pequeno. Lembro-me com seis anos acabado de chegar à primeira classe que fui visitar o meu ex-infantário que era no local de trabalho da minha mãe. E, sem saber muito bem como, decidimos, eu mais velho e experiente, com o resto das crianças, que íamos dar beijos na boca. Mas não beijos discretos e subtis. Beijos de espectáculo e plateia. Continuar a ler “O primeiro beijo”

Infiel ou e então?

Um sinal de um autocarro a dizer: salida de emergencia com um boneco a correr

Num workshop a que assisti há alguns anos, uma professora contava uma história sobre índios americanos. Uma mulher chegava perto das anciãs da sua aldeia e dizia: O meu marido foi-me infiel. E uma das anciãs respondia: E então? Junta-te a nós.

Esta talvez seja uma das mais velhas e comuns questões do mundo: a da infidelidade. O amor, ou melhor dizendo, os meandros das relações humanas, já provocaram muitos divórcios, muita violência, muita guerra, muito ódio, muita miséria, e muitos filhos de pais separados. Continuar a ler “Infiel ou e então?”

O amor não é sexy

Uma caneca do Darth Vader com um boneco do Yoda na frente

O amor não é sexy. Não nos vamos iludir. Não é sensual, não é forte, não é doido, não é tudo. O amor apenas é.

Durante muito tempo, se calhar como acontece com tanta gente enquanto crescem, confundi o prazer, o desejo, a paixão com amor. Achava que o amor era uma coisa arrebatadora, louca, apaixonante e doida.

E passava grande parte do meu tempo a procurar esse sentimento, e o resto do tempo convencido que o tinha encontrado nesta pessoa. Não espera, naquela pessoa. Não, afinal naquela outra. Continuar a ler “O amor não é sexy”