Ser pai é estar presente

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Um dos maiores flagelos não verbalizados do século XX e XXI é o trauma provocado nos filhos pela separação dos pais ou pela sua ausência e as repercussões que esse evento tem na forma como as crianças se comportam nas suas relações sociais e amorosas enquanto adultos.

Para muitos, e incluo-me nesse grupo, o momento da partida do pai provocou um evento traumático na vida que, mais tarde, muito mais tarde, exigiu muito trabalho para poder ser resgatado. E infelizmente, como aconteceu comigo, acontece que milhares e milhares de crianças e adolescentes no mundo diariamente.

escrevi sobre isto e sei que não sou a pessoa mais isenta para falar deste tema. Sou uma das vítimas desse flagelo. Mas também sinto que este é um dos grandes temas não falados. E, por isso, tomo para mim a responsabilidade de trazer à luz do dia este tema. Vamos então discutir o papel do pai e em particular o papel do pai ausente.

Confesso que com o avançar da idade a minha tolerância para merdas, especialmente merdas parentais, vai-se reduzindo drasticamente.

Hoje, 2020, é chegado o tempo da Igualdade Parental. Tempo para esse conceito tão desconhecido deixar de ser um mito. Para um mundo com mais respeito, sem machismo, com mais amor e justiça para todos. É fundamental conhecermos e praticarmos a Igualdade Parental. É um imperativo categórico. Uma obrigatoriedade.

No entanto, a realidade ainda está bastante distante desde conceito ideal. A ausência parental, que se manifesta na sua larga maioria no pai, e que é a grande provocadora dos problemas explicados, tem duas formas de expressão igualmente terríveis. Apesar de uma ser muito mais visível do que outra. Por um lado, um pai que está fisicamente ausente, ou, por outro lado, um pai que está fisicamente presente, mas que também ausente.

Tenho ouvido muitos pais dizerem, principalmente pais com empregos de responsabilidade ou donos do seu próprio negócio, que o tempo que dedicam ao trabalho, e por isso a estar longe dos filhos, é por causa deles, filhos. Não há nada mais distante da verdade!

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O tempo que tu, que és pai, passas longe do teu filho, não serve a ninguém senão a ti mesmo:  pode ser ao teu desejo, à tua ambição, à tua dificuldade de estar em casa, ou de te relacionares, ou a qualquer outra dificuldade que tenhas. Podes mascarar essa realidade como te pareça mais bonito, inclusive. Mas a verdade não deixa de ser verdade só porque a pintas da cor que preferes: deixas os teus filhos por qualquer outra coisa. Mesmo com a promessa que em dois anos, em cinco anos, em mil anos, deixarás tudo para voltar para casa. E mesmo que penses que a criança é pequena de mais para notar.

E sim, claro, todos temos trabalho, e todos temos contas para pagar.  Mas as crianças precisam de PRESENÇA. Precisam de pais presentes. SER PAI É ESTAR PRESENTE. Que brinques com o/s teu/s filho/s, que riam, que joguem, que ralhes com ele(s), que te zangues, que ele(s) teste(m) os teus limites, mas acima de tudo que estejas presente.

Ser pai não é ser pai de fim de semana. De umas horas por semana. De alguns jantares por semana.

Não podem ser pais de “quando podem são”. Têm de ser pais sempre. Isso é ser pai. Estar presente. Quando é fácil. Quando é difícil. Independentemente da ambição ou dos desejos dos pais. Ou da relação com o cônjuge. A relação conjugal pode terminar, mas a parental dura para sempre. E, por essa razão, os pais também têm a obrigação de manter o diálogo vivo e de superarem as suas próprias questões relacionais. Porque quer gostem ou odeiem, vão estar para sempre ligados à pessoa com quem geraram essa vida.

Os filhos não precisam de pais que estejam juntos. Eles precisam de pais que saibam relacionar-se e conviver. Que consigam praticar o diálogo, mesmo contra as maiores dificuldades e desafios.

Por outro lado, também há o grupo dos pais que são pais de vez em quando. De quinze em quinze dias …um fim de semana. Ou que não ouvem as crianças chorar porque há sempre alguém que as vai reconfortar e que não é ele. Que deixam as tarefas difíceis e chatas para as mães, para as namoradas, para os outros. Que acham que podem ser pais em part-time, apesar do filho ser sempre filho em full time. E que acham que por trabalhar, por terem empregos e vidas “exigentes”, que a responsabilidade de cuidar é das mães.

Infelizmente as mulheres ainda são, em muitas situações, profissionais, responsáveis pela limpeza da casa e de tudo … e ainda dos filhos. Infelizmente também essa cultura machista é propagada e promovida por todos: pais e mães e é também a mensagem que se transmite a esses filhos que um dia serão pais. E dessa dinâmica desequilibrada os homens encontram um lugar confortável e seguro e muito cómodo para se colocarem.

Os pais, ocupados ou livres, presidentes da república ou desempregados têm exactamente a mesma responsabilidade sobre os filhos que as mães.

Isso significa que a mãe não tem de fazer nada com os filhos só porque sim. Porque eles trabalham e elas não. Ou porque elas são mães. A responsabilidade por estes seres no mundo é exactamente 50% para cada um deles. Seja como for que os tenham feito (intencional ou acidentalmente).

E se as tarefas não podem ser partilhadas em conjunto…. estando os dois pais presentes (que é sempre o melhor para o filho), então que as tarefas se dividam: dás tu de comer e depois dou eu. Deitas o miúdo e depois deito eu. Levantas-te tu para o embalar e depois levanto-me eu.

“Mas eu trabalho e a minha mulher é dona de casa”.

“Mas eu tenho de viajar e a minha mulher trabalha perto de casa”.

“Mas eu não tenho jeito nem sei como fazer e para a minha mulher é algo natural”.

E então??? Não importa! Percebes??? SE NÃO FAZES A TUA PARTE NÃO ÉS PAI. És dador de esperma. Podes até ser alguém com quem o teu filho se relaciona. Que sentes como alguém perto e importante. És o pai biológico, mas não és pai.

Hoje há cada vez mais modelos bem-sucedidos de crianças e de pais que se separam. Crianças que passam a mesma quantidade de tempo em casa do pai e da mãe. Que têm a sua roupa, brinquedos, vida em cada uma das casas. Que os pais se juntam para falar, para encontrar pontos comuns, e para construir o futuro dos filhos.

Há muito pouco tempo descobri que uma parte da minha alma, o Bernardo de quatro anos, ainda estava na porta de casa à espera do dia em que o pai voltasse e que pudesse saltar para os braços do seu pai e voltarem todos a ser uma família. E foi uma descoberta e conquista muito dura esta de resgatar essa criança. E de lhe dizer que podia sair de perto da porta, que o pai nunca iria voltar, e que apesar disso tudo ia correr bem.

E como eu há tantas pessoas, jovens e crianças, presas a esse momento. A esse trauma e a essa ausência que nunca se restabeleceu.

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É possível curar essa dor, mas é preferível crescer sem ela. E por isso luto por mim e por todos os filhos e por todos os pais ausentes que ainda vão a tempo de mudar. Alguém tem de o dizer. E eu aceito isso. Filho de pais separados e pai ausente.

Pai de Gabriel e apaixonado e assustado com a tarefa.

Vamos crescer todos e assumir as nossas responsabilidades como adultos.

Um filho não é “o fazer”. O fazer é a parte fácil. Ser pai é estar presente e é educar. Isso é ser pai.

Filhos partidos ao meio

Eu, com 4 anos, usando uma tshirt da Mabor e um capacete de corrida

Um dos maiores flagelos não discutidos nos dias de hoje diz respeito ao resultado mais trágico e destrutivo das relações quebradas: filhos de pais separados.

Tenho legitimidade para falar do assunto. Eu, como tantos e tantos outros, faço parte do grupo das crianças (e adolescentes) que cresceu com pais separados, com duas casas, com duas famílias e com duas estruturas.

Pode parecer algo pouco grave ou importante, mas posso garantir-vos que não o é. Os pais representam a estrutura fundamental da identidade de qualquer criança. Eles não só representam a origem, a formação, a base estruturante, mas também são o refúgio, o abrigo, a segurança e a estabilidade emocional. Continuar a ler “Filhos partidos ao meio”