Uma relação dá muito trabalho

Estou convencido que as relações são a base e a razão pela qual vimos a este mundo. Não propriamente as relações, mas a capacidade de aprendermos sobre nós próprios e de crescermos com as relações. Existem muitas formas de olhar para as relações amorosas (amigos, colegas, familiares, companheiros), mas para mim as relações são, mais que tudo, um trabalho de grupo, uma construção.

Na universidade sempre tive um problema com os trabalhos de grupo. Muitos dos meus colegas viam os trabalhos de grupo como um conjunto de trabalhos individuais agrafados juntos. “Tu fazes a introdução e lês o capítulo X, ele vai fazer a parte do desenvolvimento da economia portuguesa e a parte dos capítulos XI e XII, e tu fazes a conclusão e a paginação de tudo”. E pronto, cada um ia à sua vida, e na melhor das hipóteses, esse trabalho de grupo resultava num conjunto de trabalhos individuais mais ou menos interligados, mais ou menos consistentes, com duas reuniões para definir e para agrupar o material.

Sempre lutei por outro tipo de trabalhos de grupo. “Vamos ler tudo até ao fim da semana que vem. Depois encontramo-nos, partilhamos ideias, cada um traz os seus resumos e no fim tentamos criar um texto de conjunto articulado e estruturado, que resuma todas as nossas ideias.”

Claro que este segunda opção era sempre a mais difícil. Porque era preciso mais tempo, mais dedicação, mais paciência, e acima de tudo a capacidade para todos assumirem um compromisso conjunto e serem capazes de sujeitar as suas vontades pessoais à vontade do grupo. E construir algo da vontade do grupo. Fosse o que fosse, e assumir a responsabilidade conjunta pelo que se construiu.

Para mim as relações são uma construção conjunta. A dois, a três, ou no caso de uma empresa ou uma organização, um esforço a muitas mãos. A relação é construída pelo que cada um leva de si, e vai oferecendo para a construção desse edifício. E às vezes, fragilizada pelo que cada um vai tirando dessa construção para a sua vida pessoal.

Acontece que um dos dois (só para facilitar a analogia vamos supor que se trata de um casal) vai sempre ser um ocupa durante algum tempo. Um trabalha e o outro usufrui. E é normal que isso aconteça. Um trabalhe mais, outro trabalhe menos. E depois troquem. Um fica a ser o ocupa, enquanto o outro trabalha. E vão rodando. E vão existir momentos em que trabalham ambos, e momentos em que ambos apenas ocupam. No entanto, se nenhum está a trabalhar, a tendência será a deterioração, como com qualquer edifício.

Complicado é quando um se torna um ocupa permanente. E o outro aceita fazer o trabalho em exclusivo. Um trabalha todos os dias, aceita essa responsabilidade, e o outro, apenas consome, usufruiu e presenteia o trabalhador com a sua presença, e aceita também essa responsabilidade. Conhecemos muitas relações assim, mas não nos podemos esquecer que isso acontece com o acordo de ambos. Porque há sempre boas razões para manter o status quo.

Ou então, também conhecemos aquelas pessoas que ficam a trabalhar nos escombros de uma relação que já morreu. Anos e anos numa obra, esperando o regresso da pessoa que sabem nunca voltar, e tentando manter vivo um edifício que está condenado à demolição.

Depois também há aquelas relações onde ambos constroem. Mas cada um para o seu lado. Um está na casa de banho e outro na varanda. Não falam, não discutem os planos. Ambos vão trabalhando o melhor que podem no seu canto. Até ao dia em que quando param os dois, e olham para o que fizeram, têm um edifício que é meio castelo medieval, meio nave espacial. Que não tem fundações comuns, nem espaços partilhados. Que é uma amálgama de conceitos, ideias e estruturas sem base comum.

E como estes podia dar tantos outros exemplos. Digo muitas vezes que para uma relação funcionar é preciso mais que amor. Aliás há muitas relações que vivem e sobrevivem e prosperam sem amor (apesar de não o recomendar). Uma relação precisa da vontade, da dedicação e da capacidade de comunicar e de se sacrificar de todos os incluídos. Porque acima de tudo, uma relação é um trabalho de amor.

por Bernardo Ramirez

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